Da pilha de post-its amarelos, rosa, verde e laranja eu tinha destacado os laranja e estava a usar esses apenas.
Pergunta a Francisquinha: Porque é que desmanchaste a pilha e estás a usar a última cor?
Respondo que gosto dos laranja e depois dos amarelos e só quando não tenho hipóteses é que uso os verdes e os rosa.
- Não gostas dos verdes e dos rosa?
- Não.
- Porquê?
- Os verdes dão-me a sensação de frio e os rosa enervam-me
- Mas esse verde lembra as bebidas de verão, e lembra o limão. Eu gosto desse verde
- Pois, mas o verde é amarelo e azul e deve ser o azul que me faz frio
- Ah...eu não gosto nada do azul
- Mas tu trazes vestido um casaco azul, Francisquinha?!
- Sim, mas eu não gosto é do azul claro que vem com os marcadores, sabes qual é? É enjoativo. Este mais escuro da cor do meu casaco faz-me sentir bem.
- Estou a ver que tens a mania da sinestesia como eu (explico-lhe o que é sinestesia)
- Se calhar é como quando eu penso nas cidades. Por exemplo, Armamar para mim é uma cidade gorda
(Ri-me com sensação de identificação)
quarta-feira, 28 de março de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
A árvore dos lugares comuns
Crítica ao filme "The tree of life" de T. Malick:
"Those less inclined to be generous might note that the central section of Tree is a mass of clichés: a baby being born to adoring parents mesmerized by his tiny foot, kids roughhousing in the front yard, a long-suffering mother long suffering,(...)
But holiness is the theme here, as frequent invocations to God and family – all breathed in a pseudo-profound whisper – make clear (...)
Bringing up questionable dichotomies between grace and nature via voice-over helps little. These people are simply clichéd props to deliver Malick’s increasingly out-of-touch vision of dubious spiritualism."
Bem, pensei que estava sozinha no mundo. Sou um bocado fundamentalista nas opiniões sobre os filmes. E sobre o filme tree of life a minha opinião é: clichés em cima de clichés, adornados com imagens pseudo-profundas e a cereja em cima do bolo é uma irritante voz de narrador em sussurro. Um filme assumidamente mau e pseudo-intelectual sem pingo de profundidade, apenas lugares comuns a começar pela imagem do pézinho do bebé.
Bem, dá-se o caso que quando tão veemente (convicta que seria entendida) expressei esta opinião, vi que estava sozinha. Os meus amigos tinham gostado (não só gostado, mas gostado muito), e as opiniões são polos opostos da minha.
E isto, que poderia ser entendido apenas como uma série de opiniões diversas da minha, na verdade na minha cabeça torna uma proporção mais preocupante. É que eu vejo placards luminosos em cima da cabeça de pessoas que admiro e gosto. E gostar de filmes do calibre do "tree of life" é razão para fundir uma meia centena de luzes de uma só vez nesse placard luminoso.
Serviu-me de consolo o facto de ter lido no indiewire, no meio de tantas aclamações ao filme, uma alma caridosa (e com um placard certamente resplandescente de brilho e luz) que partilha inteiramente a minha opinião - Senti que ainda há esperança no mundo. Uffa!
"Those less inclined to be generous might note that the central section of Tree is a mass of clichés: a baby being born to adoring parents mesmerized by his tiny foot, kids roughhousing in the front yard, a long-suffering mother long suffering,(...)
But holiness is the theme here, as frequent invocations to God and family – all breathed in a pseudo-profound whisper – make clear (...)
Bringing up questionable dichotomies between grace and nature via voice-over helps little. These people are simply clichéd props to deliver Malick’s increasingly out-of-touch vision of dubious spiritualism."
Bem, pensei que estava sozinha no mundo. Sou um bocado fundamentalista nas opiniões sobre os filmes. E sobre o filme tree of life a minha opinião é: clichés em cima de clichés, adornados com imagens pseudo-profundas e a cereja em cima do bolo é uma irritante voz de narrador em sussurro. Um filme assumidamente mau e pseudo-intelectual sem pingo de profundidade, apenas lugares comuns a começar pela imagem do pézinho do bebé.
Bem, dá-se o caso que quando tão veemente (convicta que seria entendida) expressei esta opinião, vi que estava sozinha. Os meus amigos tinham gostado (não só gostado, mas gostado muito), e as opiniões são polos opostos da minha.
