terça-feira, 22 de novembro de 2011

Calabar - o elogio da traição



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Calabar de Ruy Guerra e Chico Buarque é uma peça de teatro, que li já contaminada pelas músicas que conhecia de antemão e pela Portugalidade do meu sangue.
É óbvio o desafio que a peça impõe. O de questionar as versões oficiais, dadas como certas. O de virar a palavra do avesso e ver que do lado não aparente a palavra se transmuta noutra.
Perante a guerra entre Portugueses e Holandeses no século XVII no Nordeste Brasileiro, Calabar, que pertencia à facção Portuguesa, muda de lado e começa a lutar e a ganhar ao lado dos holandeses. Num acordo feito entre holandeses e portugueses é trocada a captura de Calabar pela conquista da Bahia e uma vez em poder dos Portugueses, Calabar é morto em praça pública e esquartejado como o traidor.
A peça mostra assim que do heroismo à traição vai um virar de lado. Calabar o traidor, foi ele próprio traido pelos holandeses que o usaram como moeda de troca. As intenções de Calabar na mudança de lado estratégico também se insinuam diferentes de traição. Calabar acreditava que o caminho certo para a sua terra era apoiar os holandeses. E nesse sentido, não será Calabar um herói? Um herói, porque se manteve fiel ao que acreditava. Nesse sentido a traição é apenas traição se vista de fora e de um lado apenas.

Mas eu disse que li o livro contaminada. Um livro que contém uma peça teatral não é um teatro. E nele não é possível ver a dor de Bárbara, amante, amada?, amaria Calabar? Ou amaria a imagem de um Calabar mártir?
Não sei o que sucede à Bárbara do palco, mas a Bárbara do livro pareceu-me gostar mais de se ver a gostar de Calabar, herói do avesso. Como num jogo de espelhos em que a compaixão por nós mesmos nos faz tantas vezes gostar de nos ver a gostar e a sofrer para que esse gostar seja elevado a uma forma que nunca seria possível nos amores terrenos e concretizáveis.

Li o livro contaminada e o texto que toda a gente apelida de extremamente inteligente desiludiu-me.
Desiludiu-me a conversa de latrina. Seria mesmo necessário satirizar de uma forma tão básica para se perceber que os heróis e os traidores dependem do ponto de vista?
Eu que gosto tanto do Chico Buarque fiquei irritada com aquela sensação de parcialidade, na escolha do buçalismo para a colonização portuguesa. O século XVII não seria obviamente um século de respeito pelos direitos humanos! Nem hoje eles estão garantidos. Não consigo perceber, porque motivo pessoas inteligentes como Chico Buarque e Caetano Veloso (a figura que este fez com o seu discurso anti-colonialismo na expo 98) continuam a achar que os brasileiros são os pobres dos indios puros e angelicais que os portugueses colonizadores dizimaram. Não são! Os brasileiros são a descendência dessa luta. Os brasileiros são a soma dessa adição. São o resto dessa divisão. O sangue de Chico Buarque e Caetano Veloso não é Guarani. O sangue deles contém a bondade dos índios (bondade apenas?) e a atroz herança dos portugueses. Os mexicanos não são os maravilhosos descendentes do povo Maia (que sim, era maravilhosamente avançado, mas impiedosamente cruel também....jogava futebol com cabeças humanas, tinha hierarquias, matava o seu povo também, fazia sacrifícios). Os mexicanos são apenas os filhos das violações de Hernan Cortés e da sua corja espanhola, às mulheres do povo maia. Os mexicanos não são maias. Os mexicanos só existem porque são o resultado da colonização. Os brasileiros só existem porque são o resultado da colonização.
Cruel, brutal sim, mas por favor, chega de cérebros inteligentes fazerem dos colonizadores bodes expiatórios para o seu descontentamento com o presente e com o futuro.

Olha para nós Brasil, somos colonizadores vis, ri-te de nós à gargalhada. Faz um carro alegórico no Carnaval onde podes deixar claro que finalmente vingaste o indio, e nós os portugueses vilões que carregavamos ouro carregamos agora impostos e dívidas ao FMI. Façam isso por favor. ó gentes do Brasil e expiem o vosso ressentimento de uma vez por todas.
Eu cá aceito o frio, o trabalho precário e a possibilidade de desemprego e prometo, que mesmo que o céu esteja púmbleo como só ele sabe ficar e que mesmo que o coração esteja apertado de falta de luz, não vou culpar os romanos por terem invadido os lusitanos. Nem me vou pôr a tentar mostrar que o celtibero Viriato era afinal um traidor do lado romano, nós que sempre o vimos como um herói.

sábado, 5 de novembro de 2011

Não sei mais como dizer-te

http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/22/helder1.html

Que a adaptação é um mero recurso da necessidade última
Que o sono e a vigília recebem a visita dessa sombra
E se adaptam, escorrem e incorrem em mudanças
Porque é preciso dormir e acordar e dormir e acordar e dormir

Não sei bem como dizer-te
Que não estar, não ser, não existir
Não se trata de um espaço corrigido
Ou de uma linha apagada no texto
Reescrita, refeita
Não sinto, não estou, não existo
Faço-me ser e surgir de repente
Como quem sabe e sente
Porque é preciso sentir e saber e sentir e saber e sentir

Não consigo convencer-te
Que há ausências tão densas, que ocupam o espaço
de uma presença incómoda, grossa, imensa
Que se adensa em noites de nevoeiro e trovoada
E se senta ao colo com o peso da montanha
E quando o mar ruge como um leão
Não sei de onde vem este barulho
Que soa a engrenagem rouca cheia de areia e ferrugem
Que mastiga sempre um bocadinho da coragem
E deixa passadas das garras na pele

Não sei bem como explicar-te
Que tenho uma pena imensa
Das palavras guardadas
E das outras: as engolidas
as não ditas, as esquecidas
As abafadas
As ultrajadas
Aquelas que nunca foram usadas
E também as que esperaram tempo de mais
Até serem letras sem sentido
Como contas debitadas
Num colar que cresce
Para ninguém usar

Não sei bem como dizer-te
Que por mais que tente
não consigo apreender
a ausência
E na recorrência desta minha incapacidade
volto às voltas
Do carrocel dos inconformados

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Da In sonia para a out sonia....ou como domesticar um cérebro que se conhece de gingeira

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Chegou-me a Sónia, mais uma vez nesta noite fria.
Tenho os pés gelados, mas sabe bem por vezes ficar simplesmente a ouvir o corpo e as suas manifestações.
E se do corpo apenas o frio dos pés responder, é bom então apurar o ouvido para a noite e para o mar a rugir como uma máquina mal oleada.
Mudo o rumo e começo a pensar em escalas. Eu e os meus pés de pequena superfície (um mero 37) gelada face ao macroscópico mar, gigantópica criatura.
É o suficiente.
Para um cérebro treinado para estabelecer comparações, é o suficiente para que o meu frio e a minha vigilia se encolham à insignificância do espaço que ocupam no vasto mundo que me ruge ao ouvido. E de repente estou out sonia, para escorregar para dentro do sono dos pequeninos.