
Quando li o livro sorri por dentro.
Em vez de escrever sobre o college apetecia-me escrever sobre o department. Desde a empregada de limpeza que asseava eléctrodos com fabuloso e descobriu que o ácido sulfúrico não só limpa o chão como lhe faz um peeling, às cenas dos rissois congelados nas gavetas das amostras de urina. Dá-me vontade de rir.
Bem, mas voltando ao livro. Trata-se de uma verdadeira epopeia do porteiro de um college inglês no desejo que este se mantenha como sempre: gastador, corrupto, com passagens facilitadas às classes altas que o financiavam.
Do college saíam nomes sonantes da sociedade. (Qualquer semelhança com a nossa realidade política, que faz cursos extra-expediente ao fim-de-semana, é mera coincidência.)
Segundo Mr. Skullion o college é dos Lords e um Lord não é um intelectual. Nem é especialmente inteligente, ou literato. Um Lord é qualquer coisa de antigo que não precisa provar que o é. O Lord come naturalmente refeições avantajadas regadas de licor e charuto. O Lord despreza a mutação e é sólido como a tradição das estátuas de pedra. O Lord ajavarda e abusa de mulheres, mas faz isso com a naturalidade do poder. Um Lord tem uma biblioteca de livros falsos, onde cada livro esconde uma bebida.
O college é afinal um Lord onde a ordem e a tradição são os passeios da calçada. Os Lords fingem-se temerosos das regras restritas do portão de Mr. Skullion. Mas por fim apenas temem ser apanhados. De resto tudo se encaixa: aquele que não é apanhado, não cometeu falta. Os Lords não cometem faltas, pois não faltam ao prometido. O que se paga, não se vê. O que não se vê, não aconteceu.
No meio de um college com cada vez menos Lords, um jovem muito investigador e pouco Lord treme de desejo por uma imponderável empregada, roliça e mais velha. Nada de preocupante desde que não se vejam preservativos no páteo.
Explode o jovem e as curvas do seu amor sinuoso, mas salva-se a honra do college que enfrenta de pátio limpo os corpos que voam da explosão.
No college existe um Master. E o Master não existe para falar. "Reunir e planear" têm o mesmo efeito de uma colher inquieta no arroz em plena cozedura: estragam.
Afinal o college é uma trincheira, onde o Mr Skullion se refugia: da vida e da ausência de passado. Garantindo que o futuro não é afectado por isso.
Mas não há "bons" e "maus" nesta história do futuro contra o passado. O progresso é uma mulher sem vitalidade que defende causas fracturantes mas que rasga o silêncio com uma voz de K7 riscada: salvem as focas, e os animais em extinção!
E o marido, esse Master, quem o salva das garras do Mister (Monster?) Skullion? O marido Master, mostra-se um velho na eminência da promessa e nunca foi mais do que isso. Um velho a acabar os dias num cargo sem consequências. Sem grande passado e a tentar em vão afectar o futuro que, à semelhança do Mister Skullion, não tem. Mister Skullion versus Master escudo (escolhas, escusado?)
A epopeia de Mr. Skullion é a batalha do "velho do Restelo" contra o "bloco de esquerda" com um Louçã disfarçado de foca que vive na sua casa alugada (o coitado não tem bens materiais próprios e o aluguer assenta-lhe um carácter distinto...e da distinção à extinsão é um pequeno passo de foca).
A epopeia de Mr. Skullion é afinal uma página do Facebook onde a velha e redutora coscuvilhice humana se espande no moderno e amplo ciberespaço.
A epopeia de Mr. Skullion é num college, mas é afinal na humanidade.
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