sábado, 26 de fevereiro de 2011
And now for something completely different: a man with a multiple head
Antes de ter que mergulhar outra vez no trabalho, um desejo súbito de ser um Frankenstein e construir esta criatura
domingo, 20 de fevereiro de 2011
E se eu entornasse agora um pouco de sol neste dia tão escuro
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Um pouco mais de sabor às férias tão distantes com Baby de Devendra Banhart.
Ideal para ouvir ao Domingo.
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só o domingo me deita abaixo,
Tomar em altas doses
Dance me to the end of love ou a cover a day puts your sanity miles away
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Quando ouvi a versão do "Dance me to the end of love" (1ª música) na rádio pensei: como é que é possível? A música é do Leonard Cohen de 1984 e estou a ouvi-la cantada pela Billie Holiday que faleceu em 1959? Pensei que estava a ter um momento de transcendência, mas antes de ouvir o assobiozinho dos ficheiros secretos a entoar, percebi que afinal era a cover da Madeleine Peyrox que faz lembrar tanto, tanto a Billie Holiday.
Com a sanidade reposta e com um misto de desilusão, pela Billie não ter voltado do lado de lá só para me cantar naquela voz de veludo e de alegria por ter descoberto (sim não conhecia Madeleine Peyrox, às vezes ando distraida) uma Billie clone holiday tenho a dizer que adoro esta cover. Adoro. Adoro.
Quando ouvi a versão do "Dance me to the end of love" (1ª música) na rádio pensei: como é que é possível? A música é do Leonard Cohen de 1984 e estou a ouvi-la cantada pela Billie Holiday que faleceu em 1959? Pensei que estava a ter um momento de transcendência, mas antes de ouvir o assobiozinho dos ficheiros secretos a entoar, percebi que afinal era a cover da Madeleine Peyrox que faz lembrar tanto, tanto a Billie Holiday.
Com a sanidade reposta e com um misto de desilusão, pela Billie não ter voltado do lado de lá só para me cantar naquela voz de veludo e de alegria por ter descoberto (sim não conhecia Madeleine Peyrox, às vezes ando distraida) uma Billie clone holiday tenho a dizer que adoro esta cover. Adoro. Adoro.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
A cover a day puts the doctor away #10
Telephone call from Istambul
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Da cover dos belle chase hotel, acho graça aos "rrr" à frrrancesa. Gosto muito dos belle chase hotel, no entanto esta cover diverte, mas não distrai do verdadeiro telefonema protagonizado por Tom Waits. Nele acho graça a tudo. Que música mais electrizante! É das tais que figuram nas cassetes temáticas para me porem de feição. Esta põe-me in the mood for dance. E in the mood para atender o telefone. Se estes dois telefones tocassem, sem dúvida que atenderia o segundo. E como diz o Chico Buarque: penteava-me para atender.
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Da cover dos belle chase hotel, acho graça aos "rrr" à frrrancesa. Gosto muito dos belle chase hotel, no entanto esta cover diverte, mas não distrai do verdadeiro telefonema protagonizado por Tom Waits. Nele acho graça a tudo. Que música mais electrizante! É das tais que figuram nas cassetes temáticas para me porem de feição. Esta põe-me in the mood for dance. E in the mood para atender o telefone. Se estes dois telefones tocassem, sem dúvida que atenderia o segundo. E como diz o Chico Buarque: penteava-me para atender.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Ainda sobre os filmes, os artistas, a imortalidade ou sob o efeito do licor de chocolate
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Eu aprendo muitas coisas nos filmes. Talvez porque seja fácil me manipularem com algumas imagens bem alinhadas e uma música de feição. Tal como escrevi atrás descobri que se consegue dar a volta ao meu cérebro com alguma facilidade. Claro que eu descobri isso como pura necessidade e instinto de sobrevivência. Aprendi a conduzir as emoções quando elas eram tão avassaladoras que me prostravam e me tolhiam as acções. Hoje em dia é difícil voltar a resvalar nessa tendência mental para a tristeza. Mal lhe sinto o cheiro, guino à direita e faço inversão de marcha. E depois penso, se eu sou capaz de fazer isso a mim mesma de uma forma tão consciente, não serão também capazes os "artistas" do mesmo? Claro que sim. É essa a diferença de ser artista, bom escritor, bom realizador, bom músico. É possuir universalidade e atingir o ser humano naquilo que o torna ser humano. Desconstruir tanto ao ponto de perceber qual o ponto que tocando dói a todos. Esse é o segredo para a imortalidade: a universalidade.
