Sob o signo das hormonas e do frio é sempre difícil ser abnegado e convicto.
Questiono-me como tantas outras vezes já sem grande coragem de me auto-punir por não ter essa capacidade de me contentar com a vida e de ter sempre este cenho arreganhado num esgar de sorriso à custa de algum esforço.
Não sou naturalmente simpática, nem naturalmente feliz.
Fico a pensar sobre isso. Sobre esses seres que nascem contentes com a vida e sobre esse advérbio que os veste de espontaneidade e pureza.
"Naturalmente" é sempre bem visto em oposição ao "forçadamente".
Sou sempre forçadamente quem sou. E como todos os seres em busca de aprovação esforço-me para que não me detectem o esforço nem a mácula da vergonha por não ser naturalmente tudo o que devia afinal ser.
O frio dá-me o direito de não querer saber. Quando o frio cava a alma e a sensação é de desalento, não sinto obrigações de disfarçar. Há certos estados que nos transmitem a sensação de sermos ou impunes ou invisíveis. E o desalento, o frio e a idade dão essa vertigem do pouco importa que seja assim.
Pouco me importa aqui neste último reduto da temperatura do gelo.
Tenho quase nada que me prenda a não ser a persistência constante de um frio, que o organismo (esse sim naturalmente) combate.
Eu forçadamente vou fazendo, com a zelosa ajuda da necessidade de aquecer.
Não sou naturalmente simpática, nem naturalmente feliz.
Talvez me escrevas nos dias dos sinais por pensares que há algo de natural em nós. E tu tal como eu procuras a identificação. Como uma borboleta busca a luz também tu sedento da perspectiva de encontrares esse "naturalmente" que aos ombros dos outros é segunda pele.
Mas talvez seja apenas isso. Pouco naturais e sedentos, nunca satisfeitos.....nunca naturalmente satisfeitos.
Talvez seja isso que nos liga...naturalmente.
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