http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/22/helder1.html
Que a adaptação é um mero recurso da necessidade última
Que o sono e a vigília recebem a visita dessa sombra
E se adaptam, escorrem e incorrem em mudanças
Porque é preciso dormir e acordar e dormir e acordar e dormir
Não sei bem como dizer-te
Que não estar, não ser, não existir
Não se trata de um espaço corrigido
Ou de uma linha apagada no texto
Reescrita, refeita
Não sinto, não estou, não existo
Faço-me ser e surgir de repente
Como quem sabe e sente
Porque é preciso sentir e saber e sentir e saber e sentir
Não consigo convencer-te
Que há ausências tão densas, que ocupam o espaço
de uma presença incómoda, grossa, imensa
Que se adensa em noites de nevoeiro e trovoada
E se senta ao colo com o peso da montanha
E quando o mar ruge como um leão
Não sei de onde vem este barulho
Que soa a engrenagem rouca cheia de areia e ferrugem
Que mastiga sempre um bocadinho da coragem
E deixa passadas das garras na pele
Não sei bem como explicar-te
Que tenho uma pena imensa
Das palavras guardadas
E das outras: as engolidas
as não ditas, as esquecidas
As abafadas
As ultrajadas
Aquelas que nunca foram usadas
E também as que esperaram tempo de mais
Até serem letras sem sentido
Como contas debitadas
Num colar que cresce
Para ninguém usar
Não sei bem como dizer-te
Que por mais que tente
não consigo apreender
a ausência
E na recorrência desta minha incapacidade
volto às voltas
Do carrocel dos inconformados
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