sábado, 28 de abril de 2012

Playing on my head's radio # (não sei que número já)




Em Dezembro de 2009 eu tinha reparado nesta música da Márcia, mas agora surge a mesma música com o JP Simões.
Gostaria que o JP Simões se tivesse cingido à melodia e não a quisesse modificar, pois acho que lhe tirou musicalidade. No entanto no refrão acho bonita a conjunção das duas vozes, uma cristalina e cheia de seiva e outra cheia de fumo e coisas dolorosas.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mar e Mar













Via-me eu Marítima
pelo Mar contido no nome
e por trazer dentro a vontade
feita vaga
Ondas
que crescem e se desfazem
na violenta espuma

Sabia-me eu a Mar
de aparência plúmbea e azul
de guarda-sombras
E se faltarem evidências do mar que era
mostro dele os monstros marinhos
que me moram em aparente planitude

Mas tu Marinha, mais Marítima do que eu
Tu abrigas mais mar
Desse todo mar que é fresco e cura
Dessa tanta água que é prata e reluz ao sol
E reflecte as noites e o luar
Tu sim és feita desse mar que se estende
E atinge horizontes ou suspende
velas de barcos embalados nas ondas
Tu sim tens água límpida que brame e dá guarida aos corais

Não sei de que tempestade vieste
Sempre ouvi dizer que a corrente violenta
Traz ao areal uma paz posterior
Sei apenas que surgiste tu, Marinha
De um Mar melhor que o meu
Para me render o cansaço
De não mais maré sozinha

Saudade é...



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Como se no mundo sobrassem coisas e nenhuma dessas coisas fosse mais do que a procura da única coisa que não está lá.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tabu


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E num fim-de-semana prodigioso de tanto alimento para uma alma que já andava ressequida de falta de suprimento, vi eu Tabu de Miguel Gomes.
E orgulhosamente no meu peito luso e nacionalista, mais hoje do que nunca habitante da minha pátria a língua portuguesa e moradora confessa dessa lusitânia existência, afirmo que gostei muito do filme.
Tabu não tem uma existência precisa. Passa-se hoje e ontem. Fala de África e da famosa ferida dos retornados e do corte entre esse paraíso e o paraíso perdido, mas na verdade a localização temporal é qualquer uma, pois que o preto e branco imutável o colocam num patamar de memória, de filme de sempre e de material intemporal.
Acho que talvez o Miguel Gomes (lá me ponho eu a achar o que quero e o que tenho direito sobre aquilo que libertaram no mundo e que deixaram ao alcance da minha sobreinterpretação) se põe a pensar ou a ruminar bovinamente como eu que engulo as coisas e depois as processo. E nesse exercício, suponho que ele se tenha detido a pensar no que sobrevive ao tempo?
Pois que também eu me detenho vezes sem conta a pensar naquilo que vivendo neste tempo sujeito às intempéries, à chuva, à doença, à idade, ao desgaste, à ferrugem, à oxidação, mesmo assim algo sobrevive a tudo isto. O que sobrevive ao tempo?
E uma das coisas que perdura no tempo, seja este qual for, é a própria noção do tempo de cada um e é o amor. É a juventude e são as promessas. É a idade e são as memórias. Tempo, memória, recordação, sobrevivem até à hora da nossa morte.
Tabu é sobre tudo isto. É sobre a solidão e a loucura que ela traz, como salvaguarda de decepções. É sobre o abandono e a sobrevivência. E é sobre como sobreviver ao paraíso que foi a idade que definimos como tendo sido "o nosso tempo". "O nosso tempo" é a idade em que a nossa vida atinge um cume do viver pleno. Talvez daí a imagem analógica da vivência no sopé do monte Tabu. Nunca as personagens estiveram tão perto de poder subir como no seu tempo. O "nosso tempo" é o tempo do amor maior e de tudo o que parecia ser a base do que prometeríamos ser. Suponho que em todas as línguas e em cada país alguém à mesa de amigos um dia recorde o que fez "no seu tempo". Como eram os seus amigos de então? O que fizeram de factos heróicos e ridículos e de como riam? A memória de um cristal de existência é um bem comum a todos. Todos, nas nossas línguas múltiplas de torre de Babel, temos identificação com Tabu. E por isso é um filme belo e único, porque é nitidamente português, mas toca sentimentos universais.

