segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Semvite
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Convido-te para me convidares para um encontro impossível.
Onde não tenha tempo para te seguir, nem tenhas vontade de comparecer.
Podemos trocar algumas mensagens para decidir o lugar do não-encontro.
O que achas de um café no progresso a troco de uma discussão inexistente que deixarei passar por se tratar de mera publicidade? Que idéia perfeita essa a de escolheres a hora em que eu não possa. Far-me-ei desentendida e tu farás de conta que irei.
A pretexto da poesia, tomaremos um não café. Falaremos muito mentalmente de todas as conversas em atraso, as tidas e as imaginadas.
Convido-te para me convidares a uma impossibilidade.
Escolhe uma hora imprópria, um dia atarefado, alguma coisa que eu possa recusar.
Mas antes faz planos. Pensa na conversa, folheia uns livros e pensa no que irás vestir.
Eu da minha parte irei buscar as pulseiras do bonfim como a que trago no pulso prestes a partir.
Nunca cheguei a comentar contigo o Revolutionary road. Nem com ninguém, que esses temas são para os meus botões apenas, já que tu usas fechos eclair.
Convido-te para me convidares a não nos encontrarmos em breve, tal como temos feito todos os anos antes do Natal.
Das sereias e outros demónios
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A Mulher sempre foi para o Homem a dicotomia absoluta: a tentação e a fuga; a inspiração e a secura da criação; o medo e a atracção.
E em função disso, para se justificar, sossegar, aliviar, o Homem cria imagens femininas duplas de significado e plenas de justificação para todo o acto ou falta dele.
São um exemplo as Sereias. As Sereias têm na própria palavra a dúvida. Sereia ou sirena, parece tão comum à sirene que é aviso, seja no toque aflito do farol que adverte os navios para se afastarem do mar bravio na costa. Sirene é ainda o toque alerta dos bombeiros quando um incêndio deflagra. É um soar da ambulância que apela a que se desviem para ter tempo de salvar uma vida.
Apesar disso, da Sirene, do aviso, os barcos insistiam em dirigir-se ao (en)canto delas. E a elas se atribuem naufrágios e outras tragédias. Interessante saber que hoje em dia a Sirene avisa e aconselha fuga. De onde veio tal contradição de palavras?
Talvez não haja contradição, mas apenas um aproveitar do eterno medo do poder das Mulheres. Quando digo poder das Mulheres digo poder daquelas que se destacam por abanarem alguma estrutura ou causarem estranheza. Quem não se lembra da caça às bruxas? Mulheres interessantes e interessadas eram desejadas e temidas. Nada como a fogueira para lhes queimar as certezas e fazer as convicções em cinzas. Ainda hoje assim é. Ainda hoje no Irão as Mulheres pouco modestas são consideradas responsáveis por terramotos.
Assim é com as Sereias/Mulheres responsáveis pelas mais terríveis tormentas após o mais belo canto de chamamento. Sereias, a meias com a mulher, a meias com o peixe, personificam na perfeição a indecisão do Homem. Na Sereia os Homens projectam a Mulher que atrai e o ser marítimo escamoso e fugidio que mergulha nas profundezas do mar. Nas Sereias está a voz que seduz/conduz para o abismo.
E o papel do Marinheiro em tudo isto? Passivo e ilustrativo de todo o conflito interior dos Homens. Coitado do Homem/Marinheiro/Vítima/Presa indefesa, colhido à socapa e de surpresa, navega ao sabor das ondas e é levado, induzido, ludibriado.
Fica sempre resignado o Marinheiro perante o irremediável poder da Sereia. Ele que é absolutamente alheio a um poder a que é impossível escapar. Não o culpabilizem por favor, da tormenta que o consome, da tempestade que o atira para a morte e da atracção a que não pode dizer não. Marinheiros/heróis, enfim, Homens valorosos e outros tudo tentam : amarram-se aos mastros e tapam os ouvidos porque a sua vontade não é suficiente para vencer o apelo salgado da sereia. Que agri-doce criatura que com o mel da voz, clama no sal da vaga!
Outra cruel verdade que se repete transversalmente pela história é de que as Sereias não têm alma. São, diria eu, quase o pior dos seres, pois desprovidos de qualquer compaixão tentam os pobres Homens privados de querer.
E não há nada a fazer, a não ser constatar que as Sereias são para além de magnéticas, incontornáveis. Alteiem a voz e inundem os livros, as cartas, as músicas e a web de protestos. E acima de tudo resignem-se, sentem-se: baixa os braços Kafka; és escritor capaz de urdir um livro tão intrincado quanto o processo, mas és Homem que chegue para reconheceres o maior labirinto da Mulher: se o canto da Sereia é irresistível, o seu silêncio é ainda mais poderoso. Game over, nada a fazer.
Mas as Mulheres, Sereias, Musas ou Bruxas sempre carregaram o fardo da responsabilidade da falta de fibra de um Homem. A pobre da Musa deve inspira-lo. O poeta parco de palavras acusa a Musa de absentismo. Talvez também ela possua algum rabo de peixe e se atire a um qualquer local aquático, deixando a seco a prosa e a poesia.
