Se alguém de quem gostamos muito, morre ou desaparece, e a dor da perda parece um espigão no pé
que dói a cada passo
se a ausência é tal que parece um polígno impossível cheio de vértices
que nos arranha a pele
Se sobre a pele esfolada derramamos um caudal inteiro de lágrimas incontidas
que nos ardem na ferida
Se a falta é tão grande que parece que a ausência tem a consistência de um buraco
no estômago
Se enchemos o estômago para tapar o buraco sem fundo
Se olharmos para dentro do buraco e vemos os nossos olhos a olharem para nós
Se acima de tudo pensamos que não vamos aguentar
Claro que vamos
um dia passa
E não é porque tu voltes dos vivos ou dos mortos
Ou porque o espigão do pé se desintegre
Ou porque a tua ausência se arredonde e deslize pela pele
Ou porque gastamos o cloreto de sódio e só sobra glicose. E lágrimas doces não ardem
Ou porque o buraco do estômago se curou com omeprazol
E sem o buraco nunca mais irás ter onde espreitar
Não é por nada disso.
Apenas a parte de nós que tu criaste
para deixares para trás como um vértice, como um espigão, como uma ferida, como um buraco
Apenas essa parte se extinguiu
Como uma espécie que deixou de ser
para outra que se adapta
e sobrevive-te
quarta-feira, 22 de junho de 2011
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Abertura 480 and so on
A vida é uma adaptação.
Adapto-me à minha inadequação latente com um desprezo desinteressado.
Como aquela grua que ouço e remato num ponto cruz este bordado pensamento: construções.
E penso como sórdidas as construções de mais pilhas de betão que se erguem no ar.
A grua muge e eu penso: vacas, campo, construções e Homens.
E um enorme desapego se instala em mim.
Construo o meu desinteresse com o som da grua que ouço.
É essa a adaptação última.
Tens medo de ser, opta por dizer que não és.
É cansativo algum estremecimento do sangue.
A violência com que te chamam da cama, para o dia que já começou sem ti
Pensas como será chegar atrasado a esse dia,
Pensas que poderás faltar a esse dia
E a grua range a lembrar que sem ti os Homens esticam-se para o céu
Enquanto te encolhes no sono
Que solução tens senão a adaptação?
Engoles conscientemente a decisão de recusar o dia
Aquela grua, aquele movimento, que não param às tuas ordens
Aquela vida estremecida que te pretende arrancar da latência da tua paragem
Que não param se tu parares
Optas então por desdenhar do movimento
Puxas o lençol sobre a cabeça e adormeces ao som da grua que constrói o dia
à tua revelia
Adapto-me à minha inadequação latente com um desprezo desinteressado.
Como aquela grua que ouço e remato num ponto cruz este bordado pensamento: construções.
E penso como sórdidas as construções de mais pilhas de betão que se erguem no ar.
A grua muge e eu penso: vacas, campo, construções e Homens.
E um enorme desapego se instala em mim.
Construo o meu desinteresse com o som da grua que ouço.
É essa a adaptação última.
Tens medo de ser, opta por dizer que não és.
É cansativo algum estremecimento do sangue.
A violência com que te chamam da cama, para o dia que já começou sem ti
Pensas como será chegar atrasado a esse dia,
Pensas que poderás faltar a esse dia
E a grua range a lembrar que sem ti os Homens esticam-se para o céu
Enquanto te encolhes no sono
Que solução tens senão a adaptação?
Engoles conscientemente a decisão de recusar o dia
Aquela grua, aquele movimento, que não param às tuas ordens
Aquela vida estremecida que te pretende arrancar da latência da tua paragem
Que não param se tu parares
Optas então por desdenhar do movimento
Puxas o lençol sobre a cabeça e adormeces ao som da grua que constrói o dia
à tua revelia
Abertura 480
Ouvi uma coisa este fim-de-semana sobre o facto de todos nós, mesmo sem termos contactado com cobras, termos uma reacção de medo quando vemos uma. A razão apontada seria que, o facto de já termos sido as presas de cobras durante o processo evolutivo, nos traria uma reacção inata de protecção.
Também ouvi algumas explicações sobre a palavra teoria. Como a um nível corrente a teoria ter um cariz de "historieta mais ou menos convincente inventada por fulano" e ao nível científico ser algo construido e sólido.
E a respeito disto tudo tenho as minhas próprias teorias. Que não sendo científicas lá caem na primeira categoria.
Sobre a vida, por exemplo. Penso que a vida de cada um de nós é a justificação que lhe atribuimos em função dos predadores que já nos devoraram e outros medos afins.
