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Ainda retomando o tema das bandas sonoras, não percebo como é que esta música nunca foi escolhida para acompanhar as imagens de alguém.
Tem uma combinação de improbabilidades que a tornam misteriosa e bela. Por um lado o tom antiquado da voz em contraponto ao canto que parece ser angelical e sedutor. Por outro lado o tom delicodoce leva-nos a embalar numa sensação de que seguimos Hamelin e a sua flauta em direcção à pureza.
Mas enquanto inebriados seguimos a voz de seda, esta profere palavras ao amante e aos saturnais destroços de um amor. O desejo que a voz doce pronuncia, é afinal louco; o canto límpido e hipnótico é rouco e de paixão dilacerante.
E a música corre num crescendo até se perceber que o excesso leva à combustão. E o flautista que habilmente nos conduziu mostra-nos enfim o abismo que esteve sempre à espera da carne exausta. No fim os despojos das sangrentas bodas: apenas os ossos e os destroços do amor que duplamente é fatal (de morte e de destino impossível de evitar). Fantástica ainda a subtileza com que no final se aceita esta resignação da fatalidade e a voz enfim abandona o tom angélico e acaba grave.
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