quinta-feira, 3 de julho de 2014

Uma espécie de igualdade




Hoje nas minhas viagens inter-cidades ouvi na rádio o relato de um professor da Chamusca que escreveu um livro chamado "Atitudes perante a morte".
Numa reflexão muito interessante, explicou o autor do livro que o cemitério da Chamusca era a imagem especular daquela aldeia, porque a morte do cemitério é obra dos vivos que a visitam.
E assim na Chamusca há uma estrada principal que corta a aldeia a direito onde estão as casas dos senhores mais ricos. Nas ruas laterais a essa via principal está a classe média e média-alta. E finalmente nas encostas do monte, já nas raias da aldeia estão os mais pobres. O cemitério da terra segue a mesma estrutura, com uma via principal de jazigos das famílias abastadas, campas laterais de todos aqueles que têm dinheiro para uma última habitação condigna e, atrás da capela, onde pouca gente vai e que pouca gente vê, as campas comuns, dos que pouco tinham e com nada partem.

Lembrei-me de imediato de um quadro do Museu d'Orsay de um pintor que me era desconhecido, mas que me impressionou muito: "egalité devant la mort" de William Bouguereau.

E percebo um pouco dessa paz que atribuem à morte e que silencia todos os enredos dos vivos, todas as espécies de igualdades fictícias.
Comovo-me com pessoas que ainda se indignam perante as quebras da democracia. Sinto grande ternura por pessoas que ainda se chocam perante votações forjadas, conluios e artimanhas.
Porque o choque e a incredulidade, pressupõem alguma utopia e inocência.
E eu, que já me espanto com pouco, comovo-me com quem consegue sentir indignação e repulsa.

Eu já só consigo sentir um certo consolo desencantado, por saber que debaixo da terra e debaixo das campas, jazigos e valas comuns... aí sim, há uma espécie de igualdade

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