Por isso dizer: aprendo muitas coisas nos filmes é o mesmo que dizer: os filmes ensinam-me tudo aquilo que querem que eu saiba.
Isto tudo para falar de outro dos meus filmes preferidos: "fala com ela" do Almodovar. Se eu descrevesse o filme num tom asséptico de lista de compras do supermercado eu diria: trata-se de um filme que conta a história de um enfermeiro que engravida uma mulher que estava em coma e aos seus cuidados. O enfermeiro vivia sozinho com a mãe. A mulher desperta do coma e o enfermeiro é preso.
O que se pensaria daqui? Que horror. Que homem monstruoso. Que oportunismo de uma situação frágil. Que pessoa ridícula, cuja acção apenas existe com aqueles que não podem reagir.
Mas a mestria é tanta, que nada disto nos horroriza, ao ponto de percebermos perfeitamente o ponto de vista do enfermeiro.
Somos ou não manipuláveis?
Quem não acredite que experimente ver este filme....e de seguida em dose dupla, aproveite e veja o "Morte em Veneza". Garanto que a tinta do cabelo a escorrer ao sol é capaz de apagar qualquer repulsa à vertente pedófila do personagem.
Em todos os filmes que me tocam sei que aquilo que toca mais fundo é a sensação de identificação. É conseguir focar o aspecto mais humano e até mais ridículo, no sentido de mais exposto, de tão nu que dá pena, que comove e que nos faz entender aquela mensagem como vinda de dentro de nós mesmos.
A imortalidade
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No livro a imortalidade de Milan Kundera, o tema transversal é mesmo o próprio título do livro. O que é que subsiste de nós? A imortalidade que todos almejamos é conquistada por muitos, não no sentido literal, de também eles terem deixado de morrer (boa tentativa Saramago), mas no sentido de alcançarem, sem a presença física, a proeza de lembrarem aos outros que existiram. Porque quer queiramos quer não, longe da vista é mesmo longe do coração e, permanecer no imaginário daqueles que não partilham o mundo connosco, é algo muito especial. Eu vejo um pouco a imortalidade num sentido menos lato. Digamos que, no sentido da minha pequena vidinha, e com o prazo de validade da sua duração, há um sem número de coisas imortais. Porque mesmo não as tendo mais ao alcance da mão, estão em mim inscritas na pedra, indeléveis.
Há coisas aparentemente banais como gestos de pessoas e até tiques. Há fotogramas de momentos, como a visualização de um gato ao colo que me fazia enternecer tanto com a seguinte imagem: duas espécies diferentes e um instante de absoluta comunhão e puro entendimento.
E depois há esta coisa maravilhosa que é a capacidade de um artista sair do outro lado do mundo para nos tocar, onde nós não entendemos ser possível, e nos mudar para sempre.
A imortalidade no domínio que é a minha pequena vidinha são filmes como o "In the mood for love". Já aqui escrevi sobre esta cena do filme que me fascinou tanto. Mas o filme é todo ele fascinante e imortal. Imortal, porque renasce em mim inúmeras vezes. Dou comigo a pensar nele em várias perspectivas possíveis. E desde que o vi, nunca parou de dialogar comigo
Mezinhas caseiras para maleitas da cabeça
Tentando fazer uso da psicologia de bolso, ou das brilhantes edições do especialista instantâneo apetece-me agora aqui explanar sobre a influência da música no comportamento humano.
Esta dicotomia música-comportamento é um pouco mais complexa que o observador mais incauto possa pensar. Sim, porque nenhum sistema é observável sem alguma perturbação do sistema pelo observador, por isso aqui salvaguardo já a minha parte dizendo se não pensam o mesmo que eu, é porque a dioptria aumentou e estão a distorcer isto tudo.
