quinta-feira, 31 de março de 2011

Do(rm)ente

Passei estes últimos 3 dias doente e a dormir. E não sei bem se dormia ou ficava dormente, naquele estado feliz de ausência de sentir. Acordava somente para adormecer mais uma vez.

Lembrei-me muito do Jorge Palma e de como é bom fugir da realidade e viver na terra dos sonhos:

"Na terra dos sonhos podes ser quem tu és
Ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos, toda a gente trata toda a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas
Ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos e escuta bem o coração se queres ir para lá morar"

Eu adapto de uma forma mais literal esta ida à terra dos sonhos "fechando bem os olhos e calando bem o coração" andarei por lá até de manhã, em longas noites que começam ao fim de uma tarde como esta.

até amanhã
_________________________________________

segunda-feira, 21 de março de 2011

Ser resiliente

E se ser assertivo for de todo impossível, deliciam-se os psicólogos com aqueles que são resilientes. No fundo, o sentido físico é o de suportar pressões, deformações, sem perder a forma inicial. Imagine-se uma mola humana que é puxada pelas pontas e largada e puxada e largada. Enquanto os puxões forem brutos, mas suportáveis, a mola volta ao sítio, quando largada em sossego. Claro que a elasticidade é perdida com o tempo, e também há limite para o puxão, pelo que é melhor que a mola se acautele para pinchar fora, caso as coisas se tornem incomportávies. Há quem conecte ainda a capacidade de resiliência com a capacidade de sobrevivência, o que de facto faz sentido. Ser resiliente é o escape de sobrevivência daqueles que não conseguem ser assertivos. Se a assertividade fosse uma qualidade não Barbie acessível a qualquer boneco de trazer por casa, o mundo era de facto o reino dos ursinhos cor-de-rosa, onde reinaria a paz e a compreensão, e o diálogo e a partilha e...sei lá que palavras mais feitas de poliéster e made in taiwan. Mas não. É difícil ser-se assertivo fora do Toys r' us ou do mundo encantado dos brinquedos da Leopoldina (que aliás também tem um arzinho de ter batido contra uma árvore e viver agora com algum dano cerebral).
Conclusão: a falta de assertividade compensa-se com uma grande capacidade de resiliência. E quando a pancada é muita e ameaça partir, à nossa espera há sempre o  maravilhoso efeito placebo de um Pharmaton e uma música escolhida a dedo, como a que se segue:

Apesar de você, amanhã ha-de ser outro dia

Ser assertivo

Assertividade é a palavra preferida dos psicólogos, se calhar ex aequo com a palavra resiliência.
Diria mesmo que a assertividade está para os psicólogos como o efeito placebo para os farmacêuticos, no sentido de ser um dos exemplos de jargão profissional mais acarinhado.
A verdade é que esta tal "assertividade" me enerva um bocadinho (mais do que isso, enerva-me muitissimo), pois parece a Barbie das qualidades. Se procurarmos significados para a palavra na net deparamo-nos com exemplos como este:
"Imagine que está no seu local de trabalho, muito ocupado com algumas tarefas urgentes e decisivas para o bom funcionamento da empresa. Entretanto o seu chefe vem ter consigo com um problema e pede-lhe, com igual urgência, para fazer uma outra actividade que o ocupará durante várias horas."
Diz o comportamento assertivo:
"Olhe directamente para o seu chefe, explique que o seu tempo está totalmente ocupado e procure saber qual é a prioridade do pedido feito, comparando-a com as outras tarefas que tem a fazer nesse dia.
A seguir, defina com o seu chefe a nova organização das prioridades do seu trabalho, para, nessa altura, decidirem se será você a pessoa mais indicada para dar resposta à necessidade entretanto surgida."

Aããh?? Em que mundo se passa isto? Com certeza no mundo dos ursinhos cor-de-rosa, ou das montanhas de algodão doce. Talvez no Toys r' us morem peluches assertivos. E mesmo assim desconfio um bocado, aquela Hello Kitty nunca me enganou!

_________________________________________

quinta-feira, 17 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

O país da delicadeza perdida


____________________________

Há dias que por cansaço ou por desencanto, nenhuma das técnicas treinadas para ver o mundo por uns óculos de lentes coloridas surte efeito.
E nessa altura, nem sequer percebemos se a chuva que açoita a janela é a mesma da que nos arde nos olhos.
Não sei se estes dias são iguais aqueles em que me contorcia com dores nas pernas e em que a minha tia me dizia que eram as dores do crescimento. Talvez sejam as dores da maturação, do envelhecimento.
É assim uma espécie de chegada ao lugar da delicadeza perdida. Onde finalmente aterramos depois de há tanto tempo carregarmos ao peito uma arca de desencantos. Há dias que a arca enche e a dor é apenas conformada, cansada, ansiosa pelo conforto básico de uma cama razoavelmente quente e de um sono asséptico sem sombra de sonhos.

terça-feira, 8 de março de 2011

Satan is my motor


____________________________

Hoje acordei com este som na cabeça.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és #2


