quarta-feira, 25 de abril de 2012
Tabu
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E num fim-de-semana prodigioso de tanto alimento para uma alma que já andava ressequida de falta de suprimento, vi eu Tabu de Miguel Gomes.
E orgulhosamente no meu peito luso e nacionalista, mais hoje do que nunca habitante da minha pátria a língua portuguesa e moradora confessa dessa lusitânia existência, afirmo que gostei muito do filme.
Tabu não tem uma existência precisa. Passa-se hoje e ontem. Fala de África e da famosa ferida dos retornados e do corte entre esse paraíso e o paraíso perdido, mas na verdade a localização temporal é qualquer uma, pois que o preto e branco imutável o colocam num patamar de memória, de filme de sempre e de material intemporal.
Acho que talvez o Miguel Gomes (lá me ponho eu a achar o que quero e o que tenho direito sobre aquilo que libertaram no mundo e que deixaram ao alcance da minha sobreinterpretação) se põe a pensar ou a ruminar bovinamente como eu que engulo as coisas e depois as processo. E nesse exercício, suponho que ele se tenha detido a pensar no que sobrevive ao tempo?
Pois que também eu me detenho vezes sem conta a pensar naquilo que vivendo neste tempo sujeito às intempéries, à chuva, à doença, à idade, ao desgaste, à ferrugem, à oxidação, mesmo assim algo sobrevive a tudo isto. O que sobrevive ao tempo?
E uma das coisas que perdura no tempo, seja este qual for, é a própria noção do tempo de cada um e é o amor. É a juventude e são as promessas. É a idade e são as memórias. Tempo, memória, recordação, sobrevivem até à hora da nossa morte.
Tabu é sobre tudo isto. É sobre a solidão e a loucura que ela traz, como salvaguarda de decepções. É sobre o abandono e a sobrevivência. E é sobre como sobreviver ao paraíso que foi a idade que definimos como tendo sido "o nosso tempo". "O nosso tempo" é a idade em que a nossa vida atinge um cume do viver pleno. Talvez daí a imagem analógica da vivência no sopé do monte Tabu. Nunca as personagens estiveram tão perto de poder subir como no seu tempo. O "nosso tempo" é o tempo do amor maior e de tudo o que parecia ser a base do que prometeríamos ser. Suponho que em todas as línguas e em cada país alguém à mesa de amigos um dia recorde o que fez "no seu tempo". Como eram os seus amigos de então? O que fizeram de factos heróicos e ridículos e de como riam? A memória de um cristal de existência é um bem comum a todos. Todos, nas nossas línguas múltiplas de torre de Babel, temos identificação com Tabu. E por isso é um filme belo e único, porque é nitidamente português, mas toca sentimentos universais.
Para quem não viu o filme: Aurora, senhora idosa, desconfia de Santa, a sua empregada de sempre. Aurora atormentada procura a vizinha Pilar e mostra inquietude atribuindo a sua solidão e o abandono da sua filha à macumba da empregada. Pilar ocupada com a solidão da vizinha, de forma a não se ocupar com a sua própria solidão, acompanha-a e percebe nela um reflexo da sua própria sobrevivência. Aurora morre, mas antes dá indícios sobre uma vida misteriosa que já viveu. Pilar segue a pista de um homem e conhecemos então Jean Luca que foi a personagem principal do tempo de Aurora. Num tempo de África, num tempo jovem e de crocodilos, onde o amor ditava os actos, Aurora casada com outro enamora-se de Jean Luca. Após uma tentativa um pouco atabalhoada de concretizar o amor que era belo, talvez porque era imaterializável, Aurora e Luca viveram vidas dispares, mas nunca mais as mesmas. No final dessas vidas só essa recordação subsistiu como última memória. A memória do tempo de cada um, a que cada um sobrevive no dia-a-dia, mas que ninguém esquece.
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