E isto, que poderia ser entendido apenas como uma série de opiniões diversas da minha, na verdade na minha cabeça torna uma proporção mais preocupante. É que eu vejo placards luminosos em cima da cabeça de pessoas que admiro e gosto. E gostar de filmes do calibre do "tree of life" é razão para fundir uma meia centena de luzes de uma só vez nesse placard luminoso.
Serviu-me de consolo o facto de ter lido no indiewire, no meio de tantas aclamações ao filme, uma alma caridosa (e com um placard certamente resplandescente de brilho e luz) que partilha inteiramente a minha opinião - Senti que ainda há esperança no mundo. Uffa!
domingo, 25 de março de 2012
A que soa o envelhecimento?
___________________________________
Esta música é, a par com "que o amor não me engana", a minha preferida do Zeca Afonso.
Ouço nas músicas do Zeca Afonso muito mais do que mensagens de intervenção.
Esta obviamente contém uma mensagem política de revolta e de mudança. Mas isso está apenas na superfície da música.
Quando a ouço (e esse é o mal de tornar algo público) sou eu que ouço. E como sou eu que ouço, apodero-me da música, pelo que aquelas palavras servem para os meus egoistas propósitos. E antes do meu país estou eu. Eu e o meu mundinho privado de revoluções e quedas de regimes.
Hoje, para mim, estas palavras são o revés do "parabéns a você".
Porque envelhecer é uma morte lenta do que fomos.
Dia após dia algo do que eramos se transmuta numa outra coisa. Não necessariamente pior ou melhor, mas apenas diferente.
Mas há partes do que somos que lamentamos perder.
E o pintor, aquele que fantasia dentro de nós, é sempre a primeira vítima.
Esta música é, a par com "que o amor não me engana", a minha preferida do Zeca Afonso.
Ouço nas músicas do Zeca Afonso muito mais do que mensagens de intervenção.
Esta obviamente contém uma mensagem política de revolta e de mudança. Mas isso está apenas na superfície da música.
Quando a ouço (e esse é o mal de tornar algo público) sou eu que ouço. E como sou eu que ouço, apodero-me da música, pelo que aquelas palavras servem para os meus egoistas propósitos. E antes do meu país estou eu. Eu e o meu mundinho privado de revoluções e quedas de regimes.
Hoje, para mim, estas palavras são o revés do "parabéns a você".
Porque envelhecer é uma morte lenta do que fomos.
Dia após dia algo do que eramos se transmuta numa outra coisa. Não necessariamente pior ou melhor, mas apenas diferente.
Mas há partes do que somos que lamentamos perder.
E o pintor, aquele que fantasia dentro de nós, é sempre a primeira vítima.
sábado, 24 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
Reposição da verdade sobre as bandas sonoras
_____________________________
Não é verdade que não haja nenhuma banda sonora de um filme que me diga alguma coisa.
Há algumas que me ficaram na pele, ao ponto de não saber se a música acompanhava o filme ou o contrário.
E lá vai a famosa lista de filmes com bandas sonoras que comprei, pois não consegui olvidar (forma tão mais bonita de esquecer esta):
- "In the mood for love" (Yumeji's Theme é uma música que não sai da pele, nem depois de esfregar com força....o tema de Angkor Wat também é lindíssimo....e o Nat King Cole de quem não gosto especialmente fica lindíssimo no filme)
- "Le fabuleuse destin d'Amelie Poulin" e "Goodbye Lenin" como tudo que o maravilhoso Yann Tiersen faz também estas bandas sonoras o são e consequentemente os filmes são mágicos
- "Trainspotting" contém pérolas atrás de pérolas....impossível esquecer a cena da overdose com a música "Perfect day" do Lou Reed....Passenger do Iggy Pop...New Order...impossível esquecer a música "Lust for life" que acompanha a correria do Ewan McGregor que quase a ser atropelado salta sobre o capô do carro e fixa os olhos no condutor.
