quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sobrevivo-te melhor do que que nunca

Se alguém de quem gostamos muito, morre ou desaparece, e a dor da perda parece um espigão no pé
que dói a cada passo
se a ausência é tal que parece um polígno impossível cheio de vértices
que nos arranha a pele
Se sobre a pele esfolada derramamos um caudal inteiro de lágrimas incontidas
que nos ardem na ferida

Se a falta é tão grande que parece que a ausência tem a consistência de um buraco
no estômago
Se enchemos o estômago para tapar o buraco sem fundo
Se olharmos para dentro do buraco e vemos os nossos olhos a olharem para nós

Se acima de tudo pensamos que não vamos aguentar

Claro que vamos
um dia passa
E não é porque tu voltes dos vivos ou dos mortos
Ou porque o espigão do pé se desintegre
Ou porque a tua ausência se arredonde e deslize pela pele
Ou porque gastamos o cloreto de sódio e só sobra glicose. E lágrimas doces não ardem
Ou porque o buraco do estômago se curou com omeprazol
E sem o buraco nunca mais irás ter onde espreitar

Não é por nada disso.
Apenas a parte de nós que tu criaste
para deixares para trás como um vértice, como um espigão, como uma ferida, como um buraco
Apenas essa parte se extinguiu
Como uma espécie que deixou de ser
para outra que se adapta
e sobrevive-te

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Abertura 480 and so on

A vida é uma adaptação.
Adapto-me à minha inadequação latente com um desprezo desinteressado.
Como aquela grua que ouço e remato num ponto cruz este bordado pensamento: construções.
E penso como sórdidas as construções de mais pilhas de betão que se erguem no ar.
A grua muge e eu penso: vacas, campo, construções e Homens.
E um enorme desapego se instala em mim.
Construo o meu desinteresse com o som da grua que ouço.
É essa a adaptação última.
Tens medo de ser, opta por dizer que não és.

É cansativo algum estremecimento do sangue.
A violência com que te chamam da cama, para o dia que já começou sem ti
Pensas como será chegar atrasado a esse dia,
Pensas que poderás faltar a esse dia
E a grua range a lembrar que sem ti os Homens esticam-se para o céu
Enquanto te encolhes no sono

Que solução tens senão a adaptação?
Engoles conscientemente a decisão de recusar o dia
Aquela grua, aquele movimento, que não param às tuas ordens
Aquela vida estremecida que te pretende arrancar da latência da tua paragem
Que não param se tu parares
Optas então por desdenhar do movimento
Puxas o lençol sobre a cabeça e adormeces ao som da grua que constrói o dia
à tua revelia

Abertura 480

Ouvi uma coisa este fim-de-semana sobre o facto de todos nós, mesmo sem termos contactado com cobras, termos uma reacção de medo quando vemos uma. A razão apontada seria que, o facto de já termos sido as presas de cobras durante o processo evolutivo, nos traria uma reacção inata de protecção.

Também ouvi algumas explicações sobre a palavra teoria. Como a um nível corrente a teoria ter um cariz de "historieta mais ou menos convincente inventada por fulano" e ao nível científico ser algo construido e sólido.

E a respeito disto tudo tenho as minhas próprias teorias. Que não sendo científicas lá caem na primeira categoria.
Sobre a vida, por exemplo. Penso que a vida de cada um de nós é a justificação que lhe atribuimos em função dos predadores que já nos devoraram e outros medos afins.
Toda a gente teoriza sobre a forma como entende a vida. Mas a verdade é que Darwin, esse sim de teoria em riste, tinha muita razão. E a vida é uma adaptação.

continuo este pensamento amanhã...pois quero dormir rápido, levantar-me cedo e aproveitar um pouco mais de vida

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Outros tipos de abertura sobre um desfecho que tarda

Depois das eleições, o meu sentimento é este


Abertura 9 - de febril a fabril

"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir"

Há dois tipos de escrita em cada um de nós.
A que se cansa pelo esforço da caneta, obrigada a raspar o papel, ou aos toques hesitantes no teclado e a outra, a que trazemos inscrita, num punhado de genes, ou num qualquer fluido corporal etéreo a que não sabemos como classificar e que nem com TAC se vê.
Acredito que o envelhecimento me está a acontecer, pois cada vez menos sinto essa escrita interna e invisível.
Antes não conseguia evita-la.
Tudo agora se resume ao meu segundo tipo de escrita, o cansativo, que exige toques nas teclas e sensação de que as letras já não são as minhas. Chego a ponderar se vale a pena continuar a escrever o que quer que seja, pois faço-o um pouco com uma atitude fabril  (e não febril) de quem cumpre uma tarefa na linha de montagem.
Por isso, perdi o jeito de abrir os fechos.
Gostava de falar sobre o desassossego. Mas quando encerro os olhos, entendo tudo e parece que não há nada a dizer.
O meu desassossego é brando como um lume que vai pegando no fundo do tacho mas à superfície não deixa qualquer suspeita.
Ainda o sinto, mas ninguém vê

