Se alguém de quem gostamos muito, morre ou desaparece, e a dor da perda parece um espigão no pé
que dói a cada passo
se a ausência é tal que parece um polígno impossível cheio de vértices
que nos arranha a pele
Se sobre a pele esfolada derramamos um caudal inteiro de lágrimas incontidas
que nos ardem na ferida
Se a falta é tão grande que parece que a ausência tem a consistência de um buraco
no estômago
Se enchemos o estômago para tapar o buraco sem fundo
Se olharmos para dentro do buraco e vemos os nossos olhos a olharem para nós
Se acima de tudo pensamos que não vamos aguentar
Claro que vamos
um dia passa
E não é porque tu voltes dos vivos ou dos mortos
Ou porque o espigão do pé se desintegre
Ou porque a tua ausência se arredonde e deslize pela pele
Ou porque gastamos o cloreto de sódio e só sobra glicose. E lágrimas doces não ardem
Ou porque o buraco do estômago se curou com omeprazol
E sem o buraco nunca mais irás ter onde espreitar
Não é por nada disso.
Apenas a parte de nós que tu criaste
para deixares para trás como um vértice, como um espigão, como uma ferida, como um buraco
Apenas essa parte se extinguiu
Como uma espécie que deixou de ser
para outra que se adapta
e sobrevive-te
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