- "Habla con ella" com o Caetano Veloso a dar show. Mas esta já é uma característica do Almodovar que escolhe canções lindissimas para os filmes (ver em cima a Luz Casal...perfeita)
- "Os mutantes" da nossa Teresa Vila Verde....o fim do filme ao som do "Que o amor não me engana" do Zeca Afonso (deviam esquartejar a Dulce Pontes pela versão horrorosa que fez desta música) é de uma pungência atroz...não consigo deixar de reviver a cena do aborto do filme no WC da estação de serviço e quando ouço a música chego mesmo a sentir o frio dos azulejos
- "Chocolat"- toda a banda sonora é gira, mas a minha preferida é a "minor swing" do Django Reinhardt
- "Madame Butterfly"- O filme é arrebatador. Não consigo esquecer o papel de Jeremy Irons. E claro que a opera de Puccini é lindíssima
- "O Fantasma da Ópera" - Gostei do filme e adorei o fantasma. Não percebo o que a Cristine viu no outro deslavado. Também tenho-o sempre na cabeça: "the phantom of the opera is there inside your mind"
- "Platoon" e "Apocalipse now" impossível não gostar
- "Dancer in the Dark" de Lars von Trier com a Bjork....a banda sonora é uma obra de arte com o nome de "Selma songs"
Uma viagem à Índia - primeiras impressões
A que soa o caminho
______________________________
Sempre achei um disparate, qualquer plano de viagem à Índia, que um qualquer amigo pseudo-filosófico/intelectual se propunha a encetar com a típica mochila às costas.
Mas sempre achei um disparate, por um cinismo que guardo dentro de mim para espantar coisas sobre as quais não quero pensar. O velho truque da cauda de vaca que espanta as moscas: assim é o meu cinismo para com as ideias que me encostam à parede.
Só que ultimamente, não sei se pelo inexorável poder da velhice que me está a acontecer, resolvi ser mais franca comigo mesma.
Afinal de contas, sempre detestei o amargor das pessoas cínicas, porque então não perceber que sou também eu uma cínica? (e quase orgulhosa disso)
Claro que não mudei de opinião sobre existir um certo lirismo gasto na opção de "se ir encontrar para a Índia". No alto do meu cinismo atirava sempre a mesma previsibilidade: porque não te vais encontrar ali para os lados da Afurada?
Não mudei de opinião sobre o facto de achar incoerente esse desejo de encontrar a metafísica e a espiritualidade em espaços confinados de puro material. Porquê ir à Igreja? Porquê acender a vela aos pés de um santo de barro? Porquê rezar a mexer nas missangas de um terço? Porquê rezar uma ladaínha decorada? Porquê ir à Índia. Porquê ir? Se esta viagem que os meus profundos amigos almejavam, era no fundo a viagem que se faz quando se está paradíssimo e só com os seus botões. Para quê a mochila....porque não apenas os botões e porque não no sofá mesmo?.
Enfim...mas hoje mais branda percebo melhor o simbolismo da Índia. E percebo até melhor o simbolismo que uma viagem real externa pode trazer ao interior. Pois que é uma espécie de travessia física para cansar o corpo e no fundo o anular. E assim a viagem, o caminho, o cansaço em tudo concorrem para apenas sobrar pensamento. Sempre percebi isso, mas fiz-me sempre de tonta. Porque sempre que iniciei essa viagem assustadora e solitária da confrontação comigo mesma, queria fugir para longe. Para o filme mais próximo, para o livro mais próximo, para a música mais próxima.
Talvez porque na verdade nunca tive grande dificuldade em partir para a Índia sem sair do lugar. Talvez por isso, pela facilidade com que o faço é que não quisesse fazê-lo e achasse risível aquele desejo dos outros. Pois não é nada fácil assumirmos o silêncio e depararmo-nos com o que somos a cru. Sem cenários, sem escapatórias e sem protecções.
Mas este foi um aparte para as minhas primeiras impressões deste livro maravilhoso.
Tenho tanto de cínica como deslumbrada e intensa de opiniões ("intensa de opiniões" em vez de "excessiva"- os eufemismos e todos os recursos linguisticos são a melhor invenção do mundo...panaceias para suavizar arestas) e por isso o que eu vou dizer vale o que vale: este é um dos melhores livros que eu já li.
Trata-se de uma viagem metafísica e metacárnica de Bloom à Índia. Uma epopeia com o mote dos Lusíadas, que levavam os ancestrais heróis a descobrir o caminho para lá chegar. Bloom encontra o mundo já descoberto, mas nem por isso a sua epopeia é menor. A epopeia de Bloom é a mesma que cada um de nós tem medo de iniciar e que vai adiando com as tarefas diárias, ou que vai desprezando com o cinismo confortável. O acto heróico de Bloom é o próprio caminho. Compreendo bem que a Índia para Bloom vale tanto como a Índia do meu cinismo. A Índia é apenas a personificação de um objectivo, do conhecimento, da reflexão.
