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Gosto especialmente de livros que mostram viagens erráticas, onde a personagem é alguém com alguma indolência. Porque, a bem da verdade dá preguiça viver todos os dias. E conhecer pessoas. E desconhecer pessoas. E saber onde ir. E levantar e tomar decisões como quem toma um duche ou muda de roupa. Talvez fosse mais fácil viver se o pudéssemos fazer de vez em quando. De uma forma intermitente. E se nos intervalos pudessemos sair por aí assumindo que verdadeiramente não sabemos muito bem se alguma destas coisas nos interessa, ou se apenas o fazemos por hábito e algum comodismo.
Penso mesmo que, não fosse por uma série de imposições sociais, a maior parte de nós viajaria erraticamente. Mas de uma forma mais ou menos titubeante (o pretexto também existe para usar belas palavras) nos mantemos, todos aqueles que se equilibram em cima da linha, como um artista de circo bêbado. E assim vamos seguindo com a queda eminente a apelar aos ouvidos doces tentações.
Muitos de nós não resvalamos na indolência, pela própria indolência de tomarmos essa decisão. Por vezes também tomamos à letra as castrações sociais e a voz materna das palavras que nos repreendem baixinho. Assim a palavra "Errante" repreende quem a usa, pois induz afinidades com o erro. No dicionário, "errático" é associado a "aquele que se desvia das normas", mas também a "vagabundo", "desorganizado", "imprevisível".
Há três livros que li, e de que gosto muito, em que o percurso errante é a personagem principal. O "Estorvo", de Chico Buarque, é muito consciente em assumir esse lado deambulatório. O CB vai até mais longe e traça uma série de associações sobre os sinónimos da palavra estorvo, numa linha horizontal que acaba por se fechar em círculo na palavra estorvo. Neste livro caminhamos de uma forma errática entre o sonho e a vigília com um personagem que se sente perseguido e toma a perseguição como desculpa para a própria fuga. Ele foge ao acaso de tudo que estorva o seu caminho. Das festas sociais, da cidade, das vozes dos outros, da pobreza, do crime, de si mesmo e do olho mágico. E o olho mágico tem mesmo essa função de iniciar uma jornada dupla: a do homem que olha para fora da porta e a do homem que é visto atrás da porta. E assim tudo se duplica em reflexos de espelho. O homem a quem os outros estorvam é um estorvo para eles. O homem que foge de tudo, corre atrás de alguma coisa. O homem sonha a vigília e vive como num sonho.
O "Nocturno Indiano" de António Tabucchi assemelha-se muito a este estorvo. No livro, a pretexto de encontrar um amigo antigo, um homem erra pela Índia, num percurso nocturno por hotéis e zonas pouco turísticas. Na errância do percurso percebe-se que a procura é também dupla, e um vidente deixa essa premonição ao homem e ao leitor: ele não é ele, mas o outro.
Uma procura de um amigo que exista ou não (pouco importa) é no fundo a viagem paralela de um homem que se procura a si mesmo. Mas ainda assim, de forma indolente. Menos corajosa e assumida que a de estorvo, a viagem que este homem usa com propósitos socialmente aceites (ir a Goa procurar num acervo literário informação para algo de cariz vago e histórico que irá escrever) resvala num percurso errático com o pretexto da busca do outro que se pressente ser ele próprio, afinal.
Este livro é ainda e também (tal como o estorvo) um pretexto maior para deixar escorrer a escrita, ao sabor da pena. E são estes livros que me sabem melhor, pois o principal enredo é a palavra. A palavra a par com a solidão que existe em todos nós e que nos empurra para dentro e para longe do que fora nos rodeia.
Por fim, falei em três e falta o terceiro. É ele o "Barão trepador" de Italo Calvino: um livro terno, melancólico, poético e maravilhoso.
Cosimo o filho de um barão, decide viver para sempre em cima das árvores. É também esta a história de um personagem errante que decide isolar-se do mundo vivendo acima dele. É um livro que nunca esqueço, mesmo com a minha falta incrível de memória, e que de uma forma pungente traduz a solidão daqueles que assumem que estão à margem e que se auto-expulsam quando a dor de não pertencer se torna mais viva que a capacidade de tentar ser aquilo que esperam de nós.
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