Bem, então eu acredito, creio ou tenho a convicção (que chatice, agora apetecia-me abandonar este post enfadonho para explanar sobre a diferença entre a crença, o acreditar e o estar convicto) que as músicas alteram o nosso humor e que se isso for reconhecido, temos no nosso poder uma arma poderosíssima para nos "pormos de feição" (ai como adoro esta expressão) para fazermos alguma coisa. Por exemplo, quando eu era muito jovem e a vida para mim era um mistério (entra agora a banda sonora sonhadora...precisa ter violinos e talvez alguma harpa, porque o sonho coaduna-se sempre com estes instrumentos) eu comecei a gravar as cassetes temáticas (agora mais de metade da gente que frequenta a internet e que não frequenta este blog, na hipótese remota de ler este post diria...cassetes? wtf?). Pois essas cassetes constavam de música agrupada aos molhos de intenções. Havia a intenção de ficar bem-disposta perante a adversidade do mundo cruel e lá punha eu a cassete x a tocar no gravador do peugeot 205. E daí a perceber que o meu cérebro era uma criança manipulável com meia dúzia de guloseimas, foi um instante. Assim surgiu esta minha crença do in the mood. Consigo dirigir a minha disposição com algumas músicas bem escolhidas. Claro que por vezes, o tamanho do everest que se sentou ao nosso colo é tal que nem uma música o consegue demover e nesse caso, o exagero de boa disposição musical pode ser uma ofensa, mais do que uma cura. Pode-nos dar uma vontade de esganar o mundo inteiro, apenas porque uma música é exageradamente optimista. Assim sendo, há que ir com moderação e ouvir coisas cada vez menos negras até ao ponto de equilíbrio, onde sabemos que do outro lado do passeio está um dia bom e atravessa-lo custa tanto quanto deixar que o sinal mude para verde.
Com um pouco de treino, garanto-vos que vocês conseguem condicionar o vosso cérebro a deixar de pensar no que não querem. E quando descobrem os melindres e as subtilezas da vossa disposição sentem-se donos de um poder imenso.
Se nada resultar, um copo de licor de chocolate também tem sido descrito como potencialmente útil ao controlo da disposição
Esta dicotomia música-comportamento é um pouco mais complexa que o observador mais incauto possa pensar. Sim, porque nenhum sistema é observável sem alguma perturbação do sistema pelo observador, por isso aqui salvaguardo já a minha parte dizendo se não pensam o mesmo que eu, é porque a dioptria aumentou e estão a distorcer isto tudo.
Bem, então eu acredito, creio ou tenho a convicção (que chatice, agora apetecia-me abandonar este post enfadonho para explanar sobre a diferença entre a crença, o acreditar e o estar convicto) que as músicas alteram o nosso humor e que se isso for reconhecido, temos no nosso poder uma arma poderosíssima para nos "pormos de feição" (ai como adoro esta expressão) para fazermos alguma coisa. Por exemplo, quando eu era muito jovem e a vida para mim era um mistério (entra agora a banda sonora sonhadora...precisa ter violinos e talvez alguma harpa, porque o sonho coaduna-se sempre com estes instrumentos) eu comecei a gravar as cassetes temáticas (agora mais de metade da gente que frequenta a internet e que não frequenta este blog, na hipótese remota de ler este post diria...cassetes? wtf?). Pois essas cassetes constavam de música agrupada aos molhos de intenções. Havia a intenção de ficar bem-disposta perante a adversidade do mundo cruel e lá punha eu a cassete x a tocar no gravador do peugeot 205. E daí a perceber que o meu cérebro era uma criança manipulável com meia dúzia de guloseimas, foi um instante. Assim surgiu esta minha crença do in the mood. Consigo dirigir a minha disposição com algumas músicas bem escolhidas. Claro que por vezes, o tamanho do everest que se sentou ao nosso colo é tal que nem uma música o consegue demover e nesse caso, o exagero de boa disposição musical pode ser uma ofensa, mais do que uma cura. Pode-nos dar uma vontade de esganar o mundo inteiro, apenas porque uma música é exageradamente optimista. Assim sendo, há que ir com moderação e ouvir coisas cada vez menos negras até ao ponto de equilíbrio, onde sabemos que do outro lado do passeio está um dia bom e atravessa-lo custa tanto quanto deixar que o sinal mude para verde.
