quarta-feira, 25 de abril de 2012

No caminho do bem



A "Alma" do TNSJ tem para mim grande parte do mérito em algumas resoluções cénicas e/ou dramatúrgicas como a imagem esplêndida de uma alma ginasta que (per)corre o seu caminho.
Esplêndida a ideia de apresentar a alma em fato de treino, despojada de grandes adornos e quase pluma de tão magro corpo, que não faz sequer barulho num estrado. Este estrado também não inocentemente ali colocado a nos lembrar muita coisa, desde suportes de andores em procissão, a esteira fitness um pouco mais espartana ou a palco sobre o palco na alusão do teatro da vida dentro do teatro que está dentro das vidas que o assistem.
Fora uma certa antiguidade das peças morais e das alusões teológicas (que a mim me provocam sempre afastamento e confesso alguma repulsa) a que é difícil de escapar, tudo o resto é moderno e conseguido nesta peça com o mérito último de ser também uma peça aberta. Óptimo para ver e engolir sem mastigar. E depois de volta a casa, como as vacas ruminar aos poucos tudo o que se viu. Assim é para mim o bom sabor do teatro. Material para pensar por vários dias e a várias horas. E mesmo a várias fases da nossa vida. Desde o eterno debate do caminho, às viagens iniciáticas e à aprendizagem da jornada. Tudo nesta peça é material para paralelismos com a (minha) vida.

Voltando à peça. Uma alma corre leve e despojada. Até que aquela alma leve e lesta é tentada a usar pumps e vestir longos trajos rubros. A se enfeitar. A se demorar e contemplar. E todos os adornos a tornaram assim mais visível, menos pluma e mais corpo material. Porém, após um certo período de euforia a alma cai em si e todos aqueles acrescentos e brilhos acabam enfim por ser entraves à caminhada.
E é aí que novamente se transmuta o chão esteira, que de caminho a percorrer se torna obstáculo a saltos stilettos. E o chão vira também cruz e simbolismo na igreja onde a alma arrependida por meio do sacrifício retoma a condição de alma caminhante, novamente determinada e em passo de corrida.

Se a mesma alma é quem termina a correr, não sei. No fim pareceu-me ver-lhe sabrinas e não pés descalços, a lembrar que não mais a mesma ela seguia, não incólume ao que lhe sucedeu. Talvez fosse quase a mesma, mas com um acrescento, depois de uma aprendizagem. E talvez aquele acrescento fosse o indício de que, mesmo assim, corre sempre com ela a não garantia de que outros desvios lhe sucedam.

À parte de tentações e de figuras de diabo e anjo, esta peça faz-me pensar no que sempre penso, e que não afiguro como um caminho do bem ou de um desvio para o mal. Dêem-lhe os nomes que quiserem, mas em nós, religiosos ou não, há sempre esse percurso e essa dualidade de saber por onde vamos. Essa dialética existe em mim, não lhe chamando o bem ou o mal, chamo-lhe procurar alguma espécie de essência daquilo que sou na realidade, quando elimino tudo o que é acessório. E a dificuldade de sentir essa essência perante tanto ruído externo. E a dificuldade de perseguir essa essência perante tantos diversos caminhos e opções. A dificuldade de manter o espírito de jogging sabendo tão pouco onde está a meta...ou se uma meta existe. A dificuldade em insistir em correr quando parando em momentos se percebe haver pouca meta ou propósito.
Esta é a dificuldade de cada um. Ou dos que se dêem ao trabalho de ruminar depois de terem engolido.´

(e agora surgiu-me uma nova interpretação. Aquela correria em oposição ao comummente entendido estado estático meditativo. Será que aquela corrida é uma urgência, um eminente sentido a descobrir, ou não será que a corrida é o evitar parar para pensar? O diabo na peça apela a que a alma se detenha. O anjo fala em urgência e apela ao movimento. Todas as almas obreiras que se ocupam com o movimento correm (interessante este verbo aqui) menos riscos de se dedicarem a melancólicas conclusões que as façam pensar: correr para quê?)

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