E depois de tudo isto é engraçado lembrar que há Tritões, a versão masculina dos monstros do mar: metade homens e metade peixes.
Mas a esses ninguém liga. Talvez porque sejam feios, verdes e sem graça...ou talvez porque apesar deles, a nenhuma marinheira, dona de casa, frequentadora de praia, surfista, body-boarder ou mergulhadora tenha faltado a coragem para decidir mergulhar ou estender-se ao sol (qual bacalhau...que a pele morena atrai sempre um macho incauto, em igual proporção à alvura da sua tez).
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Recado em forma de búzio
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Por algum motivo alguém resolveu nomear de vagas as voltas do mar.
Talvez porque a natureza sinuosa da onda pareça quase inespecífica pela forma como simultaneamente se eleva e se desfaz.
É vago o espaço em branco de uma frase onde sabemos que uma palavra ficou por dizer. É vaga a resposta indefinida de um sim escrito, mas a lápis. E é vaga a força da água que tudo renova depois de tudo devastar.
Por mais que nos custe aceitar, o mar é mesmo assim contraditório. Tanto nos banha os pés numa carícia como de seguida escorrega em retirada.
Mas, ainda assim como podes questionar a água que te tocou os pés?
Tenho um recado para ti, em jeito de búzio largado na areia: se o encostares ao peito ouvirás para sempre o bramir das ondas.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
"O Alienista" de Machado de Assis

Ali é nada
Alienada
Duas palavras que diferem apenas nos lugares em que as letras se sentam.
O alienista é Sebastião Bacamarte, um médico que incorre pela investigação em psiquiatria para também tentar sentar a loucura e a razão nos seus devidos lugares.
Começa por internar na Casa Verde (manicómio à altura da sua iniciática investigação) os loucos como sendo todos aqueles que aparentam insistências de comportamento: a vaidade, a oratória excessiva, a tendência para a bajulação, a indecisão. No entanto, este critério parece a Sebsatião muito generalista, sendo quase a regra e não a excepção. E nesta coisa verde de iniciar uma casa que aliene os loucos, parece fazer sentido avaliar a proporção das coisas. A razão é conotada com a normalidade e a normalidade é conotada com a maioria. Então a razão deverá prevalecer, mas com tantos alienados de características insistentes, a loucura parecia bem mais numerosa.
Tal desiquilíbrio fez mudar o rumo da investigação. Soltam-se os loucos cheios de razão. Olha-se os racionais indegando loucuras ocultas.
Afinal, vasculhando bem, perante a ausência de uma característica poderá por anulação estar a necessidade da sua existência, ou pelo menos a característica complementar. Aquele que não é bajulador, não será emotivamente frio? O que não é vaidoso, não padecerá de falta de auto-estima? Onde está a paixão daquele que não esbraceja?
Pensa então Sebastião, que a ausência de insistências da personalidade, será afinal irracional. Alienam-se assim os sensatos na Casa Verde: aquele que não explode, aquele que não esbraceja, aquele que não se evidencia.
Mas eis que a ausência de uma característica se assemelha à presença de uma outra, o que iguala este grupo ao primeiro. O que os distingue então? Será possível separa-los?
É na tentativa de separar o (ir) do racional e de sentar a loucura e a razão nos devidos lugares, que Sebastião percebe a insanidade da sua tarefa. De louco, o médico tinha mais que pouco:
- Aliena-se o alienista.
Surge por fim alienada a razão e a loucura do seu lugar definido. Sebastião na Casa Verde amadurece a ideia de que-
ali é humanidade, nada mais que isso.
To be on the safe side
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Quando leio livros/textos que gosto
Vejo claramente que não sei mesmo escrever
E estar perante esta evidência é tão difícil como estar em frente a um espelho, despida e com 5 noites por dormir em cima
E nesse instante apetece-me muito fazer um grande DELETE em tudo isto
Pergunta: porque insisto?
Resposta: just to be on the safe side
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
"A epopeia de Mr. Skullion" de Tom Sharpe

Quando li o livro sorri por dentro.
Em vez de escrever sobre o college apetecia-me escrever sobre o department. Desde a empregada de limpeza que asseava eléctrodos com fabuloso e descobriu que o ácido sulfúrico não só limpa o chão como lhe faz um peeling, às cenas dos rissois congelados nas gavetas das amostras de urina. Dá-me vontade de rir.
Bem, mas voltando ao livro. Trata-se de uma verdadeira epopeia do porteiro de um college inglês no desejo que este se mantenha como sempre: gastador, corrupto, com passagens facilitadas às classes altas que o financiavam.
Do college saíam nomes sonantes da sociedade. (Qualquer semelhança com a nossa realidade política, que faz cursos extra-expediente ao fim-de-semana, é mera coincidência.)
Segundo Mr. Skullion o college é dos Lords e um Lord não é um intelectual. Nem é especialmente inteligente, ou literato. Um Lord é qualquer coisa de antigo que não precisa provar que o é. O Lord come naturalmente refeições avantajadas regadas de licor e charuto. O Lord despreza a mutação e é sólido como a tradição das estátuas de pedra. O Lord ajavarda e abusa de mulheres, mas faz isso com a naturalidade do poder. Um Lord tem uma biblioteca de livros falsos, onde cada livro esconde uma bebida.