Com um pouco de treino, garanto-vos que vocês conseguem condicionar o vosso cérebro a deixar de pensar no que não querem. E quando descobrem os melindres e as subtilezas da vossa disposição sentem-se donos de um poder imenso.
Se nada resultar, um copo de licor de chocolate também tem sido descrito como potencialmente útil ao controlo da disposição
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Nota mental de sobrevivência,
what's the point?
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Violino dança o tango
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Gidon Kremer - Astor Piazzolla Tango Etude No.3
E para terminar o dia, o assombroso violino que se insinuou dentro do tango de Piazzola. Há fusão mais bela?
Oxalá electrónico
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Gosto muito desta versão electrónica do Oxalá dos Madredeus, mais ainda que o original que me soa um pouco doce demais. A fusão da doçura muito redonda com os tons electrónicos mais rectos, é como uma correcção de um tempero do tipo: um brigadeiro com um café
Um tango al revés
Vivemos numa época onde os contornos se esbatem e as diferenças de culturas distantes se ultrapassam com uma simples pesquisa na net.
Na moda, o animal print saltou de Africa para os cabides da H&M. Prolifera a comida de fusão que proporciona encontros improváveis do gourmet ocidental com o exótico do oriente. Dispensamos a pescada em filete, mas comemos sushi armados de pauzinhos como se soubessemos o que estamos a fazer.
E a música também se funde: instrumentos inusitados imiscuem-se em melodias conhecidas; estilos misturam-se e o etnico, popular ou clássico vem juntar-se à música electrónica, ao pop, ao rock, ao indie-rock.
Gotan Project é um tango al revés e é uma destas fusões sem cisão que eu gosto muito de ouvir.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Revolutionary road versus revolutionary road
O livro é muito bom.
E o filme é igualmente muito bom.
Só o vi um ano depois de ler o livro, adiando sempre o que achei que seria uma desilusão. Mas não, o Frank e a April dos actores DiCaprio e Winslet estão muito bem representados.
Se comparações se podem fazer e alguma coisa falhou, entendo que seja por não caber tudo no filme. Coube o importante.
No livro há mais detalhe em pormenores de diletantismo, como a tarefa empreendida por Frank (e inacabada) de construir um caminho para a casa em lajes de pedra. Há ainda alguma maior amargura na maneira como o Frank lida com a amante colega de trabalho, que no filme não é tão evidente. Sabemos apenas que ele acabou com a relação quando diz a April.
Algo que eu tenho pena de não ter sido bem explorado foi a vizinha chata que lhes vendeu a casa. No livro, a vizinha que aparece muitas vezes é quase a materialização das frustrações do casal e, apesar de cheia de amabilidades, não sabemos se ela é honesta no desejo de os visitar e presentear, ou se visa apenas deitar o olho à forma como vivem. A certa altura no livro pareceu-me que a senhora era genuinamente simpática, mas talvez a sua simpatia e servilismo com que quase rastejava perante os Wheelers os fizesse odia-la, pois era a personificação daquela vida plástica, falsamente feliz e agradável. No filme isso não foi explorado, e apenas numa cena brilhante da Kate Winslet se percebe a repugnância que April mostra à oferta de uma flor que a vizinha lhe traz. Mas é tudo muito subtil e se não tivesse lido o livro se calhar escapava-me. Aliás há uma cena muito engraçada do livro em que o marido da dita senhora (não me lembro do nome dela) desliga o aparelho auditivo para não a ouvir. No filme essa cena aparece um pouco descabida. Penso que é porque no filme, exceptuando o casal Wheeler, as restantes personagens não têm tempo de ganhar mais profundidade. Têm poucas cenas e por exemplo, no caso desta vizinha, não se percebe muito bem o seu espírito inoportuno e metidiço. E é uma pena, porque no livro esta parte traz ainda mais riqueza aquele tapete emocional. O mesmo poderia dizer do casal amigo, que no livro ganha outra dimensão.
Mas esta opinião apenas reforça a minha ideia de que um bom livro não cabe num filme. E neste caso, mesmo ficando muito livro de fora, sobrou um excelente filme.
Revolutionary road de Richard Yates
Muito se diz sobre o facto de este livro retratar a apatia da vida nos subúrbios dos EUA. Mas na verdade, apesar de bem localizado geograficamente, o livro situa-se muito mais na densidade psicológica de qualquer pessoa, do que na casinha no alto de um cume em revolutionary road.