__________________________

De Angus and Julia Stone, dois manos australianos que o meu mano me disse que ia gostar. Mais uma vez acertou.

sexta-feira, 4 de março de 2011

It's been a long time



______________________________

Well it's been a long time, long time now
Since I've seen you smile
And I'll gamble away my fright
And I'll gamble away my time
And in a year, a year or so
This will slip into the sea
Well it's been a long time, long time now
Since I've seen you smile

Nobody raise their voices
Just another night in Nantes
Nobody raise their voices
Just another night in Nantes

Contos de Tchékhov

A um ritmo lento de caracol, só agora dois meses depois do Natal acabei os contos de Tchékhov (volume IV). Em minha defesa digo que li também a bibliografia do José do Canto e as cartas a um jovem poeta, mas 2 meses é muito tempo para tão poucas leituras.
O que é certo é que há livros que também prolongamos por nos saberem bem, como um doce que deixamos derreter na boca.
Os Contos começaram por me fazer muito frio, porque há ali muito material humano de um Rússia agreste de invernos rigorosos, mas aos poucos fui ficando cada vez mais fascinada. Tchékhov tem o poder de centrar a atenção não em enredos do qual as personagens são meros peões, mas nas personagens, onde o enredo é só um pretexto. E assim não espere quem o lê encontrar histórias e desfechos. Não se trata disso, porque a vida também não é assim. Na nossa vida também não há uma cortina que se fecha com um fim aplaudido. E os contos são uma maravilhosa transposição de bocados de vidas. As pessoas descritas são mesmo pessoas, dessas que temos a certeza existirem, tal a dimensão e complexidade que apresentam. E o enredo é mesmo essa malha humana, esse caractér de cada personagem, extremamente vivo e verosímil.
Senti-me neste livro a fazer uma das coisas que mais gosto de fazer. A espreitar vidas de outras pessoas.
Chamem-me cusca, mas às vezes estou num café ou num restaurante e sinto vida a sair das outras mesas. Dou por mim a prestar atenção a conversas de pessoas estranhas e entretenho-me com aqueles retalhos do cotidiano. Os contos de Tchékhov são exactamente janelas por onde se espreita e apanha de repente pessoas que vivem e se cruzam connosco. Quando fechei o livro tive a certeza que aquelas vidas continuaram os seus caminhos. A Pelagueia continua a espreitar o Egor Vlássitch e a sonhar com um pouco da sua atenção e ele continua a ostentar a roupa oferecida com a mesma pobreza de Pelagueia, mas com a ilusão de um distanciamento muito grande daquela realidade a que finge não pertencer. E se virar a cara ainda encontro novamente Savka, naquele papel de passageiro pela própria vida, com o desprendimento de toda a culpa e a desvantagens de não sentir dor (já vi tantos como ele, meros figurantes dos próprios dias).
E se abrir o livro quando ele não esperar acho que encontrarei a filha da Zinaida Fiodorovna, talvez a sofrer da anestesia do espírito num bordel, onde levará os homens a pagarem-lhe bebidas. E talvez Vassiliev a veja e deixe de dormir com o peso de ver almas moribundas. E se vasculhar bem, verei o Orlov escondido que nem um rato, no seu esgar de ironia com que despreza o mundo( um pouco como o Savka, mas versão citadina e polida com leituras).
E sei que de rompante verei o Laptev a ver o amigo a ver a mulher. E vendo a mulher vista pelos olhos de quem a vê e ama, talvez Laptev a volte a amar e ver.
Fecho os contos mas deixo a porta encostada, pois talvez eu um dia volte e os apanhe a todos e um-a-um desprevenidos a viver dentro do livro.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és

Já conhecia e gostava deste grupo Beirut com influências de música dos Balcãs. É óbvio para mim que dos Balcãs vêm sempre ritmos e imagens que me despertam. Gosto muito do Emir kusturika, por exemplo.
Mas mesmo assim fascina-me essa ideia que da diversidade imensa do mundo, há coisas que se destacam para nós e talvez não para os outros e é essa atenção dirigida que define a nossa assinatura, o nosso "estilo".
Esta música enviou-me o meu irmão dizendo "sei que vais gostar". E fiquei a pensar no apeiron de onde parte tudo o que somos, cada um de nós. Parece que, para quem me conhece e conhece o que gosto, isso é suficiente para saber que eu vou gostar de algo que posso até desconhecer. Ou seja, mesmo que eu não fale muito, o meu molho de cds dirá tudo por mim (eu já desconfiava).




Send me now, the winter's over
Life turns sour and we are older
The love we've had will turn all over
The gold went south and we are older

Oh when tides broke (you walked now)
On a night like this we walked around
no but I, I won't have you anymore
no and I, I can't have you anymore

And some days we're all alone on the banks of the Rhine
And some days all we had was our barrels of wine
The salt in the sea brings us near, shows us what's to find
And some days all we had was our barrels of wine