domingo, 12 de dezembro de 2010

A difícil tarefa de verbalizar o que se sente

Acho que entretanto perdi a capacidade de escrever.
Não sei se aconteceu com o nascer do primeiro fio branco de cabelo.
Ou se as noites de insónia adormeceram o último neurónio inspirado.
Acho até que foi um processo lento. Já não sei escrever há muito tempo. Já quase não me lembro de saber escrever. E ao dizer "saber escrever" refiro-me à compulsão que sentia. Ao estado emergente...à necessidade imediata. Ao acto simples de sem pensar, pensar por escrito, mal conseguindo acompanhar com a agilidade da mão, a rapidez da palavra.Sinto falta de escrever, daquela forma incontida de quem verte uma lágrima. Escrever naturalmente como quem pensa num desejo e sopra as velas.
É exasperante continuar a pensar e a sentir da mesma forma, mas não ser simplesmente capaz de dizer uma palavra sobre o assunto. Sinto que não consigo que o que penso chegue ao lado de cá do abismo. Rompeu-se uma qualquer travessia que fazia a ligação directa à palavra. Entrei numa espécie de auto-censura que não sei desbloquear.

E um sem número de vezes me sinto como agora em que por mais que tecle, a nenhuma destas letras fui capaz de passar a mensagem.

Acima de tudo gostava de saber expressar o que sinto. E o que sinto agora é que uma manada de gnus se libertou e ao meu redor apenas aquela poeira bem-vinda da corrida desenfreada. Sinto que me arrancaste uma manada de gnus do peito e ainda tremo com a emoção da porta escancarada.

e que música merece esta tradução deficitária do que sinto? (vou pensar)

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