terça-feira, 2 de outubro de 2012

180 º

Tenho sempre a sensação que o cérebro nos antecede nas decisões.
Passo a explicar: refiro-me à velha discussão sobre o que é consciente e subconsciente.
Há alguma coisa subliminar ao entendimento que não gosto de chamar subconsciente, pois envolve tudo o que à consciência diz respeito. Digamos que é um estado mais subtil do que o declaradamente consciente.
O meu cérebro tem essa subcapa a que não acedo declaradamente, mas a que obedeço e que me vai guiando pela turbulência. Enquanto me esforço por racionalizar e dirigir concretamente as decisões, sob esse marasmo reina uma paz declarada da certeza do que deve ser feito.
Já me senti perdida algumas vezes, olhando para os dias com dificuldade de optar. E mesmo nesses dias mais confusos, aquelas certezas entranhadas me guiavam, muitas vezes tornando ao meu corpo como um mero receptáculo de sensações. Agradeço ao meu cérebro na sua versão de autopiloto que sozinho sabe o que quer. E que faz o meu corpo repudiar o que não quer, mesmo que a racionalização me leve a aguentar.
Sempre fui assim. De andar a tentar encaixar cubos dentro de buracos esféricos. Até que o meu cérebro me diz: alto já chega e me faz ter juízo e procurar forma para o meu cubo em vez de tentar limar as suas originais arestas.
Não sei se isto se passa com o resto das pessoas. Mas penso que sim. Vejo na farmácia tantas dores e alegrias iguais às minhas que sorrio internamente a pensar como somos todos tão carne e osso, e tão todos mais do mesmo.
Por isso se isto ajudar a alguém, saibam que vocês sabem sempre o que querem, mesmo quando a mudança os leva a querer raspar arestas para encaixar onde não devem.
Dêem atenção ao que lêem e perceberão que o cérebro procura sempre caminhos para sobreviver.
Quem me salva sempre são os livros. Pois nos momentos cruciais os livros que escolho guiam-me. Com mãos ternas, as palavras primeiro insinuam-se e mais tarde revelam-se e explicam-se.

Nestes tempos de indecisão e mudança tudo o que li me guiou.
Não foi por acaso que reli a Montanha mágica do Thomas Mann, e que andei a ler Luís Sepúlveda e as suas descrições da Patagónia ou Luigi Pirandello e o seu "um ninguém e cem mil". Mas sobre cada um deles virei a falar.

Agora é tarde e só queria dizer, se é que alguém lê, que apenas lamento a minha ausência nos momentos importantes das pessoas. Passarei certamente como uma péssima amiga, e de facto sou, no sentido que a amizade tem de mais comum. Mas sinto uma amizade imensa por poucas pessoas preciosas que retenho como minhas, mesmo que a vida passe e eu não veja. 
Tenho tanto de cínico como de crente. Acredito que sabem o que sinto.
Passe a redundância: espero que esperem por mim

1 comentário:

Anónimo disse...

obrigado. 20