Para quem não viu o filme: Aurora, senhora idosa, desconfia de Santa, a sua empregada de sempre. Aurora atormentada procura a vizinha Pilar e mostra inquietude atribuindo a sua solidão e o abandono da sua filha à macumba da empregada. Pilar ocupada com a solidão da vizinha, de forma a não se ocupar com a sua própria solidão, acompanha-a e percebe nela um reflexo da sua própria sobrevivência. Aurora morre, mas antes dá indícios sobre uma vida misteriosa que já viveu. Pilar segue a pista de um homem e conhecemos então Jean Luca que foi a personagem principal do tempo de Aurora. Num tempo de África, num tempo jovem e de crocodilos, onde o amor ditava os actos, Aurora casada com outro enamora-se de Jean Luca. Após uma tentativa um pouco atabalhoada de concretizar o amor que era belo, talvez porque era imaterializável, Aurora e Luca viveram vidas dispares, mas nunca mais as mesmas. No final dessas vidas só essa recordação subsistiu como última memória. A memória do tempo de cada um, a que cada um sobrevive no dia-a-dia, mas que ninguém esquece.

No caminho do bem



A "Alma" do TNSJ tem para mim grande parte do mérito em algumas resoluções cénicas e/ou dramatúrgicas como a imagem esplêndida de uma alma ginasta que (per)corre o seu caminho.
Esplêndida a ideia de apresentar a alma em fato de treino, despojada de grandes adornos e quase pluma de tão magro corpo, que não faz sequer barulho num estrado. Este estrado também não inocentemente ali colocado a nos lembrar muita coisa, desde suportes de andores em procissão, a esteira fitness um pouco mais espartana ou a palco sobre o palco na alusão do teatro da vida dentro do teatro que está dentro das vidas que o assistem.
Fora uma certa antiguidade das peças morais e das alusões teológicas (que a mim me provocam sempre afastamento e confesso alguma repulsa) a que é difícil de escapar, tudo o resto é moderno e conseguido nesta peça com o mérito último de ser também uma peça aberta. Óptimo para ver e engolir sem mastigar. E depois de volta a casa, como as vacas ruminar aos poucos tudo o que se viu. Assim é para mim o bom sabor do teatro. Material para pensar por vários dias e a várias horas. E mesmo a várias fases da nossa vida. Desde o eterno debate do caminho, às viagens iniciáticas e à aprendizagem da jornada. Tudo nesta peça é material para paralelismos com a (minha) vida.

Voltando à peça. Uma alma corre leve e despojada. Até que aquela alma leve e lesta é tentada a usar pumps e vestir longos trajos rubros. A se enfeitar. A se demorar e contemplar. E todos os adornos a tornaram assim mais visível, menos pluma e mais corpo material. Porém, após um certo período de euforia a alma cai em si e todos aqueles acrescentos e brilhos acabam enfim por ser entraves à caminhada.
E é aí que novamente se transmuta o chão esteira, que de caminho a percorrer se torna obstáculo a saltos stilettos. E o chão vira também cruz e simbolismo na igreja onde a alma arrependida por meio do sacrifício retoma a condição de alma caminhante, novamente determinada e em passo de corrida.

Se a mesma alma é quem termina a correr, não sei. No fim pareceu-me ver-lhe sabrinas e não pés descalços, a lembrar que não mais a mesma ela seguia, não incólume ao que lhe sucedeu. Talvez fosse quase a mesma, mas com um acrescento, depois de uma aprendizagem. E talvez aquele acrescento fosse o indício de que, mesmo assim, corre sempre com ela a não garantia de que outros desvios lhe sucedam.

À parte de tentações e de figuras de diabo e anjo, esta peça faz-me pensar no que sempre penso, e que não afiguro como um caminho do bem ou de um desvio para o mal. Dêem-lhe os nomes que quiserem, mas em nós, religiosos ou não, há sempre esse percurso e essa dualidade de saber por onde vamos. Essa dialética existe em mim, não lhe chamando o bem ou o mal, chamo-lhe procurar alguma espécie de essência daquilo que sou na realidade, quando elimino tudo o que é acessório. E a dificuldade de sentir essa essência perante tanto ruído externo. E a dificuldade de perseguir essa essência perante tantos diversos caminhos e opções. A dificuldade de manter o espírito de jogging sabendo tão pouco onde está a meta...ou se uma meta existe. A dificuldade em insistir em correr quando parando em momentos se percebe haver pouca meta ou propósito.
Esta é a dificuldade de cada um. Ou dos que se dêem ao trabalho de ruminar depois de terem engolido.´

(e agora surgiu-me uma nova interpretação. Aquela correria em oposição ao comummente entendido estado estático meditativo. Será que aquela corrida é uma urgência, um eminente sentido a descobrir, ou não será que a corrida é o evitar parar para pensar? O diabo na peça apela a que a alma se detenha. O anjo fala em urgência e apela ao movimento. Todas as almas obreiras que se ocupam com o movimento correm (interessante este verbo aqui) menos riscos de se dedicarem a melancólicas conclusões que as façam pensar: correr para quê?)

