A um ritmo lento de caracol, só agora dois meses depois do Natal acabei os contos de Tchékhov (volume IV). Em minha defesa digo que li também a bibliografia do José do Canto e as cartas a um jovem poeta, mas 2 meses é muito tempo para tão poucas leituras.
O que é certo é que há livros que também prolongamos por nos saberem bem, como um doce que deixamos derreter na boca.
Os Contos começaram por me fazer muito frio, porque há ali muito material humano de um Rússia agreste de invernos rigorosos, mas aos poucos fui ficando cada vez mais fascinada. Tchékhov tem o poder de centrar a atenção não em enredos do qual as personagens são meros peões, mas nas personagens, onde o enredo é só um pretexto. E assim não espere quem o lê encontrar histórias e desfechos. Não se trata disso, porque a vida também não é assim. Na nossa vida também não há uma cortina que se fecha com um fim aplaudido. E os contos são uma maravilhosa transposição de bocados de vidas. As pessoas descritas são mesmo pessoas, dessas que temos a certeza existirem, tal a dimensão e complexidade que apresentam. E o enredo é mesmo essa malha humana, esse caractér de cada personagem, extremamente vivo e verosímil.
Senti-me neste livro a fazer uma das coisas que mais gosto de fazer. A espreitar vidas de outras pessoas.
Chamem-me cusca, mas às vezes estou num café ou num restaurante e sinto vida a sair das outras mesas. Dou por mim a prestar atenção a conversas de pessoas estranhas e entretenho-me com aqueles retalhos do cotidiano. Os contos de Tchékhov são exactamente janelas por onde se espreita e apanha de repente pessoas que vivem e se cruzam connosco. Quando fechei o livro tive a certeza que aquelas vidas continuaram os seus caminhos. A Pelagueia continua a espreitar o Egor Vlássitch e a sonhar com um pouco da sua atenção e ele continua a ostentar a roupa oferecida com a mesma pobreza de Pelagueia, mas com a ilusão de um distanciamento muito grande daquela realidade a que finge não pertencer. E se virar a cara ainda encontro novamente Savka, naquele papel de passageiro pela própria vida, com o desprendimento de toda a culpa e a desvantagens de não sentir dor (já vi tantos como ele, meros figurantes dos próprios dias).
E se abrir o livro quando ele não esperar acho que encontrarei a filha da Zinaida Fiodorovna, talvez a sofrer da anestesia do espírito num bordel, onde levará os homens a pagarem-lhe bebidas. E talvez Vassiliev a veja e deixe de dormir com o peso de ver almas moribundas. E se vasculhar bem, verei o Orlov escondido que nem um rato, no seu esgar de ironia com que despreza o mundo( um pouco como o Savka, mas versão citadina e polida com leituras).
E sei que de rompante verei o Laptev a ver o amigo a ver a mulher. E vendo a mulher vista pelos olhos de quem a vê e ama, talvez Laptev a volte a amar e ver.
Fecho os contos mas deixo a porta encostada, pois talvez eu um dia volte e os apanhe a todos e um-a-um desprevenidos a viver dentro do livro.
sexta-feira, 4 de março de 2011
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