A que soa o caminho
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Sempre achei um disparate, qualquer plano de viagem à Índia, que um qualquer amigo pseudo-filosófico/intelectual se propunha a encetar com a típica mochila às costas.
Mas sempre achei um disparate, por um cinismo que guardo dentro de mim para espantar coisas sobre as quais não quero pensar. O velho truque da cauda de vaca que espanta as moscas: assim é o meu cinismo para com as ideias que me encostam à parede.
Só que ultimamente, não sei se pelo inexorável poder da velhice que me está a acontecer, resolvi ser mais franca comigo mesma.
Afinal de contas, sempre detestei o amargor das pessoas cínicas, porque então não perceber que sou também eu uma cínica? (e quase orgulhosa disso)
Claro que não mudei de opinião sobre existir um certo lirismo gasto na opção de "se ir encontrar para a Índia". No alto do meu cinismo atirava sempre a mesma previsibilidade: porque não te vais encontrar ali para os lados da Afurada?
Não mudei de opinião sobre o facto de achar incoerente esse desejo de encontrar a metafísica e a espiritualidade em espaços confinados de puro material. Porquê ir à Igreja? Porquê acender a vela aos pés de um santo de barro? Porquê rezar a mexer nas missangas de um terço? Porquê rezar uma ladaínha decorada? Porquê ir à Índia. Porquê ir? Se esta viagem que os meus profundos amigos almejavam, era no fundo a viagem que se faz quando se está paradíssimo e só com os seus botões. Para quê a mochila....porque não apenas os botões e porque não no sofá mesmo?.
Enfim...mas hoje mais branda percebo melhor o simbolismo da Índia. E percebo até melhor o simbolismo que uma viagem real externa pode trazer ao interior. Pois que é uma espécie de travessia física para cansar o corpo e no fundo o anular. E assim a viagem, o caminho, o cansaço em tudo concorrem para apenas sobrar pensamento. Sempre percebi isso, mas fiz-me sempre de tonta. Porque sempre que iniciei essa viagem assustadora e solitária da confrontação comigo mesma, queria fugir para longe. Para o filme mais próximo, para o livro mais próximo, para a música mais próxima.
Talvez porque na verdade nunca tive grande dificuldade em partir para a Índia sem sair do lugar. Talvez por isso, pela facilidade com que o faço é que não quisesse fazê-lo e achasse risível aquele desejo dos outros. Pois não é nada fácil assumirmos o silêncio e depararmo-nos com o que somos a cru. Sem cenários, sem escapatórias e sem protecções.
Mas este foi um aparte para as minhas primeiras impressões deste livro maravilhoso.
Tenho tanto de cínica como deslumbrada e intensa de opiniões ("intensa de opiniões" em vez de "excessiva"- os eufemismos e todos os recursos linguisticos são a melhor invenção do mundo...panaceias para suavizar arestas) e por isso o que eu vou dizer vale o que vale: este é um dos melhores livros que eu já li.
Trata-se de uma viagem metafísica e metacárnica de Bloom à Índia. Uma epopeia com o mote dos Lusíadas, que levavam os ancestrais heróis a descobrir o caminho para lá chegar. Bloom encontra o mundo já descoberto, mas nem por isso a sua epopeia é menor. A epopeia de Bloom é a mesma que cada um de nós tem medo de iniciar e que vai adiando com as tarefas diárias, ou que vai desprezando com o cinismo confortável. O acto heróico de Bloom é o próprio caminho. Compreendo bem que a Índia para Bloom vale tanto como a Índia do meu cinismo. A Índia é apenas a personificação de um objectivo, do conhecimento, da reflexão.
Percebo bem que a Índia personifique todos os mistérios. Um país que desconheço e que imagino como a cheirar a especiarias e a lixo. Uma água que purifica e onde despojos da vida flutuam. Um país de intensas cores e extrema pobreza. A Índia e a viagem até ela é a viagem da busca do conhecimento interior e de todos os óbvios contrastes que se apresentam quando nos dispomos a ter tempo e espaço para reflectir. E a viagem de Bloom e do livro é uma leitura que nos faz pensar a cada frase. E que nos obriga a deixar de cinismos e a pegar na mochila.
(ainda vou no canto VIII...quando acabar vou voltar a ler o livro)
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