segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Das sereias e outros demónios


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A Mulher sempre foi para o Homem a dicotomia absoluta: a tentação e a fuga; a inspiração e a secura da criação; o medo e a atracção.
E em função disso, para se justificar, sossegar, aliviar, o Homem cria imagens femininas duplas de significado e plenas de justificação para todo o acto ou falta dele.
São um exemplo as Sereias. As Sereias têm na própria palavra a dúvida. Sereia ou sirena, parece tão comum à sirene que é aviso, seja no toque aflito do farol que adverte os navios para se afastarem do mar bravio na costa. Sirene é ainda o toque alerta dos bombeiros quando um incêndio deflagra. É um soar da ambulância que apela a que se desviem para ter tempo de salvar uma vida.
Apesar disso, da Sirene, do aviso, os barcos insistiam em dirigir-se ao (en)canto delas. E a elas se atribuem naufrágios e outras tragédias. Interessante saber que hoje em dia a Sirene avisa e aconselha fuga. De onde veio tal contradição de palavras?
Talvez não haja contradição, mas apenas um aproveitar do eterno medo do poder das Mulheres. Quando digo poder das Mulheres digo poder daquelas que se destacam por abanarem alguma estrutura ou causarem estranheza. Quem não se lembra da caça às bruxas? Mulheres interessantes e interessadas eram desejadas e temidas. Nada como a fogueira para lhes queimar as certezas e fazer as convicções em cinzas. Ainda hoje assim é. Ainda hoje no Irão as Mulheres pouco modestas são consideradas responsáveis por terramotos.
Assim é com as Sereias/Mulheres responsáveis pelas mais terríveis tormentas após o mais belo canto de chamamento. Sereias, a meias com a mulher, a meias com o peixe, personificam na perfeição a indecisão do Homem. Na Sereia os Homens projectam a Mulher que atrai e o ser marítimo escamoso e fugidio que mergulha nas profundezas do mar. Nas Sereias está a voz que seduz/conduz para o abismo.
E o papel do Marinheiro em tudo isto? Passivo e ilustrativo de todo o conflito interior dos Homens. Coitado do Homem/Marinheiro/Vítima/Presa indefesa, colhido à socapa e de surpresa, navega ao sabor das ondas e é levado, induzido, ludibriado.
Fica sempre resignado o Marinheiro perante o irremediável poder da Sereia. Ele que é absolutamente alheio a um poder a que é impossível escapar. Não o culpabilizem por favor, da tormenta que o consome, da tempestade que o atira para a morte e da atracção a que não pode dizer não. Marinheiros/heróis, enfim, Homens valorosos e outros tudo tentam : amarram-se aos mastros e tapam os ouvidos porque a sua vontade não é suficiente para vencer o apelo salgado da sereia. Que agri-doce criatura que com o mel da voz, clama no sal da vaga!
Outra cruel verdade que se repete transversalmente pela história é de que as Sereias não têm alma. São, diria eu, quase o pior dos seres, pois desprovidos de qualquer compaixão tentam os pobres Homens privados de querer.
E não há nada a fazer, a não ser constatar que as Sereias são para além de magnéticas, incontornáveis. Alteiem a voz e inundem os livros, as cartas, as músicas e a web de protestos. E acima de tudo resignem-se, sentem-se: baixa os braços Kafka; és escritor capaz de urdir um livro tão intrincado quanto o processo, mas és Homem que chegue para reconheceres o maior labirinto da Mulher: se o canto da Sereia é irresistível, o seu silêncio é ainda mais poderoso. Game over, nada a fazer.

Mas as Mulheres, Sereias, Musas ou Bruxas sempre carregaram o fardo da responsabilidade da falta de fibra de um Homem. A pobre da Musa deve inspira-lo. O poeta parco de palavras acusa a Musa de absentismo. Talvez também ela possua algum rabo de peixe e se atire a um qualquer local aquático, deixando a seco a prosa e a poesia.

E depois de tudo isto é engraçado lembrar que há Tritões, a versão masculina dos monstros do mar: metade homens e metade peixes.
Mas a esses ninguém liga. Talvez porque sejam feios, verdes e sem graça...ou talvez porque apesar deles, a nenhuma marinheira, dona de casa, frequentadora de praia, surfista, body-boarder ou mergulhadora tenha faltado a coragem para decidir mergulhar ou estender-se ao sol (qual bacalhau...que a pele morena atrai sempre um macho incauto, em igual proporção à alvura da sua tez).

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