terça-feira, 20 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A meia idade

Pessoalmente acho que a meia idade é aos 35, ou seja agora. Porque me sinto exactamente a meio: Estou nova demais para ver concertos da Maria Rita na Casa da Música e me debater com a cadeira lindíssima, mas anti-movimento que a cada vontade de dançar sentada me fugia debaixo do rabo. Prefiro sem dúvida o Coliseu, onde se bate com os pés no chão e a madeira ruge connosco e dá voz ao desejo de querermos mais. Na Casa da Música o chão não entoa, pois que bem tentei bater o pé, e as mãos e mexer-me entre a rigidez muscular da audiência bem comportada. Estou velha demais para ver concertos de pé. Gotan Project no Palácio de Cristal, com miúdos gandulos (como é que eles agora crescem tanto...deve ser das hormonas) a taparem-me as vistas e eu a saltar para ver e o pé a doer de esperar e de saltar. E eu a desistir de saltar, de ver ou de ouvir. E a vontade que tudo acabasse depressa, para não ver os excessos da banda a tentar agradar aos miúdos e a perder todo o encanto da fusão que tinha, para passar a pender para a modernice, com muito pouco tango. Gadgets, gadgets....ipod, ipad, luzes....um comando da wii...e as meninas em coro wiiii. E os telemóveis em riste (muitos blackberrys... que falta de gosto) a tirarem fotos para que ninguém lhes perca o rasto no facebook -é preciso que se saiba bem onde se encontram: - Aqui estou eu na casa de banho a puxar, e depois sou eu no concerto dos gotan a dançar wiiii. Tag: gira! wiii. tanto num acto como noutro E o concerto tornou-se numa tontura de cenas repetidas... o miúdo gandulo com a grande juba à miúdo da foz a tapar-me as vistas, as luzes do ipad no palco, o comando da wii a subir os tchan, tchan de batida electrónica asséptica e as yuuu uuu girls à minha frente a darem gritinhos yuuuu uuu cada vez que a electrónica se sobrepunha ao tango. E tiravam fotos mais uma vez para porem no "face" (nome carinhoso que dão a essa invenção do demo). E no "face" o concerto faz prova da existência, No "face" tudo se materializa. E no "face" gostarão ainda mais de gostar do concerto, pois poderão ver-se a ve-lo. No "face" vão tagar palermices (mesmo ao lado das fotos do wc que também postaram e onde em vez de "tagar" fazem uso de um verbo que soa ao mesmo, e no fundo é a mesma coisa, apenas com cheiro diverso). E no "face" as onomatopeias descritivas dos yuuuu uuus saem da minha irritação para a constatação. E no concerto, a minha cabeça arde de enjoo: do face, do tag, do pé, do yuuuuu uhhh. E assim em dois concertos percebi que estou na meia idade....já saí do Palácio e ainda não cheguei à Casa da Música.