Frank e April são um casal jovem, bonito e cuja união se fez por aquela sensação de que algo neles era especial, diferente, promissor.
À boa maneira da geração promissora, mas diletante dos Maias de Eça de Queirós, também April e Frank vivem suspensos na sua distinção social que faz com que olhem todos os seus vizinhos e até o casal de amigos mais chegado, com alguma sobranceria. Frank é o género de homem encantador, que não sabendo nada sobre nada, sempre se distinguiu pela graça do discurso e por uma certa irreverência. Todos lhe auspiciavam um futuro brilhante e indefinido, pois não parecia ser possível idealiza-lo em tarefas mundanas. April é a mulher que se destaca. Bonita, misteriosa e com um discurso igualmente apelativo. Este pack completo de mulher incontornável parecia igualmente destinado a um não sei quê de auspicioso, tanto mais que April estudava teatro e conhecera Frank.
Todos (incluindo April e Frank) previam um amanhã de deslumbre para este casal. Algo fazia crer, que o hoje deles, bem longinquo dessa visão, era apenas um ensaio, uma passagem. Ninguém acredita que Frank e April sejam reais, nem eles mesmos. Os vizinhos e amigos rondam-nos como borboletas em torno da luz, na tentativa de aproveitarem a sua passagem terrena. Mas a imaterialização do desejo de serem as promessas que semearam, torna-se cada vez mais pesada. Primeiro April sente na pele o fracasso de uma peça representada num teatro de bairro. Ela April, tão igual a todos os outros. Tão sem graça, tão teatral, tão sem propósito. April desespera com a possibilidade de ser apenas assim. Onde estão as promessas? Os sonhos? As infinitas possibilidades que lhe pareciam destinadas? Frank que não foi posto à prova sente uma certa repugnância. É difícil ao casal voltar a desprezar os outros se ali April está no lugar deles.
Prestes a descarrilarem do carrocel das ilusões, April ela mesma pretende resgatar quem eram, ou o que nunca foram, mas serão, ou o que não serão, mas seriam, ou o que desejam. Tudo é indefinido, apenas resta uma certeza, o problema não é deles. O problema é dos outros, daquela vizinha excessivamente atenciosa que lhes ronda a casa, daquele casal excessivamente vulgar que os deixa exaustos, daquele lugar excessivamente igual que não os distingue. Há um certo conforto mental quando o casal retira a culpa dos ombros e passa a assumir que o problema é do lugar. Ali todas as Aprils e todos os Franks falham nas suas vidas e nas peças de teatro. Só serão felizes num outro lugar, onde as coisas sejam mesmo reais e não este mundo de fantochada e passagem que eles vivem à espera que as promessas se cumpram. Encetam então num plano familiar de irem para Paris e lá se reinventarem.
April toma as rédeas desse desejo. Frank, mais do que desejar, deseja o desejo. E com o pequeno impulso que a ideia de se ver a planear um futuro em Paris lhe dá, Frank brilha novamente aquela aura de possibilidades que o ajudam a conquistar simpatias na Empresa, até dos directores. Frank deixa então de depender da simbiose que tem com April para se sentir brilhante. Lá fora, outros alimentam essa chama. Os colegas, uma amante, o patrão.
Frank começa a desejar que apenas se deseje para sempre, mas não se concretize. E April, sem querer, dá-lhe a oportunidade (a desculpa) para que isso aconteça. April engravida e isso deita a perder os planos de mudança. Frank fica aliviado e finge que não. April finge-se resignada. Tudo aparenta voltar à normalidade, até que April tenta uma última vez. Morre a tentar
Frank e April são um casal jovem, bonito e cuja união se fez por aquela sensação de que algo neles era especial, diferente, promissor.
À boa maneira da geração promissora, mas diletante dos Maias de Eça de Queirós, também April e Frank vivem suspensos na sua distinção social que faz com que olhem todos os seus vizinhos e até o casal de amigos mais chegado, com alguma sobranceria. Frank é o género de homem encantador, que não sabendo nada sobre nada, sempre se distinguiu pela graça do discurso e por uma certa irreverência. Todos lhe auspiciavam um futuro brilhante e indefinido, pois não parecia ser possível idealiza-lo em tarefas mundanas. April é a mulher que se destaca. Bonita, misteriosa e com um discurso igualmente apelativo. Este pack completo de mulher incontornável parecia igualmente destinado a um não sei quê de auspicioso, tanto mais que April estudava teatro e conhecera Frank.
