terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ainda sobre os filmes, os artistas, a imortalidade ou sob o efeito do licor de chocolate


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Eu aprendo muitas coisas nos filmes. Talvez porque seja fácil me manipularem com algumas imagens bem alinhadas e uma música de feição. Tal como escrevi atrás descobri que se consegue dar a volta ao meu cérebro com alguma facilidade. Claro que eu descobri isso como pura necessidade e instinto de sobrevivência. Aprendi a conduzir as emoções quando elas eram tão avassaladoras que me prostravam e me tolhiam as acções. Hoje em dia é difícil voltar a resvalar nessa tendência mental para a tristeza. Mal lhe sinto o cheiro, guino à direita e faço inversão de marcha. E depois penso, se eu sou capaz de fazer isso a mim mesma de uma forma tão consciente, não serão também capazes os "artistas" do mesmo? Claro que sim. É essa a diferença de ser artista, bom escritor, bom realizador, bom músico. É possuir universalidade e atingir o ser humano naquilo que o torna ser humano. Desconstruir tanto ao ponto de perceber qual o ponto que tocando dói a todos. Esse é o segredo para a imortalidade: a universalidade.
Por isso dizer: aprendo muitas coisas nos filmes é o mesmo que dizer: os filmes ensinam-me tudo aquilo que querem que eu saiba.
Isto tudo para falar de outro dos meus filmes preferidos: "fala com ela" do Almodovar. Se eu descrevesse o filme num tom asséptico de lista de compras do supermercado eu diria: trata-se de um filme que conta a história de um enfermeiro que engravida uma mulher que estava em coma e aos seus cuidados. O enfermeiro vivia sozinho com a mãe. A mulher desperta do coma e o enfermeiro é preso.
O que se pensaria daqui? Que horror. Que homem monstruoso. Que oportunismo de uma situação frágil. Que pessoa ridícula, cuja acção apenas existe com aqueles que não podem reagir.

Mas a mestria é tanta, que nada disto nos horroriza, ao ponto de percebermos perfeitamente o ponto de vista do enfermeiro.
Somos ou não manipuláveis?

Quem não acredite que experimente ver este filme....e de seguida em dose dupla, aproveite e veja o "Morte em Veneza". Garanto que a tinta do cabelo a escorrer ao sol é capaz de apagar qualquer repulsa à vertente pedófila do personagem.

Em todos os filmes que me tocam sei que aquilo que toca mais fundo é a sensação de identificação. É conseguir focar o aspecto mais humano e até mais ridículo, no sentido de mais exposto, de tão nu que dá pena, que comove e que nos faz entender aquela mensagem como vinda de dentro de nós mesmos.

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