"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir"
Há dois tipos de escrita em cada um de nós.
A que se cansa pelo esforço da caneta, obrigada a raspar o papel, ou aos toques hesitantes no teclado e a outra, a que trazemos inscrita, num punhado de genes, ou num qualquer fluido corporal etéreo a que não sabemos como classificar e que nem com TAC se vê.
Acredito que o envelhecimento me está a acontecer, pois cada vez menos sinto essa escrita interna e invisível.
Antes não conseguia evita-la.
Tudo agora se resume ao meu segundo tipo de escrita, o cansativo, que exige toques nas teclas e sensação de que as letras já não são as minhas. Chego a ponderar se vale a pena continuar a escrever o que quer que seja, pois faço-o um pouco com uma atitude fabril (e não febril) de quem cumpre uma tarefa na linha de montagem.
Por isso, perdi o jeito de abrir os fechos.
Gostava de falar sobre o desassossego. Mas quando encerro os olhos, entendo tudo e parece que não há nada a dizer.
O meu desassossego é brando como um lume que vai pegando no fundo do tacho mas à superfície não deixa qualquer suspeita.
Ainda o sinto, mas ninguém vê
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