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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Melodia Sentimental

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 Não conhecia Villa-Lobos até ir para São Paulo e no meio da conversa um tanto afectada de Hernan o perfumado, surgir a sua referência. Villa-Lobos, não obstante pousar na música erudita clássica, introduz exotismo na música. Como se misturasse Bach com o índio e a amazónia e ignorasse a imiscibilidade dessas misturas. Com ele aprendi parte de uma grande lição que venho a confirmar consecutivamente: a qualidade depende de conseguir misturar o que queremos fazer com aquilo que somos. São bem sucedidos todos os cineastas, músicos, escritores que põem no que fazem a honestidade das suas origens independentemente do estilo que procuram ou do tema que propõem.

Desvendando a Hidra

Há uns tempos, por pura diversão dediquei-me a pensar numa Hidra feita de um corpo e muitas cabeças.


Pode à partida não se perceber a lógica nesta selecção. Nem eu mesma racionalizei muito sobre o assunto. São homens dos quais conheço apenas a sua faceta pública e que, mesmo sabendo que incorro num razoável erro de desconhecimento pela ignorância das suas outras facetas, admiro por razões múltiplas: beleza, carisma, sensibilidade, um pormenor, distinção, génio.
De cima para baixo, da esquerda para a direita:

Johnny Depp = "Eduardo mãos de tesoura" e outros filmes do Tim Burton são a faceta de Johnny Depp que me fascina. Nessa parceria encontro extravagância; carisma; beleza e capacidade camaleónica.

Daniel Day-Lewis = The master of disguise. É capaz de ser o meu actor preferido. O rei dos camaleões que faz papeis muito diversos entre si e dele próprio: "Gangs de Nova Iorque", "Meu pé esquerdo", "There will be blood", "Em nome do pai". Estou sempre ansiosa para ver um filme dele.

Edward Norton= "Primal Fear", "Fight Club" e "American history", este último fundamentalmente, e uma cena de um olhar gélido são suficientes para o colocar numa cabeça da hidra. Não é bonito, nem alguém cujos traços sejam marcantes e no entanto transmuta-se quando representa e torna-se magnético.

Gael Garcia Bernal = Há cabeças para as quais não tenho grandes razões. Não é um talento inusitado, mas é mexicano (não se trata da minha atracção xenófoba por tudo que é não americano, mas sim pela graça do espanhol sul-americano...é uma delícia ouvi-lo) e esteve muito bem nos "amores perros". Esteve mal como Che Guevara, pela sua compleição física que nada tem a ver com a de Che. Esteve mal como padre Amaro na versão mexicana do nosso crime. Mas é muito bonito e tudo se lhe desculpa, bastando ficar a olhar para ele, para os olhos dele, para o sorriso dele. Enfim.

Jude Law = Mais uma cabeça estética. Nunca sei se ele representa bem. Ainda não teve oportunidade para fazer nenhum papel de destaque, ou simplesmente é ele que não se destaca. Mas talvez aconteça aos outros o que a mim me acontece. Esqueço-me de atentar no papel, bastando-me vê-lo e vê-lo e vê-lo.

John Malkovich = Este homem é um portento de carisma. O seu ar meio enfadado, lânguido ou irónico. A sua voz cansada do mundo que esconde mil intenções. Vi-o pela primeira vez no "ligações perigosas" a fazer de Vicomte de Valmont e senti-me aquelas meninas da época seduzidas por tão vil e deliciosa criatura. Há beleza que não é literal.

Neil Hannon = Apaixonei-me por ele quando o ouvi cantar "Cathy" para Rodrigo Leão. Que homem franzino e que grande ele se faz a cantar amor e poesia. Fui cavar fundo os Divine Comedy como faço sempre que alguém me suscita a curiosidade. E estava lá tudo o que já tinha visto: sensibilidade, inteligência; refinamento.

Manuel Cruz = Este homem não acaba. Para mim é a cores, pela sua capacidade de se reinventar. Todos os grupos que cria são bons. Tem ar de atormentado, enigmático e também de alucinado e sensível. A interpretação musical que ele faz em todas as músicas é muito mais do que a sua capacidade vocal. É como o Edward Norton, uma figurinha aparentemente plácida, mas que se transmuta e se torna magnética.