Todos (incluindo April e Frank) previam um amanhã de deslumbre para este casal. Algo fazia crer, que o hoje deles, bem longinquo dessa visão, era apenas um ensaio, uma passagem. Ninguém acredita que Frank e April sejam reais, nem eles mesmos. Os vizinhos e amigos rondam-nos como borboletas em torno da luz, na tentativa de aproveitarem a sua passagem terrena. Mas a imaterialização do desejo de serem as promessas que semearam, torna-se cada vez mais pesada. Primeiro April sente na pele o fracasso de uma peça representada num teatro de bairro. Ela April, tão igual a todos os outros. Tão sem graça, tão teatral, tão sem propósito. April desespera com a possibilidade de ser apenas assim. Onde estão as promessas? Os sonhos? As infinitas possibilidades que lhe pareciam destinadas? Frank que não foi posto à prova sente uma certa repugnância. É difícil ao casal voltar a desprezar os outros se ali April está no lugar deles.
Prestes a descarrilarem do carrocel das ilusões, April ela mesma pretende resgatar quem eram, ou o que nunca foram, mas serão, ou o que não serão, mas seriam, ou o que desejam. Tudo é indefinido, apenas resta uma certeza, o problema não é deles. O problema é dos outros, daquela vizinha excessivamente atenciosa que lhes ronda a casa, daquele casal excessivamente vulgar que os deixa exaustos, daquele lugar excessivamente igual que não os distingue. Há um certo conforto mental quando o casal retira a culpa dos ombros e passa a assumir que o problema é do lugar. Ali todas as Aprils e todos os Franks falham nas suas vidas e nas peças de teatro. Só serão felizes num outro lugar, onde as coisas sejam mesmo reais e não este mundo de fantochada e passagem que eles vivem à espera que as promessas se cumpram. Encetam então num plano familiar de irem para Paris e lá se reinventarem.
April toma as rédeas desse desejo. Frank, mais do que desejar, deseja o desejo. E com o pequeno impulso que a ideia de se ver a planear um futuro em Paris lhe dá, Frank brilha novamente aquela aura de possibilidades que o ajudam a conquistar simpatias na Empresa, até dos directores. Frank deixa então de depender da simbiose que tem com April para se sentir brilhante. Lá fora, outros alimentam essa chama. Os colegas, uma amante, o patrão.
Frank começa a desejar que apenas se deseje para sempre, mas não se concretize. E April, sem querer, dá-lhe a oportunidade (a desculpa) para que isso aconteça. April engravida e isso deita a perder os planos de mudança. Frank fica aliviado e finge que não. April finge-se resignada. Tudo aparenta voltar à normalidade, até que April tenta uma última vez. Morre a tentar
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Do facebook e outros demónios
Quando em relação aos acontecimentos periódicos do post anterior tentava pensar num "a mim tudo me acontece", o meu pai serenamente deu-me um conselho como quem diz: deixa-te lá de fatalidades e organiza as tuas prioridades e o teu dia.
E eu fiquei a pensar que ele tem razão, claro. E eu sei que ele tem razão, mas independentemente de saber, os meus dias são na verdade um pouco caóticos. Pois como não tenho tempo para tudo e não estabeleço prioridades, faço tudo à custa de dormir/descansar menos.
Por isso talvez o meu "asco" ao facebook e aquela coscuvilhice diária de pessoas que dizem a cada passo onde estão, onde vão e onde querem ir e de pessoas que vão ver a página das pessoas que dizem isso. Eu não me interesso por isso. Eu estou-me nas tintas para isso. Eu não tenho tempo para isso (soa arrogante, não é? a falta de tempo dá-nos a arrogância de termos que desprezar algumas coisas). É claro que sei que há pessoas que fazem um uso diferente do facebook, mas também é claro para mim que essas pessoas não são a maioria. E também é claro para mim que já há tanta coisa que sei que gosto e não tenho tempo de fazer...por que motivo iria eu ter uma página e lançar-me em mais uma actividade a que não iria prestar atenção?