O college é afinal um Lord onde a ordem e a tradição são os passeios da calçada. Os Lords fingem-se temerosos das regras restritas do portão de Mr. Skullion. Mas por fim apenas temem ser apanhados. De resto tudo se encaixa: aquele que não é apanhado, não cometeu falta. Os Lords não cometem faltas, pois não faltam ao prometido. O que se paga, não se vê. O que não se vê, não aconteceu.
No meio de um college com cada vez menos Lords, um jovem muito investigador e pouco Lord treme de desejo por uma imponderável empregada, roliça e mais velha. Nada de preocupante desde que não se vejam preservativos no páteo.
Explode o jovem e as curvas do seu amor sinuoso, mas salva-se a honra do college que enfrenta de pátio limpo os corpos que voam da explosão.
No college existe um Master. E o Master não existe para falar. "Reunir e planear" têm o mesmo efeito de uma colher inquieta no arroz em plena cozedura: estragam.
Afinal o college é uma trincheira, onde o Mr Skullion se refugia: da vida e da ausência de passado. Garantindo que o futuro não é afectado por isso.
Mas não há "bons" e "maus" nesta história do futuro contra o passado. O progresso é uma mulher sem vitalidade que defende causas fracturantes mas que rasga o silêncio com uma voz de K7 riscada: salvem as focas, e os animais em extinção!
E o marido, esse Master, quem o salva das garras do Mister (Monster?) Skullion? O marido Master, mostra-se um velho na eminência da promessa e nunca foi mais do que isso. Um velho a acabar os dias num cargo sem consequências. Sem grande passado e a tentar em vão afectar o futuro que, à semelhança do Mister Skullion, não tem. Mister Skullion versus Master escudo (escolhas, escusado?)
A epopeia de Mr. Skullion é a batalha do "velho do Restelo" contra o "bloco de esquerda" com um Louçã disfarçado de foca que vive na sua casa alugada (o coitado não tem bens materiais próprios e o aluguer assenta-lhe um carácter distinto...e da distinção à extinsão é um pequeno passo de foca).
A epopeia de Mr. Skullion é afinal uma página do Facebook onde a velha e redutora coscuvilhice humana se espande no moderno e amplo ciberespaço.
A epopeia de Mr. Skullion é num college, mas é afinal na humanidade.
Todos os livros que leio
A minha casa é pequena. E mesmo assim está cheia de livros que não li.
Tenho outros tantos livros que li e me esqueci e quando olho para eles dá-me uma angústia infinita de não saber para onde foram todas aquelas palavras.
Terá ficado alguma coisa cá dentro?
Um dia li um conto do Borges onde um homem sofria do mesmo problema que eu e escrevia nos livros para que ao lê-los soubesse que os tinha lido e o que tinha pensado/sentido.
A pensar nisso começo aqui hoje a leitura e (re)leitura de todos os livros que tenho.
Só irei parar quando não restar nenhum.
1º comentário que se segue e antes que se perca no vazio da minha memória deficitária será sobre um livro que me emprestaram: "A epopeia de Mr. Skullion" de Tom Sharpe.
Para já não. Sinto febre e preguiça. E vou ler para a cama as intermitências do Saramago
Tenho outros tantos livros que li e me esqueci e quando olho para eles dá-me uma angústia infinita de não saber para onde foram todas aquelas palavras.
Terá ficado alguma coisa cá dentro?
Um dia li um conto do Borges onde um homem sofria do mesmo problema que eu e escrevia nos livros para que ao lê-los soubesse que os tinha lido e o que tinha pensado/sentido.
A pensar nisso começo aqui hoje a leitura e (re)leitura de todos os livros que tenho.
Só irei parar quando não restar nenhum.
1º comentário que se segue e antes que se perca no vazio da minha memória deficitária será sobre um livro que me emprestaram: "A epopeia de Mr. Skullion" de Tom Sharpe.
Para já não. Sinto febre e preguiça. E vou ler para a cama as intermitências do Saramago
Carta aberta
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Trago uma carta na voz, como uma folha de Inverno que voa no vento e se cola à primeira árvore.
A carta que trago é uma sexta-feira, como esta.
Será que te cheguei a contar que as sextas-feiras são o meu dia favorito?
As sexta-feiras são cartas por abrir. São a promessa e o dia das possibilidades infindáveis.
Sorrio para ti como se visses.
Sei que sabes que me rio sem rosto. De resto sou assim como sabes.
Não penses que a memória me constrói. Eu sou como tu me soubeste. Tu és sem tirar nem pôr.
É o momento de te rires, condescendente. Ainda assim, perante a imponderável saudade que não manifesto, mas que nunca deixei de sentir, digo-te que tenho sempre uma carta para ti.
Ainda que te pareça apenas uma folha húmida de Inverno, arrastada pelo vento, esta carta que trago colada à voz é para ti e sempre foi, desde o tempo de todas as sextas-feiras.
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