Chico Buarque = O meu Chico Buarque de todas as minhas horas e de toda a juventude, velhice e sempre. Ele é a cabeça da hidra. Nele todos os predicados. Nos livros, na música e no teatro é sempre sofisticado, sensível, inteligente e belo. Para mim, um génio.

Jeremy Irons = Outro portento de carisma e estilo. Um ar não totalmente declarado, com uma ponta de mistério e muita discrição. Faz sempre bons filmes. "Madame Butterfly" e os "Irmãos inseparáveis" são prova disso.

Joaquin Phoenix = É a hidra da distinção. Aquela cicatriz conjugada com uma cara de "not so good boy", faz pensar numa alminha atormentada e eu tenho uma mega tendência para elas como as borboletas para a luz. Além disso fez de Johnny Cash muito bem.

Leonard Cohen = Aquela postura de sentimento com a mão fechada e o chapéu negro no concerto a que assisti comoveu-me às lágrimas. Há tanto tempo que o ouço e admiro. Letras magníficas muito criticadas por uma irreverência e crueza de juventude, que a mim só me seduz.

Jorge Palma = Adoro-o. Na sua irreverência, na sua exposição pública. Por não se saber resguardar e pela melancolia que nele vive. Adoro-o mesmo quando bebeu demais e estendeu o concerto sem voz nem acerto. É muito poeta e muito sensível. E mesmo que perdido quando dizem que deveria ter idade para ter juízo, a loucura dele é a mais bela de todas as utopias: a de continuar sem saber muito bem viver.

Yann Tiersen= Talento. Chama a beleza pura para a música. Sempre que penso nele penso em imagens bonitinhas como penas a oscilarem no ar e gotas de chuva na contra-luz ou em flocos de neve ao microscópio. Invoca o meu lado sinestésico e sonhador.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Da Incapacidade para a in capacidade

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Depara-se mais uma vez com os prefixos In e Des que insistem em colar-se às palavras.
Há uma série de coisas práticas que é preciso fazer e olha a lista de afazeres como a uma montanha inóspita que evita escalar.

Porquê este retrocesso, questiona-se?

Porque sabe que no mundo há sempre muitas maneiras de ver as coisas.
Porque sabe que este frio se acalma com o calor da cama, com o conforto de um chá.
Aprendeu as técnicas de um réptil para escapar a qualquer perigo. Aprendeu a amar coisas pequenas e a construir o riso dente a dente.

Porquê este retrocesso?
Porquê esta recaída no lugar da incapacidade, da insónia, da desmotivação, do desalento?
In e des são só prefixos que entende como meras letras apensas a palavras. E no entanto por estes prefixos escorrega de volta à cordilheira montanhosa das simples tarefas. Escalar a vontade como a uma montanha. Fazer do in uma inserção e desfazer o des à chapada.

Conseguirás. Tens na memória de réptil, a altura em que te livraste da pele como de uma carcaça. E em que te renovaste e surgiste daquilo que parecia mirrar. Agarra esse pensamento e respira fundo tu que já sabes o que isto é. Fortalece os músculos e o brio e destranca as portas, os travões e a dor. Destrava essa dor, para que respire e não se alimente qual organismo anaeróbio.
Conseguirás. Clica em play e no final da música espera-te o reinício.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Parabéns Francisquinha

A minha Francisquinha ganhou um concurso de poesia interescolas com este poema:


Música

Música minha paixão,
Ouço-a nos ouvidos
E sinto-a no coração.

Música minha adorada,
Não vivo sem ti
Porque estou apaixonada.

Música minha grandeza,
Contigo sinto-me viva
E também em tristeza.

Música grande invenção,
Se não existisses
O que seria do meu coração?

Francisca (10 anos e muita sensibilidade)

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Flautista de Hamelin

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Ainda retomando o tema das bandas sonoras, não percebo como é que esta música nunca foi escolhida para acompanhar as imagens de alguém.
Tem uma combinação de improbabilidades que a tornam misteriosa e bela. Por um lado o tom antiquado da voz em contraponto ao canto que parece ser angelical e sedutor. Por outro lado o tom delicodoce leva-nos a embalar numa sensação de que seguimos Hamelin e a sua flauta em direcção à pureza.
Mas enquanto inebriados seguimos a voz de seda, esta profere palavras ao amante e aos saturnais destroços de um amor. O desejo que a voz doce pronuncia, é afinal louco; o canto límpido e hipnótico é rouco e de paixão dilacerante.
E a música corre num crescendo até se perceber que o excesso leva à combustão. E o flautista que habilmente nos conduziu mostra-nos enfim o abismo que esteve sempre à espera da carne exausta. No fim os despojos das sangrentas bodas: apenas os ossos e os destroços do amor que duplamente é fatal (de morte e de destino impossível de evitar). Fantástica ainda a subtileza com que no final se aceita esta resignação da fatalidade e a voz enfim abandona o tom angélico e acaba grave.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu não sou eu nem sou o outro


