
Tal como esta morte se esqueceu de aparecer, nós esquecemo-nos facilmente que a vida tem também um carácter intermitente. Este livro, louco, divertido e absolutamente sério faz-me pensar neste piscar fugaz de células em divisão que somos. O sorriso não é uma questão de dentes, diz Saramago na minha frase preferida do livro. E a vida não é uma questão de nascimento. A vida é definitivamente uma questão de morte. Quantas vezes a morte que se abeira, condiciona a vida que se acaba? Mas antes disso, exercícios de reflexão sobre essa aparente certeza : que a morte chegará. Penso que embora o saibamos, cada vez mais evitamos pensar no assunto. E evitar pensar nos assuntos, embora os pareça resolver, acaba por trazer outros problemas. Evitarmos pensar que morreremos por fim, leva-nos cada vez mais a evitar os idosos, os pais e avós que se despejam em lares para que olhemos na Tv e vejamos que o mundo é eternamente novo. Os actores de cinema são novos, os heróis são novos, as pessoas do anúncio do óleo fula são novas. E se o actor novo, o herói novo e o actor do anúncio do óleo tem o azar de inevitavelmente envelhecer, ou aparece de bochechas de esquilo recheadas de colagéneo e botox, ou é reciclado, por um novo actor que de novo represente bem o nosso admirável mundo novo. E a morte assim parece distante. Dos olhos. Do coração. É a ditadura da juventude, que eu antes também não percebia, mas que a começo agora também, ruga a ruga, ano a ano a sentir na pele. Trata-se de uma ditadura, porque nem sequer é um governo de maioria. Os velhos em maioria no nosso mundo, foram afastados sem direito a eleição. Os velhos outrora sábios, hoje são gagás ou escravos da ilusória preservação da pele no lugar. Uma luta perdida contra a gravidade para retardar o efeito de exilio da própria vida no regime de ditadura do novo. Uma morte antecipada para o velho e uma forma que o novo tem de fugir do seu próprio futuro. Afastar os velhos é a ilusão de que no dia seguinte ninguém morrerá. Até que sejamos nós os novos velhos e saberemos que a vida não é uma questão de idade, tal como o sorriso não é uma questão de dentes. E assim a vida intermitente, termina também ao novo. E o choque que isso nos traz é indescritível. Como se acreditássemos que para sorrir bastava ter dentes e para viver bastava ser jovem. Para morrer, basta estar vivo. Mas se não bastasse? E se fosse a morte que dissesse basta? O que se fariam às carcaças acumuladas, ainda velhas e ainda por morrer? Seríamos ainda assim possivelmente defensores de levar o problema para longe. Para lá da fronteira se necessário. À espreita sempre o oportunismo. Há sempre alguém que se evidencia quando alguém se afunda. Também essas são as intermitências da vida. Essa morte transmutada de alguém que cresce, prospera e vem a definhar em condições impróprias onde outro alguém tomará o seu lugar por adaptação. Esta metamorfose de uma morte larvar num nascimento de borboleta é no fundo uma metáfora aplicada a tudo o quanto é vivo, que em lugar de ser contínuo (que ilusão) é apenas intermitente. Pois não foi Portugal quinhentista o expoente do nosso país? pois não é agora a altura que mais distante estamos desse sucesso, e em que padecemos de rastos como numa morte anunciada? E a Alemanha morta no fim da guerra, pois não é ela quem dita agora as nossas vidas? As intermitências da vida são perfeitas sequências de nascimentos para situações que se confundem com as mortes de situações anteriores, numa cadência que nos deixa sem perceber até que ponto temos uma morte ou uma vida intermitente. Neste sentido também no livro é integrada a morte como uma fertilidade, um nascimento para uma nova condição. Que o Saramago me perdoe por sobreinterpretação (mas quem torna público as suas palavras, consente em silêncio que todas elas sejam mal compreendidas....é um risco que estou certa de que ele estaria consciente), mas eu vislumbrei aqui um paralelismo entre a carta violeta e a Anunciação. Desta vez não é o Anjo Gabriel que vem anunciar o nascimento, mas a carta voadora que anuncia a morte. A morte, de letra pequena e dentes à mostra, mesmo assim sem um sorriso indicará o fim, ou apenas o começo de outra coisa.
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