Muito se diz sobre o facto de este livro retratar a apatia da vida nos subúrbios dos EUA. Mas na verdade, apesar de bem localizado geograficamente, o livro situa-se muito mais na densidade psicológica de qualquer pessoa, do que na casinha no alto de um cume em revolutionary road.
Frank e April são um casal jovem, bonito e cuja união se fez por aquela sensação de que algo neles era especial, diferente, promissor.
À boa maneira da geração promissora, mas diletante dos Maias de Eça de Queirós, também April e Frank vivem suspensos na sua distinção social que faz com que olhem todos os seus vizinhos e até o casal de amigos mais chegado, com alguma sobranceria. Frank é o género de homem encantador, que não sabendo nada sobre nada, sempre se distinguiu pela graça do discurso e por uma certa irreverência. Todos lhe auspiciavam um futuro brilhante e indefinido, pois não parecia ser possível idealiza-lo em tarefas mundanas. April é a mulher que se destaca. Bonita, misteriosa e com um discurso igualmente apelativo. Este pack completo de mulher incontornável parecia igualmente destinado a um não sei quê de auspicioso, tanto mais que April estudava teatro e conhecera Frank.
Todos (incluindo April e Frank) previam um amanhã de deslumbre para este casal. Algo fazia crer, que o hoje deles, bem longinquo dessa visão, era apenas um ensaio, uma passagem. Ninguém acredita que Frank e April sejam reais, nem eles mesmos. Os vizinhos e amigos rondam-nos como borboletas em torno da luz, na tentativa de aproveitarem a sua passagem terrena. Mas a imaterialização do desejo de serem as promessas que semearam, torna-se cada vez mais pesada. Primeiro April sente na pele o fracasso de uma peça representada num teatro de bairro. Ela April, tão igual a todos os outros. Tão sem graça, tão teatral, tão sem propósito. April desespera com a possibilidade de ser apenas assim. Onde estão as promessas? Os sonhos? As infinitas possibilidades que lhe pareciam destinadas? Frank que não foi posto à prova sente uma certa repugnância. É difícil ao casal voltar a desprezar os outros se ali April está no lugar deles.
Prestes a descarrilarem do carrocel das ilusões, April ela mesma pretende resgatar quem eram, ou o que nunca foram, mas serão, ou o que não serão, mas seriam, ou o que desejam. Tudo é indefinido, apenas resta uma certeza, o problema não é deles. O problema é dos outros, daquela vizinha excessivamente atenciosa que lhes ronda a casa, daquele casal excessivamente vulgar que os deixa exaustos, daquele lugar excessivamente igual que não os distingue. Há um certo conforto mental quando o casal retira a culpa dos ombros e passa a assumir que o problema é do lugar. Ali todas as Aprils e todos os Franks falham nas suas vidas e nas peças de teatro. Só serão felizes num outro lugar, onde as coisas sejam mesmo reais e não este mundo de fantochada e passagem que eles vivem à espera que as promessas se cumpram. Encetam então num plano familiar de irem para Paris e lá se reinventarem.
April toma as rédeas desse desejo. Frank, mais do que desejar, deseja o desejo. E com o pequeno impulso que a ideia de se ver a planear um futuro em Paris lhe dá, Frank brilha novamente aquela aura de possibilidades que o ajudam a conquistar simpatias na Empresa, até dos directores. Frank deixa então de depender da simbiose que tem com April para se sentir brilhante. Lá fora, outros alimentam essa chama. Os colegas, uma amante, o patrão.
Frank começa a desejar que apenas se deseje para sempre, mas não se concretize. E April, sem querer, dá-lhe a oportunidade (a desculpa) para que isso aconteça. April engravida e isso deita a perder os planos de mudança. Frank fica aliviado e finge que não. April finge-se resignada. Tudo aparenta voltar à normalidade, até que April tenta uma última vez. Morre a tentar
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
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2 comentários:
Olá Marlene
Obrigado pelo comentário no nosso mar.
Vi este filme "revolutionary"já faz algum tempo e lembro-me que como de costume a interpretação de Kate Winslet me fascinou. Não tinha muito presente os pormenores do enredo que agora recuperei nestes textos tão bem escritos. Fiquei também com a curiosidade do livro, com o muito que fica por dizer quando se sumariza o discurso na imagem. Sei que para mim, se agora me debruçar sobre as linhas de Richard Yates, os personagens terão um rosto e fico na dúvida de que forma o quadro psicológico será influenciado pelo depois de faces personalizadas. Será concerteza uma leitura diferente, uma descoberta de um outro olhar, para além da construção do drama e de não ter a surpresa do final.
Obrigado também por estas análises e descrições vivas, emotivas que nos põem a pensar e a recuar ao essencial.
Bjo.
José
Olá José,
O mar não é morto, pois que o José não deixa de o impulsionar.
Bjo
Marlene
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