E é verdade que escrevo aqui meia dúzia de balelas...ou como o meu colega que tanto se indigna que eu deteste visceralmente o facebook dizia: "também se pode ter um blog e escrever coisas perfeitamente anormais (ou absurdas) nele". Não sei se ele estava a referir-se ao que eu aqui escrevo, nem quero saber. O que eu aqui escrevo são apenas retalhos de algumas coisas que me ajudam a pensar que também vivo. O que eu aqui escrevo é precisamente uma tentativa de deixar guardado em algum lugar quem eu sou, o que gosto e penso. Para que no meu esquecimento constante das prioridades da minha vida, não me vá esquecer também de mim, no processo.
E se mais argumentos não hajam aqui afirmo peremptoriamente uma série de razões muito convincentes e irrefutáveis para explicar porque detesto o facebook:
- Não gosto do "look" azul e branco das páginas...e aquela fonte de letra é qual? arghhh
- Gosto daquela ideia romântica de que não se deve mexer muito com as memórias boas. Porquê descobrir que "aqueles amigos daquele tempo" afinal não são bem como imaginavamos? O facebook serve para isso, para acabar com encantos e eu cá já sofri a desilusão de um dia atender na farmácia o meu professor de biologia e ver à minha frente um homem baixo feio e que falava "axim" que arrasou com a minha fantasia de ter tido um professor de biologia alto e espadaúdo de discurso brilhante e voz arrebatadora
- Sou um bocado anti-social e tenho um apelido que é um nome de um peixe por isso essa coisa de me meter numa "rede" social, soa-me a que vou ser pescada e dá-me logo vontade de me esconder em casa a comer um balde de gelado de iogurte enquanto vejo filmes até desfalecer.
Portanto não gosto do facebook porque não....assim como gosto de chocolate porque sim, não será esta uma razão suficiente? Aliás todos (des)gostamos um pouco por instinto, só depois vamos muito enfaticamente procurar uma série de razões que nos façam sentir que estamos certos nas nossas escolhas. E muitas vezes queremos convencer os outros destas razões e de que nós estamos certos. Eu não sinto a necessidade de convencer ninguém, por isso faço aqui a promessa de nunca mais me envolver em conversas do tipo ter que convencer alguém porque é que eu gosto/desgosto de alguma coisa. Porque motivo me vejo sempre a ter que defender as minhas opiniões? Elas "são" apenas opiniões e como tal carecem de qualquer defesa. Só as certezas são passíveis de discussão, mas certezas não tenho nenhumas.
E eu fiquei a pensar que ele tem razão, claro. E eu sei que ele tem razão, mas independentemente de saber, os meus dias são na verdade um pouco caóticos. Pois como não tenho tempo para tudo e não estabeleço prioridades, faço tudo à custa de dormir/descansar menos.
Por isso talvez o meu "asco" ao facebook e aquela coscuvilhice diária de pessoas que dizem a cada passo onde estão, onde vão e onde querem ir e de pessoas que vão ver a página das pessoas que dizem isso. Eu não me interesso por isso. Eu estou-me nas tintas para isso. Eu não tenho tempo para isso (soa arrogante, não é? a falta de tempo dá-nos a arrogância de termos que desprezar algumas coisas). É claro que sei que há pessoas que fazem um uso diferente do facebook, mas também é claro para mim que essas pessoas não são a maioria. E também é claro para mim que já há tanta coisa que sei que gosto e não tenho tempo de fazer...por que motivo iria eu ter uma página e lançar-me em mais uma actividade a que não iria prestar atenção?
E é verdade que escrevo aqui meia dúzia de balelas...ou como o meu colega que tanto se indigna que eu deteste visceralmente o facebook dizia: "também se pode ter um blog e escrever coisas perfeitamente anormais (ou absurdas) nele". Não sei se ele estava a referir-se ao que eu aqui escrevo, nem quero saber. O que eu aqui escrevo são apenas retalhos de algumas coisas que me ajudam a pensar que também vivo. O que eu aqui escrevo é precisamente uma tentativa de deixar guardado em algum lugar quem eu sou, o que gosto e penso. Para que no meu esquecimento constante das prioridades da minha vida, não me vá esquecer também de mim, no processo.