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Gosto especialmente de livros que mostram viagens erráticas, onde a personagem é alguém com alguma indolência. Porque, a bem da verdade dá preguiça viver todos os dias. E conhecer pessoas. E desconhecer pessoas. E saber onde ir. E levantar e tomar decisões como quem toma um duche ou muda de roupa. Talvez fosse mais fácil viver se o pudéssemos fazer de vez em quando. De uma forma intermitente. E se nos intervalos pudessemos sair por aí assumindo que verdadeiramente não sabemos muito bem se alguma destas coisas nos interessa, ou se apenas o fazemos por hábito e algum comodismo.

Penso mesmo que, não fosse por uma série de imposições sociais, a maior parte de nós viajaria erraticamente. Mas de uma forma mais ou menos titubeante (o pretexto também existe para usar belas palavras) nos mantemos, todos aqueles que se equilibram em cima da linha, como um artista de circo bêbado. E assim vamos seguindo com a queda eminente a apelar aos ouvidos doces tentações.

Muitos de nós não resvalamos na indolência, pela própria indolência de tomarmos essa decisão. Por vezes também tomamos à letra as castrações sociais e a voz materna das palavras que nos repreendem baixinho. Assim a palavra "Errante" repreende quem a usa, pois induz afinidades com o erro. No dicionário, "errático" é associado a "aquele que se desvia das normas", mas também a "vagabundo", "desorganizado", "imprevisível".

Há três livros que li, e de que gosto muito, em que o percurso errante é a personagem principal. O "Estorvo", de Chico Buarque, é muito consciente em assumir esse lado deambulatório. O CB vai até mais longe e traça uma série de associações sobre os sinónimos da palavra estorvo, numa linha horizontal que acaba por se fechar em círculo na palavra estorvo. Neste livro caminhamos de uma forma errática entre o sonho e a vigília com um personagem que se sente perseguido e toma a perseguição como desculpa para a própria fuga. Ele foge ao acaso de tudo que estorva o seu caminho. Das festas sociais, da cidade, das vozes dos outros, da pobreza, do crime, de si mesmo e do olho mágico. E o olho mágico tem mesmo essa função de iniciar uma jornada dupla: a do homem que olha para fora da porta e a do homem que é visto atrás da porta. E assim tudo se duplica em reflexos de espelho. O homem a quem os outros estorvam é um estorvo para eles. O homem que foge de tudo, corre atrás de alguma coisa. O homem sonha a vigília e vive como num sonho.

O "Nocturno Indiano" de António Tabucchi assemelha-se muito a este estorvo. No livro, a pretexto de encontrar um amigo antigo, um homem erra pela Índia, num percurso nocturno por hotéis e zonas pouco turísticas. Na errância do percurso percebe-se que a procura é também dupla, e um vidente deixa essa premonição ao homem e ao leitor: ele não é ele, mas o outro.
Uma procura de um amigo que exista ou não (pouco importa) é no fundo a viagem paralela de um homem que se procura a si mesmo. Mas ainda assim, de forma indolente. Menos corajosa e assumida que a de estorvo, a viagem que este homem usa com propósitos socialmente aceites (ir a Goa procurar num acervo literário informação para algo de cariz vago e histórico que irá escrever) resvala num percurso errático com o pretexto da busca do outro que se pressente ser ele próprio, afinal.
Este livro é ainda e também (tal como o estorvo) um pretexto maior para deixar escorrer a escrita, ao sabor da pena. E são estes livros que me sabem melhor, pois o principal enredo é a palavra. A palavra a par com a solidão que existe em todos nós e que nos empurra para dentro e para longe do que fora nos rodeia.

Por fim, falei em três e falta o terceiro. É ele o "Barão trepador" de Italo Calvino: um livro terno, melancólico, poético e maravilhoso.
Cosimo o filho de um barão, decide viver para sempre em cima das árvores. É também esta a história de um personagem errante que decide isolar-se do mundo vivendo acima dele. É um livro que nunca esqueço, mesmo com a minha falta incrível de memória, e que de uma forma pungente traduz a solidão daqueles que assumem que estão à margem e que se auto-expulsam quando a dor de não pertencer se torna mais viva que a capacidade de tentar ser aquilo que esperam de nós.