
Ali é nada
Alienada
Duas palavras que diferem apenas nos lugares em que as letras se sentam.
O alienista é Sebastião Bacamarte, um médico que incorre pela investigação em psiquiatria para também tentar sentar a loucura e a razão nos seus devidos lugares.
Começa por internar na Casa Verde (manicómio à altura da sua iniciática investigação) os loucos como sendo todos aqueles que aparentam insistências de comportamento: a vaidade, a oratória excessiva, a tendência para a bajulação, a indecisão. No entanto, este critério parece a Sebsatião muito generalista, sendo quase a regra e não a excepção. E nesta coisa verde de iniciar uma casa que aliene os loucos, parece fazer sentido avaliar a proporção das coisas. A razão é conotada com a normalidade e a normalidade é conotada com a maioria. Então a razão deverá prevalecer, mas com tantos alienados de características insistentes, a loucura parecia bem mais numerosa.
Tal desiquilíbrio fez mudar o rumo da investigação. Soltam-se os loucos cheios de razão. Olha-se os racionais indegando loucuras ocultas.
Afinal, vasculhando bem, perante a ausência de uma característica poderá por anulação estar a necessidade da sua existência, ou pelo menos a característica complementar. Aquele que não é bajulador, não será emotivamente frio? O que não é vaidoso, não padecerá de falta de auto-estima? Onde está a paixão daquele que não esbraceja?
Pensa então Sebastião, que a ausência de insistências da personalidade, será afinal irracional. Alienam-se assim os sensatos na Casa Verde: aquele que não explode, aquele que não esbraceja, aquele que não se evidencia.
Mas eis que a ausência de uma característica se assemelha à presença de uma outra, o que iguala este grupo ao primeiro. O que os distingue então? Será possível separa-los?
É na tentativa de separar o (ir) do racional e de sentar a loucura e a razão nos devidos lugares, que Sebastião percebe a insanidade da sua tarefa. De louco, o médico tinha mais que pouco:
- Aliena-se o alienista.
Surge por fim alienada a razão e a loucura do seu lugar definido. Sebastião na Casa Verde amadurece a ideia de que-
ali é humanidade, nada mais que isso.
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