Há uns tempos, por pura diversão dediquei-me a pensar numa Hidra feita de um corpo e muitas cabeças.
Pode à partida não se perceber a lógica nesta selecção. Nem eu mesma racionalizei muito sobre o assunto. São homens dos quais conheço apenas a sua faceta pública e que, mesmo sabendo que incorro num razoável erro de desconhecimento pela ignorância das suas outras facetas, admiro por razões múltiplas: beleza, carisma, sensibilidade, um pormenor, distinção, génio.
De cima para baixo, da esquerda para a direita:
Johnny Depp = "Eduardo mãos de tesoura" e outros filmes do Tim Burton são a faceta de Johnny Depp que me fascina. Nessa parceria encontro extravagância; carisma; beleza e capacidade camaleónica.
Daniel Day-Lewis = The master of disguise. É capaz de ser o meu actor preferido. O rei dos camaleões que faz papeis muito diversos entre si e dele próprio: "Gangs de Nova Iorque", "Meu pé esquerdo", "There will be blood", "Em nome do pai". Estou sempre ansiosa para ver um filme dele.
Edward Norton= "Primal Fear", "Fight Club" e "American history", este último fundamentalmente, e uma cena de um olhar gélido são suficientes para o colocar numa cabeça da hidra. Não é bonito, nem alguém cujos traços sejam marcantes e no entanto transmuta-se quando representa e torna-se magnético.
Gael Garcia Bernal = Há cabeças para as quais não tenho grandes razões. Não é um talento inusitado, mas é mexicano (não se trata da minha atracção xenófoba por tudo que é não americano, mas sim pela graça do espanhol sul-americano...é uma delícia ouvi-lo) e esteve muito bem nos "amores perros". Esteve mal como Che Guevara, pela sua compleição física que nada tem a ver com a de Che. Esteve mal como padre Amaro na versão mexicana do nosso crime. Mas é muito bonito e tudo se lhe desculpa, bastando ficar a olhar para ele, para os olhos dele, para o sorriso dele. Enfim.
Jude Law = Mais uma cabeça estética. Nunca sei se ele representa bem. Ainda não teve oportunidade para fazer nenhum papel de destaque, ou simplesmente é ele que não se destaca. Mas talvez aconteça aos outros o que a mim me acontece. Esqueço-me de atentar no papel, bastando-me vê-lo e vê-lo e vê-lo.
John Malkovich = Este homem é um portento de carisma. O seu ar meio enfadado, lânguido ou irónico. A sua voz cansada do mundo que esconde mil intenções. Vi-o pela primeira vez no "ligações perigosas" a fazer de Vicomte de Valmont e senti-me aquelas meninas da época seduzidas por tão vil e deliciosa criatura. Há beleza que não é literal.
Neil Hannon = Apaixonei-me por ele quando o ouvi cantar "Cathy" para Rodrigo Leão. Que homem franzino e que grande ele se faz a cantar amor e poesia. Fui cavar fundo os Divine Comedy como faço sempre que alguém me suscita a curiosidade. E estava lá tudo o que já tinha visto: sensibilidade, inteligência; refinamento.
Manuel Cruz = Este homem não acaba. Para mim é a cores, pela sua capacidade de se reinventar. Todos os grupos que cria são bons. Tem ar de atormentado, enigmático e também de alucinado e sensível. A interpretação musical que ele faz em todas as músicas é muito mais do que a sua capacidade vocal. É como o Edward Norton, uma figurinha aparentemente plácida, mas que se transmuta e se torna magnética.
Chico Buarque = O meu Chico Buarque de todas as minhas horas e de toda a juventude, velhice e sempre. Ele é a cabeça da hidra. Nele todos os predicados. Nos livros, na música e no teatro é sempre sofisticado, sensível, inteligente e belo. Para mim, um génio.
Jeremy Irons = Outro portento de carisma e estilo. Um ar não totalmente declarado, com uma ponta de mistério e muita discrição. Faz sempre bons filmes. "Madame Butterfly" e os "Irmãos inseparáveis" são prova disso.
Joaquin Phoenix = É a hidra da distinção. Aquela cicatriz conjugada com uma cara de "not so good boy", faz pensar numa alminha atormentada e eu tenho uma mega tendência para elas como as borboletas para a luz. Além disso fez de Johnny Cash muito bem.
Leonard Cohen = Aquela postura de sentimento com a mão fechada e o chapéu negro no concerto a que assisti comoveu-me às lágrimas. Há tanto tempo que o ouço e admiro. Letras magníficas muito criticadas por uma irreverência e crueza de juventude, que a mim só me seduz.
Jorge Palma = Adoro-o. Na sua irreverência, na sua exposição pública. Por não se saber resguardar e pela melancolia que nele vive. Adoro-o mesmo quando bebeu demais e estendeu o concerto sem voz nem acerto. É muito poeta e muito sensível. E mesmo que perdido quando dizem que deveria ter idade para ter juízo, a loucura dele é a mais bela de todas as utopias: a de continuar sem saber muito bem viver.
Yann Tiersen= Talento. Chama a beleza pura para a música. Sempre que penso nele penso em imagens bonitinhas como penas a oscilarem no ar e gotas de chuva na contra-luz ou em flocos de neve ao microscópio. Invoca o meu lado sinestésico e sonhador.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
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3 comentários:
olá
Pedro,
És tu roxo e com uma gata preta, não és?
Lembro-me de ti muitas vezes, com saudades. A tua cabeça figura na minha hidra das pessoas que me fazem falta.
Já não tenho gata preta, que a minha Carlota morreu há uns meses. Aproveita o ronrom da tua.
Um beijo
M
Também eu me lembro de ti e tenho saudades. Foste das poucas pessoas que me marcaram de forma especial. um beijo.
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