sábado, 13 de julho de 2013

O declínio das perspectivas






Desconfio das pessoas que convivem bem com o processo de envelhecimento.
Só o facto de se falar num processo indicia já que a coisa é demorada, sofrida e sem resolução.
Envelhecer é oxidar gradualmente. É esclerosar os vasos. É perder o viço dos esfíncteres e voltar a usar fralda. É ver todos os tecidos do corpo a escorregarem em direcção ao chão, numa obediência surda à gravidade. É sentir dia-a-dia menos força ou como uma amiga minha dizia: é sentir o corpo. De repente, o corpo que repousava em silêncio e sem peso na cama, passa a ganhar existência. E sentimos um peso nos ossos, nos membros. O corpo dói, a cama cansa.
Envelhecer é já não sermos surpreendidos. É ter visto umas quantas cenas iguais e encolher os ombros por falta de espanto.
Envelhecer é ter inveja de um bebé que ri à gargalhada quando alguém se esconde e aparece. Envelhecer é ter impaciência para o discurso inflamado dos jovens
Envelhecer é ser um pouco descrente (ou ainda mais do que sempre se foi) e sentir alguma sobranceria sobre quem ainda acredita.
Envelhecer é dizer: "eu não estou para aturar fretes...com a minha idade só faço o que quero" e considerar que a indiferença é uma vantagem.

Sobretudo envelhecer é um declínio das perspectivas, quando a vida já está tão canalizada que dificilmente transbordará.

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