Percebo bem que a Índia personifique todos os mistérios. Um país que desconheço e que imagino como a cheirar a especiarias e a lixo. Uma água que purifica e onde despojos da vida flutuam. Um país de intensas cores e extrema pobreza. A Índia e a viagem até ela é a viagem da busca do conhecimento interior e de todos os óbvios contrastes que se apresentam quando nos dispomos a ter tempo e espaço para reflectir. E a viagem de Bloom e do livro é uma leitura que nos faz pensar a cada frase. E que nos obriga a deixar de cinismos e a pegar na mochila.
(ainda vou no canto VIII...quando acabar vou voltar a ler o livro)
______________________________
Sempre achei um disparate, qualquer plano de viagem à Índia, que um qualquer amigo pseudo-filosófico/intelectual se propunha a encetar com a típica mochila às costas.
Mas sempre achei um disparate, por um cinismo que guardo dentro de mim para espantar coisas sobre as quais não quero pensar. O velho truque da cauda de vaca que espanta as moscas: assim é o meu cinismo para com as ideias que me encostam à parede.
Só que ultimamente, não sei se pelo inexorável poder da velhice que me está a acontecer, resolvi ser mais franca comigo mesma.
Afinal de contas, sempre detestei o amargor das pessoas cínicas, porque então não perceber que sou também eu uma cínica? (e quase orgulhosa disso)
Claro que não mudei de opinião sobre existir um certo lirismo gasto na opção de "se ir encontrar para a Índia". No alto do meu cinismo atirava sempre a mesma previsibilidade: porque não te vais encontrar ali para os lados da Afurada?
Não mudei de opinião sobre o facto de achar incoerente esse desejo de encontrar a metafísica e a espiritualidade em espaços confinados de puro material. Porquê ir à Igreja? Porquê acender a vela aos pés de um santo de barro? Porquê rezar a mexer nas missangas de um terço? Porquê rezar uma ladaínha decorada? Porquê ir à Índia. Porquê ir? Se esta viagem que os meus profundos amigos almejavam, era no fundo a viagem que se faz quando se está paradíssimo e só com os seus botões. Para quê a mochila....porque não apenas os botões e porque não no sofá mesmo?.
Enfim...mas hoje mais branda percebo melhor o simbolismo da Índia. E percebo até melhor o simbolismo que uma viagem real externa pode trazer ao interior. Pois que é uma espécie de travessia física para cansar o corpo e no fundo o anular. E assim a viagem, o caminho, o cansaço em tudo concorrem para apenas sobrar pensamento. Sempre percebi isso, mas fiz-me sempre de tonta. Porque sempre que iniciei essa viagem assustadora e solitária da confrontação comigo mesma, queria fugir para longe. Para o filme mais próximo, para o livro mais próximo, para a música mais próxima.
Talvez porque na verdade nunca tive grande dificuldade em partir para a Índia sem sair do lugar. Talvez por isso, pela facilidade com que o faço é que não quisesse fazê-lo e achasse risível aquele desejo dos outros. Pois não é nada fácil assumirmos o silêncio e depararmo-nos com o que somos a cru. Sem cenários, sem escapatórias e sem protecções.
Mas este foi um aparte para as minhas primeiras impressões deste livro maravilhoso.
Tenho tanto de cínica como deslumbrada e intensa de opiniões ("intensa de opiniões" em vez de "excessiva"- os eufemismos e todos os recursos linguisticos são a melhor invenção do mundo...panaceias para suavizar arestas) e por isso o que eu vou dizer vale o que vale: este é um dos melhores livros que eu já li.
Trata-se de uma viagem metafísica e metacárnica de Bloom à Índia. Uma epopeia com o mote dos Lusíadas, que levavam os ancestrais heróis a descobrir o caminho para lá chegar. Bloom encontra o mundo já descoberto, mas nem por isso a sua epopeia é menor. A epopeia de Bloom é a mesma que cada um de nós tem medo de iniciar e que vai adiando com as tarefas diárias, ou que vai desprezando com o cinismo confortável. O acto heróico de Bloom é o próprio caminho. Compreendo bem que a Índia para Bloom vale tanto como a Índia do meu cinismo. A Índia é apenas a personificação de um objectivo, do conhecimento, da reflexão.
