Ando num deserto de leitura e à parte do trabalho que me obriga a leitura constante, tenho lido pouquíssimo e coisas esparsas. Acabei no entanto um livro que a minha mãe me ofereceu no Natal e ainda bem que o li.Passei as férias do verão nos Açores e, especialmente em S. Miguel e em particular em Ponta Delgada, é frequente a menção a José do Canto. Visitei inclusivamente em Ponta Delgada o "jardim de José do Canto", que achei muito abandonado, embora pelas espécies presentes deixasse a sugestão que teria sido muito bonito. Ainda me fartei de reclamar para mim mesma com o preço do bilhete, pois o actual estado do jardim não parecia estar a beneficiar de manutenção nenhuma, pelo que não entendi o valor que cobram aos visitantes.
Depois de ler o livro, sobre o homem, por trás do nome, apetecia-me voltar aos Açores e deter-me com admiração por cada menção a José do Canto, ainda presente.
O livro é no fundo uma quase biografia que traça o perfil de José do Canto, muito apoiado nas cartas que este trocou com os vários membros da família. Embora o título se refira aos Cantos, quem realmente me interessou foi José do Canto e penso que mesmo à autora, apenas ele interessa.
José do Canto foi uma pessoa admirável, que viveu no século XIX, mas que era feito de matéria intemporal, de tal modo que o seu nome lhe sobrevive ainda hoje. Não me interessa grandemente, linhagens familiares e enquadramento histórico. Claro que é interessante saber que este homem acompanhou os filhos, como ninguém faria nessa altura e mudou-se para Paris de armas e bagagens com o único propósito de estar perto enquanto eles recebiam a educação que ele considerava ser a melhor, permanecendo quase em exílio com a data marcada para o regresso apenas quando os filhos se formassem. É interessante saber que este homem foi pioneiro na visão de S.Miguel relativamente ao mundo, investindo em novas culturas (ananás, chá) e debatendo-se com a inércia política para construir uma doca em Ponta Delgada e assim facilitar o comércio com o exterior. É interessante saber que este homem era um curioso pela ciência e se dedicou a coleccionar cerca de 6000 espécies de plantas de todo o mundo, que fez crescer no dito jardim, que eu (com tristeza agora reconheço) não consegui apreciar pelo desmazelo. É muito interessante saber que este homem nunca deixou de dizer à mulher o quanto a amava, e fazia-o em todas as cartas e todas as separações que as viagens obrigavam, sempre sem aquele medo estúpido que alguns homens demonstram, de dizer demais o que sentem (a velha desculpa do medo da banalização das palavras...meus amores, as palavras não são as culpadas, culpa é a de quem as massacra e sentindo-as gastas, não as sabe reacender).
Mas por mais interessantes que sejam estes factos, por revelarem o espírito, a curiosidade e a progressão de pensamento, tão inusitados para a época e ainda mais para um homem rico, mas não aburguesado (era até espartano), o que mais me interessou não foi isso. O que mais me interessou foi ler as cartas que José do Canto escrevia (escrevia muito bem) e nelas pressentir o que estava por trás de tudo o que ele fazia: a paixão.
Cada vez mais me convenço que a paixão, em todas as suas formas, é o motor da vida.
A paixão movia José do Canto a não estagnar. Tinha paixão pelo conhecimento, paixão pela mulher, paixão pelos filhos, paixão por uma imagem de futuro que ele havia delineado na sua cabeça.
Nada lhe correu de feição. A família não partilhava do mesmo sangue veloz. Os filhos de educação esmerada eram apáticos. Não tinham gosto por nada em particular e isso tornou-os perdidos e vagos. A mulher, talvez por restrições da época (as mulheres teriam que ser bem fortes para alguma paixão do carácter sobreviver a todas as restrições sociais), era queixosa e imagino-a amarela, queixando-se e vivendo lamurienta. A política e a sociedade eram como hoje são, cheias de burocracias, demoras, jogos idiotas que o exasperavam.
Tudo isto fez com que entristecesse e apesar de nunca perder o vigor, nem a chama que lhe era intrínseca, viu-se resignado a constatar que a felicidade é uma idéia romântica e ilusória.
E é assim que apesar de José do Canto acabar os dias a pensar que falhou, vem mais de 100 anos depois tocar no ombro de alguém que lê as suas cartas, como que a sussurrar: e tu, o que vais fazer do teu privilégio de viver? que paixões vais levar adiante? o que te faz correr o sangue?
E eu, com a marca no ombro ainda viva, não consigo dormir antes de sussurrar de volta:
Se me pudesse ouvir/sentir só lhe queria agradecer e dizer que não falhou, pois há-de tocar no ombro a tanta gente que, como eu, de vez em quando, pelo cansaço, pela rotina, pelo trabalho ou por desculpas várias, se esquece de se sentir sempre apaixonada.
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