Toda a gente teoriza sobre a forma como entende a vida. Mas a verdade é que Darwin, esse sim de teoria em riste, tinha muita razão. E a vida é uma adaptação.
continuo este pensamento amanhã...pois quero dormir rápido, levantar-me cedo e aproveitar um pouco mais de vida
Também ouvi algumas explicações sobre a palavra teoria. Como a um nível corrente a teoria ter um cariz de "historieta mais ou menos convincente inventada por fulano" e ao nível científico ser algo construido e sólido.
E a respeito disto tudo tenho as minhas próprias teorias. Que não sendo científicas lá caem na primeira categoria.
Sobre a vida, por exemplo. Penso que a vida de cada um de nós é a justificação que lhe atribuimos em função dos predadores que já nos devoraram e outros medos afins.
Toda a gente teoriza sobre a forma como entende a vida. Mas a verdade é que Darwin, esse sim de teoria em riste, tinha muita razão. E a vida é uma adaptação.
continuo este pensamento amanhã...pois quero dormir rápido, levantar-me cedo e aproveitar um pouco mais de vida
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Abertura 9 - de febril a fabril
"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir"
Há dois tipos de escrita em cada um de nós.
A que se cansa pelo esforço da caneta, obrigada a raspar o papel, ou aos toques hesitantes no teclado e a outra, a que trazemos inscrita, num punhado de genes, ou num qualquer fluido corporal etéreo a que não sabemos como classificar e que nem com TAC se vê.
Acredito que o envelhecimento me está a acontecer, pois cada vez menos sinto essa escrita interna e invisível.
Antes não conseguia evita-la.
Tudo agora se resume ao meu segundo tipo de escrita, o cansativo, que exige toques nas teclas e sensação de que as letras já não são as minhas. Chego a ponderar se vale a pena continuar a escrever o que quer que seja, pois faço-o um pouco com uma atitude fabril (e não febril) de quem cumpre uma tarefa na linha de montagem.
Por isso, perdi o jeito de abrir os fechos.
Gostava de falar sobre o desassossego. Mas quando encerro os olhos, entendo tudo e parece que não há nada a dizer.
O meu desassossego é brando como um lume que vai pegando no fundo do tacho mas à superfície não deixa qualquer suspeita.
Ainda o sinto, mas ninguém vê
Há dois tipos de escrita em cada um de nós.
A que se cansa pelo esforço da caneta, obrigada a raspar o papel, ou aos toques hesitantes no teclado e a outra, a que trazemos inscrita, num punhado de genes, ou num qualquer fluido corporal etéreo a que não sabemos como classificar e que nem com TAC se vê.
Acredito que o envelhecimento me está a acontecer, pois cada vez menos sinto essa escrita interna e invisível.
Antes não conseguia evita-la.
Tudo agora se resume ao meu segundo tipo de escrita, o cansativo, que exige toques nas teclas e sensação de que as letras já não são as minhas. Chego a ponderar se vale a pena continuar a escrever o que quer que seja, pois faço-o um pouco com uma atitude fabril (e não febril) de quem cumpre uma tarefa na linha de montagem.
Por isso, perdi o jeito de abrir os fechos.
Gostava de falar sobre o desassossego. Mas quando encerro os olhos, entendo tudo e parece que não há nada a dizer.
O meu desassossego é brando como um lume que vai pegando no fundo do tacho mas à superfície não deixa qualquer suspeita.
Ainda o sinto, mas ninguém vê
A cover a day puts the doctor away #11
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Cry me a river, inicialmente composta para a voz de Ella Fitzgerald é uma música que parece aqueles pratos tradicionais muito bons e que se imagina logo que são uma base neutra para com um twist se transformarem em algo surpreendente. Gosto especialmente destas versões femininas:
- Björk: para mim a incontornável Björk que põe sempre algo mais que a voz em tudo o que canta (e que piano fantástico, a acompanhar!);
- Lisa Ekdahl, cantora sueca, com um jazz luminoso que lembra uma tarde morna ao pôr do sol;
- Julie London, esta versão, apesar de não ser a primeira é aquela que me parece a base mais clean, onde todas as outras adicionaram pitadas de condimentos
- Ella Fitzgerald....se o sorriso não é uma questão de dentes, é aqui bem patente que uma boa interpretação não é uma questão de voz. Nesta voz vivem muitas mais coisas que uma simples vibração de cordas vocais e quando a ouço, ouço mil cambiantes de notas que vão muito além da voz. Como se ao ouvir Ella, ela mesma se fizesse ouvir.
E agora choro um rio inteiro, por ter que ir trabalhar
sábado, 4 de junho de 2011
sexta-feira, 3 de junho de 2011
As intermitências da morte
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