sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Anunciaram e garantiram que o mundo ia-se acabar



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Por hoje ainda há mundo, mas eu gostava de me fazer de Adriana e anunciar e garantir que o mundo acabará. Sob o manto do "vale tudo" fico a cismar no que faria.
Imaginar que seguia a vontade e estaria a caminho de ti.
Desejos simples os meus. De apenas partilhar a tarde, o dia ou a noite. E ficar a saber o que lês e o que vês, eu que tenho lido e visto muito pouco.
Se o mundo acabasse não poderia deixar de ver o mar. Poderíamos até partilhar um sofá, uma manta e quem sabe um gato numa qualquer varanda de onde o bramir se ouvisse e visse.
Talvez preferisses chá, mas eu na eminência do fim do mundo queria um vinho, tinto vivo.
Talvez que na eminência do mundo no fim, me deixasses voltar ao início. Ao tempo que conheci os teus lábios, os mesmos de quem sinto falta. Há beijos e palavras que não se esquecem.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O marketing de experiências

Em apenas 30 anos sucederam alterações notáveis na forma de ver o consumo.
Em 1980 a qualidade não tinha preço e o marketing era focado no produto.
Em 2012 vive-se com o vislumbre dessa qualidade e quer-se tê-la ao melhor preço.
O marketing tornou-se experencial e ninguém ousa gastar o dinheiro da crise em apenas produtos.
Pretende-se adquirir experiências. Pretende-se satisfazer necessidades. E na faculdade os objetivos de Bolonha apontam para a aquisição de valências.
Tudo isto tem qualquer coisa de etéreo e desesperado.
Fico a pensar no que nos move a todos de um ponto a outro.
E como vamos como numa torrente, levados pela mudança.

Vejo sempre as mesmas coisas todos os dias. Sempre as mesmas dores estampadas nos olhos dos velhos, mesmo em olhos de cores diferentes, o medo é o mesmo. Vejo sempre a mesma suspeição no sorriso dos mais jovens, convictos que ninguém os vê.
Sinto-me no meio. Com plena consciência da dor que se abeira e com o pé que saiu da crença que sabia de tudo.

Tenho pena das carcaças humanas que estremecem de febre e medo. E tenho pena dos olhos que do fundo pedem o tempo que já gastaram.
Há pessoas que choram pela solidão e pelo esquecimento. Muitas pessoas sós a quem só restava um outro que entretanto morreu. Os filhos são os tais que suspeitam que não seja nada assim. Raio dos velhos que não se calam e interrompem a vida atarefada dos filhos na cidade.

Sempre pensei que o envelhecimento tinha algo de dignificante. Mas tudo no corpo diz o contrário. Tudo descai mais um pouco e a memória esvai-se como que a atenuar a saudade do que foi.

Percebo que muitos se dediquem a encontrar o sentido para tudo isto. Pois que sem ele, tudo parece uma descarada reinação.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Naturalmente

Sob o signo das hormonas e do frio é sempre difícil ser abnegado e convicto.
Questiono-me como tantas outras vezes já sem grande coragem de me auto-punir por não ter essa capacidade de me contentar com a vida e de ter sempre este cenho arreganhado num esgar de sorriso à custa de algum esforço.
Não sou naturalmente simpática, nem naturalmente feliz.

Fico a pensar sobre isso. Sobre esses seres que nascem contentes com a vida e sobre esse advérbio que os veste de espontaneidade e pureza.
"Naturalmente" é sempre bem visto em oposição ao "forçadamente".
Sou sempre forçadamente quem sou. E como todos os seres em busca de aprovação esforço-me para que não me detectem o esforço nem a mácula da vergonha por não ser naturalmente tudo o que devia afinal ser.

O frio dá-me o direito de não querer saber. Quando o frio cava a alma e a sensação é de desalento, não sinto obrigações de disfarçar. Há certos estados que nos transmitem a sensação de sermos ou impunes ou invisíveis. E o desalento, o frio e a idade dão essa vertigem do pouco importa que seja assim.

Pouco me importa aqui neste último reduto da temperatura do gelo.
Tenho quase nada que me prenda a não ser a persistência constante de um frio, que o organismo (esse sim naturalmente) combate.
Eu forçadamente vou fazendo, com a zelosa ajuda da necessidade de aquecer.

Não sou naturalmente simpática, nem naturalmente feliz.
Talvez me escrevas nos dias dos sinais por pensares que há algo de natural em nós. E tu tal como eu procuras a identificação. Como uma borboleta busca a luz também tu sedento da  perspectiva de encontrares esse "naturalmente" que aos ombros dos outros é segunda pele.
Mas talvez seja apenas isso. Pouco naturais e sedentos, nunca satisfeitos.....nunca naturalmente satisfeitos.
Talvez seja isso que nos liga...naturalmente.