A vida é uma adaptação.
Adapto-me à minha inadequação latente com um desprezo desinteressado.
Como aquela grua que ouço e remato num ponto cruz este bordado pensamento: construções.
E penso como sórdidas as construções de mais pilhas de betão que se erguem no ar.
A grua muge e eu penso: vacas, campo, construções e Homens.
E um enorme desapego se instala em mim.
Construo o meu desinteresse com o som da grua que ouço.
É essa a adaptação última.
Tens medo de ser, opta por dizer que não és.
É cansativo algum estremecimento do sangue.
A violência com que te chamam da cama, para o dia que já começou sem ti
Pensas como será chegar atrasado a esse dia,
Pensas que poderás faltar a esse dia
E a grua range a lembrar que sem ti os Homens esticam-se para o céu
Enquanto te encolhes no sono
Que solução tens senão a adaptação?
Engoles conscientemente a decisão de recusar o dia
Aquela grua, aquele movimento, que não param às tuas ordens
Aquela vida estremecida que te pretende arrancar da latência da tua paragem
Que não param se tu parares
Optas então por desdenhar do movimento
Puxas o lençol sobre a cabeça e adormeces ao som da grua que constrói o dia
à tua revelia
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