E se mais argumentos não hajam aqui afirmo peremptoriamente uma série de razões muito convincentes e irrefutáveis para explicar porque detesto o facebook:
- Não gosto do "look" azul e branco das páginas...e aquela fonte de letra é qual? arghhh
- Gosto daquela ideia romântica de que não se deve mexer muito com as memórias boas. Porquê descobrir que "aqueles amigos daquele tempo" afinal não são bem como imaginavamos? O facebook serve para isso, para acabar com encantos e eu cá já sofri a desilusão de um dia atender na farmácia o meu professor de biologia e ver à minha frente um homem baixo feio e que falava "axim" que arrasou com a minha fantasia de ter tido um professor de biologia alto e espadaúdo de discurso brilhante e voz arrebatadora
- Sou um bocado anti-social e tenho um apelido que é um nome de um peixe por isso essa coisa de me meter numa "rede" social, soa-me a que vou ser pescada e dá-me logo vontade de me esconder em casa a comer um balde de gelado de iogurte enquanto vejo filmes até desfalecer.
Portanto não gosto do facebook porque não....assim como gosto de chocolate porque sim, não será esta uma razão suficiente? Aliás todos (des)gostamos um pouco por instinto, só depois vamos muito enfaticamente procurar uma série de razões que nos façam sentir que estamos certos nas nossas escolhas. E muitas vezes queremos convencer os outros destas razões e de que nós estamos certos. Eu não sinto a necessidade de convencer ninguém, por isso faço aqui a promessa de nunca mais me envolver em conversas do tipo ter que convencer alguém porque é que eu gosto/desgosto de alguma coisa. Porque motivo me vejo sempre a ter que defender as minhas opiniões? Elas "são" apenas opiniões e como tal carecem de qualquer defesa. Só as certezas são passíveis de discussão, mas certezas não tenho nenhumas.
Há que ver as coisas com optimismo
Cronologia dos acontecimentos:
2004 - Computador portátil avaria nas vésperas de uma viagem e incompetentes do serviço de apoio a clientes arrasam com o meu disco. Pensei que tinha perdido todo o material do trabalho e quase tive uma sincope. Recuperei os dados através de http://www.arnaldolucio.com/
2006 - Computador portátil roubado da mala do carro. Perdi algumas coisas porque nunca se tem os backups em dia e as coisas acontecem precisamente quando não se tem
2008 - Computador portátil roubado do meu gabinete no trabalho. Mais uma vez começar tudo...sem lembrar a falta do backup incluida para o que se tinha acabado no dia anterior às tantas da manhã
2011 - Computador portátil avaria. Já estava a imaginar ficar sem disco, mas desta vez isso não aconteceu.
Cronologia das emoções:
2004- Chorei, bati mal, pensei em desistir
2006- Chorei, bati mal
2008- Chorei
2011- Fiquei um bocado chateada e pensei: ok agora só por volta de fim de 2012, princípio de 2013 vou ter nova chatice
Conclusão: A velha máxima- o que não nos mata, torna-nos mais fortes
2004 - Computador portátil avaria nas vésperas de uma viagem e incompetentes do serviço de apoio a clientes arrasam com o meu disco. Pensei que tinha perdido todo o material do trabalho e quase tive uma sincope. Recuperei os dados através de http://www.arnaldolucio.com/
2006 - Computador portátil roubado da mala do carro. Perdi algumas coisas porque nunca se tem os backups em dia e as coisas acontecem precisamente quando não se tem
2008 - Computador portátil roubado do meu gabinete no trabalho. Mais uma vez começar tudo...sem lembrar a falta do backup incluida para o que se tinha acabado no dia anterior às tantas da manhã
2011 - Computador portátil avaria. Já estava a imaginar ficar sem disco, mas desta vez isso não aconteceu.
Cronologia das emoções:
2004- Chorei, bati mal, pensei em desistir
2006- Chorei, bati mal
2008- Chorei
2011- Fiquei um bocado chateada e pensei: ok agora só por volta de fim de 2012, princípio de 2013 vou ter nova chatice
Conclusão: A velha máxima- o que não nos mata, torna-nos mais fortes
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
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