Percebo bem que a Índia personifique todos os mistérios. Um país que desconheço e que imagino como a cheirar a especiarias e a lixo. Uma água que purifica e onde despojos da vida flutuam. Um país de intensas cores e extrema pobreza. A Índia e a viagem até ela é a viagem da busca do conhecimento interior e de todos os óbvios contrastes que se apresentam quando nos dispomos a ter tempo e espaço para reflectir. E a viagem de Bloom e do livro é uma leitura que nos faz pensar a cada frase. E que nos obriga a deixar de cinismos e a pegar na mochila.
(ainda vou no canto VIII...quando acabar vou voltar a ler o livro)
Etiquetas:
A tua trilha sonora de hoje,
os livros que leio
domingo, 18 de março de 2012
A que soa o passado?
__________________________
O meu tresanda a Velvet Underground e Nico e Lou Reed e ainda John Cale.
Ouvia incessantemente.
Quando ainda ninguém (ou muito pouca gente) andava a navegar na net, eu descobria o chat e o irc. O saudoso icq. E neles era Sweetjane. Homónima da música dos Velvet.
Talvez por isso hoje não tenha paciência para o facebook. Mergulhei com intensidade suficiente na existência virtual e na conversa de projecção "do que sou, quem tu és, nós com mais uns pozinhos", que agora fujo do msn com força, guino para não embater no facebook e uso com parcimónia o skype e os emails.
Sim e escrevo aqui. Mas aqui tudo me parece menos estridente. Debito o que entendo. E não tenho que colecionar amigos ou likes. Já passei mesmo essa fase e esgotei-a por completo.
Mas os velvet não se esgotam. Ficam de reserva para quando me esqueço de que parte de mim vim.
A música é um botão reset poderoso.
quarta-feira, 14 de março de 2012
A que soa a mudança?
________________________________
"Não dizer: sou grande, mas falta-me a metade de tudo,
Dizer sim: falta-me metade de tudo,
mas sou grande.
E mudar a localização do positivo e do negativo
altera muito, como bem se sabe"
(do livro Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, que leio a conta-gotas para saborear cada palavra)
terça-feira, 13 de março de 2012
A que soa a confiança?
_____________________________
Mais do que o tempo, às vezes são as pessoas que nos envelhecem
Sinto muitas vezes um cansaço imenso da previsibilidade dos outros
E isso, só isso me faz entortar as costas e hesitar o passo
Mas entretanto ainda acordo e cuspo de mim este peso
Este excessivo cansaço que me verga
Esses espartilhos que me cambam o andar
E diriam quem me visse assim louca e de batom vermelho
A dançar ao espelho
Que sou menos velha
Do que eu
segunda-feira, 12 de março de 2012
A que soa a paixão?
__________________________________
A banda sonora de filmes raramente me motiva. Talvez porque não me soem as músicas escolhidas a nada que em mim se traduza. Pensando nisso, penso ainda que cada um terá a sua banda sonora (gosto da expressão trilha sonora, mais abrasileirada, mas que traduz a imagem de um caminho que se percorre).
Em forma experimental e para desafiar o meu intelecto tão ensopado em tosse e dores e corpo, venho aqui de vez em quando dizer a que soa o que sinto.
Começo pela questão que hoje procuro, por entre lenços de papel, e vontade de amolecer. Busco a paixão que sei estar algures sob a febre, sob a gripe e sob a vontade de dormir. Busco a temperatura do sangue quando ele corre mais do que para expulsar agentes patogénicos.
A que soa a paixão? Como resgata-la do fundo de mim com uma música apenas?
Para mim a paixão (não a amorosa, mas aquela que nos move todos os dias, e que nos faz desejar mais do que o que temos) soa a um poema do Ari dos Santos. Soa a cavalos livres e desenfreados, soa a gomos de sumo com travo amargo e doce. Soa a irreverência, a vontade de desafiar. A crença no que é certo. A superação. A utopia. A temperatura e explosão. A contradição e sim também a desorientação. A desassossego.
quinta-feira, 8 de março de 2012
In the mood
_______________________________________
Uma outra criança crescida.