A cover a day puts the doctor away #11


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Cry me a river, inicialmente composta para a voz de Ella Fitzgerald é uma música que parece aqueles pratos tradicionais muito bons e que se imagina logo que são uma base neutra para com um twist se transformarem em algo surpreendente. Gosto especialmente destas versões femininas:
- Björk: para mim a incontornável Björk que põe sempre algo mais que a voz em tudo o que canta (e que piano fantástico, a acompanhar!);
- Lisa Ekdahl, cantora sueca, com um jazz luminoso que lembra uma tarde morna ao pôr do sol;
- Julie London, esta versão, apesar de não ser a primeira é aquela que me parece a base mais clean, onde todas as outras adicionaram pitadas de condimentos
- Ella Fitzgerald....se o sorriso não é uma questão de dentes, é aqui bem patente que uma boa interpretação não é uma questão de voz. Nesta voz vivem muitas mais coisas que uma simples vibração de cordas vocais e quando a ouço, ouço mil cambiantes de notas que vão muito além da voz. Como se ao ouvir Ella, ela mesma se fizesse ouvir.

E agora choro um rio inteiro, por ter que ir trabalhar

sábado, 4 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

As intermitências da morte

Tal como esta morte se esqueceu de aparecer, nós esquecemo-nos facilmente que a vida tem também um carácter intermitente. Este livro, louco, divertido e absolutamente sério faz-me pensar neste piscar fugaz de células em divisão que somos. O sorriso não é uma questão de dentes, diz Saramago na minha frase preferida do livro. E a vida não é uma questão de nascimento. A vida é definitivamente uma questão de morte. Quantas vezes a morte que se abeira, condiciona a vida que se acaba? Mas antes disso, exercícios de reflexão sobre essa aparente certeza : que a morte chegará. Penso que embora o saibamos, cada vez mais evitamos pensar no assunto. E evitar pensar nos assuntos, embora os pareça resolver, acaba por trazer outros problemas. Evitarmos pensar que morreremos por fim, leva-nos cada vez mais a evitar os idosos, os pais e avós que se despejam em lares para que olhemos na Tv e vejamos que o mundo é eternamente novo. Os actores de cinema são novos, os heróis são novos, as pessoas do anúncio do óleo fula são novas. E se o actor novo, o herói novo e o actor do anúncio do óleo tem o azar de inevitavelmente envelhecer, ou aparece de bochechas de esquilo recheadas de colagéneo e botox, ou é reciclado, por um novo actor que de novo represente bem o nosso admirável mundo novo. E a morte assim parece distante. Dos olhos. Do coração. É a ditadura da juventude, que eu antes também não percebia, mas que a começo agora também, ruga a ruga, ano a ano a sentir na pele. Trata-se de uma ditadura, porque nem sequer é um governo de maioria. Os velhos em maioria no nosso mundo, foram afastados sem direito a eleição. Os velhos outrora sábios, hoje são gagás ou escravos da ilusória preservação da pele no lugar. Uma luta perdida contra a gravidade para retardar o efeito de exilio da própria vida no regime de ditadura do novo. Uma morte antecipada para o velho e uma forma que o novo tem de fugir do seu próprio futuro. Afastar os velhos é a ilusão de que no dia seguinte ninguém morrerá. Até que sejamos nós os novos velhos e saberemos que a vida não é uma questão de idade, tal como o sorriso não é uma questão de dentes. E assim a vida intermitente, termina também ao novo. E o choque que isso nos traz é indescritível. Como se acreditássemos que para sorrir bastava ter dentes e para viver bastava ser jovem. Para morrer, basta estar vivo. Mas se não bastasse? E se fosse a morte que dissesse basta? O que se fariam às carcaças acumuladas, ainda velhas e ainda por morrer? Seríamos ainda assim possivelmente defensores de levar o problema para longe. Para lá da fronteira se necessário. À espreita sempre o oportunismo. Há sempre alguém que se evidencia quando alguém se afunda. Também essas são as intermitências da vida. Essa morte transmutada de alguém que cresce, prospera e vem a definhar em condições impróprias onde outro alguém tomará o seu lugar por adaptação. Esta metamorfose de uma morte larvar num nascimento de borboleta é no fundo uma metáfora aplicada a tudo o quanto é vivo, que em lugar de ser contínuo (que ilusão) é apenas intermitente. Pois não foi Portugal quinhentista o expoente do nosso país? pois não é agora a altura que mais distante estamos desse sucesso, e em que padecemos de rastos como numa morte anunciada? E a Alemanha morta no fim da guerra, pois não é ela quem dita agora as nossas vidas? As intermitências da vida são perfeitas sequências de nascimentos para situações que se confundem com as mortes de situações anteriores, numa cadência que nos deixa sem perceber até que ponto temos uma morte ou uma vida intermitente. Neste sentido também no livro é integrada a morte como uma fertilidade, um nascimento para uma nova condição. Que o Saramago me perdoe por sobreinterpretação (mas quem torna público as suas palavras, consente em silêncio que todas elas sejam mal compreendidas....é um risco que estou certa de que ele estaria consciente), mas eu vislumbrei aqui um paralelismo entre a carta violeta e a Anunciação. Desta vez não é o Anjo Gabriel que vem anunciar o nascimento, mas a carta voadora que anuncia a morte. A morte, de letra pequena e dentes à mostra, mesmo assim sem um sorriso indicará o fim, ou apenas o começo de outra coisa.