King Krule, com 17 anos parece uma piada de tão inverosímel:
Um vozeirão a sair de uma cara sardenta
Um peso insustentável que sai da leveza da adolescência
Notas sombrias dentro de uma cabeça decorada de cabelo ruivo
Uma outra criança crescida.
King Krule, com 17 anos parece uma piada de tão inverosímel:
Um vozeirão a sair de uma cara sardenta
Um peso insustentável que sai da leveza da adolescência
Notas sombrias dentro de uma cabeça decorada de cabelo ruivo
terça-feira, 6 de março de 2012
Into the mood
____________________________________
Mallu Magalhães é uma miuda de 19 anos capaz de cantar assim. É ouvir o album Pitanga, para perceber melhor o que digo.
Tive curiosidade e espreitei um pouco mais do que ela pensa, escreve e canta e encontrei beleza, criatividade, pureza, utopia, maturidade, vontade de viver, curiosidade, inteligência, optimismo. Tudo coisas que perseguimos por vezes durante uma vida inteira e que ela esbanja do alto dos seus 19 aninhos.
Acho que ela tem um quê de Janis Joplin, um quê de melancolia dos antigos da MPB e a frescura de solarengos 19 anos. E isso dá às suas interpretações um carácter de "feel-good music" mas sem prescindir de profundidade, beleza e até pungência. Como se uma menina tivesse descoberto a fórmula para unir o melhor dos dois mundos: o sol e o fundo do ser.
Mallu Magalhães é uma miuda de 19 anos capaz de cantar assim. É ouvir o album Pitanga, para perceber melhor o que digo.
Tive curiosidade e espreitei um pouco mais do que ela pensa, escreve e canta e encontrei beleza, criatividade, pureza, utopia, maturidade, vontade de viver, curiosidade, inteligência, optimismo. Tudo coisas que perseguimos por vezes durante uma vida inteira e que ela esbanja do alto dos seus 19 aninhos.
Acho que ela tem um quê de Janis Joplin, um quê de melancolia dos antigos da MPB e a frescura de solarengos 19 anos. E isso dá às suas interpretações um carácter de "feel-good music" mas sem prescindir de profundidade, beleza e até pungência. Como se uma menina tivesse descoberto a fórmula para unir o melhor dos dois mundos: o sol e o fundo do ser.
domingo, 4 de março de 2012
Sobre as decisões
__________________________________
Ter consciência que a vida segue diversos caminhos em função das decisões tomadas, faz com que o medo tolha os movimentos.
Andei 12 anos (a idade da minha gata) a avaliar uma decisão que tomei. Nesses 12 anos inúmeras vezes pensei que decidi muito bem e inúmeras vezes pensei que deveria ter tomado outro caminho. E assim andei na cadência do humor a apreciar os momentos de motivação e de alegria e a enterrar a dúvida sempre premente. Desde o início sempre a mesma dúvida que residia sempre na mesma origem. Desde o início a minha consciência plena que essa dúvida era um caco de vidro do qual eu me desviava nos dias alegres e que me acabava por ferir sempre em alguns momentos.
Há dias expus o caco de vidro, quase orgulhosamente. Sabia que se o expusesse o ia pisar. A minha única forma de viver bem era desviar-me. Mas há alturas na vida que sabemos que temos que enfrentar os cacos e os cortes. E assim quase a desafiar o que eu sabia, quase a pensar num "surpreendam-me; provem-me que estou errada" pisei o caco de vidro e invitavelmente o desfecho foi sem surpresas.
E então a dor que eu evitava e tomava em pequenos goles, surgiu-me inteira e o medo deixou de me atar os membros: ali está um caco de vidro que nunca dali sairá, se quero caminhar por ali tenho que desviar o meu caminho.
E assim uma decisão que evitei 12 anos, surgiu-me como um bálsamo, uma benção, a única opção. E um alívio imenso me diz cá dentro que sejam como for os meus próximos 12 anos, eu tomei a decisão certa.
Conselhos a reter:
- As decisões certas deixam um alívio dentro de nós;
- Se algo dentro de ti apita um alarme, fica atenta e não finjas que não ouves;
- O medo que te tolhe os movimentos pode ser substituido pela excitação de um futuro diferente;
- A coisa mais bela da vida é poderes desviar-te do teu trajecto e corrigires a tua rota sempre que aches necessário
Subscrever:
Comentários (Atom)