sexta-feira, 11 de maio de 2012

Epicurismo ou adaptação


Da minha estadia em São Paulo trouxe muitos livros que a Io me ofereceu na mesma generosidade com que me presenteava com os frutos exóticos. Todos os dias de manhã antes do trabalho no laboratório, um sabor diferente: mamão, fruta do conde, pitanga, goiaba, mangostin, acerola, caju, jabuticaba, carambola.
Os livros surgiram numa correria que ela fez no último dia, com um aviso de "não vá sem eu voltar". E sei que essa oferta de último instante se deveu ao dia anterior. No dia anterior, tinha sido a festa da minha despedida e eles, Io e Hernan, só me ficaram a conhecer melhor nesse dia, nessa noite. O Flávio e o Guilherme já sabiam há muito, muito mais sobre mim em 2 meses do que todos os amigos que eu tinha em Portugal. É estranho essa vulnerabilidade exposta que assumimos com pessoas que desconhecemos. Mas os brasileiros também têm essa característica boa e má de forçarem algumas barreiras.
Pois no fim de semana anterior à minha festa de despedida eu tinha ficado sozinha em casa e resolvi sair pelos meus sítios favoritos em São Paulo. Fui ao MASP, ao trianon, à praça benedito calixto ouvir chorinho no sábado e deambulei também pelas feirinhas da praça da república e da liberdade em busca dos presentes para trazer. E como tive tempo, resolvi entrar numa virgin megastore e comprar música portuguesa para oferecer. Só havia Madredeus (e é muito bom, mas gostaria de dar outras coisas) e gastei o que eles dizem, uma nota preta, pois comprei todos os cds. Depois em casa, instalada na rede da varanda resolvi fazer uma brincadeira. Jogaria ao amigo imaginário na entrega dos cds de presente. E fiz um poema para cada pessoa, que contivesse as características de cada um, mas sem dizer o nome. No final de ler o poema a pessoa deveria adivinhar para quem era aquele Madredeus. E assim, me vi pela primeira vez numa situação de quase protagonismo, a ler poemas e a fazer as pessoas rir e chorar numa despedida alegre e muito emotiva. No final da festa de despedida, Hernan, o perfumado, abraçou-me com força e disse-me uma coisa que me deixou triste e alegre: menina, você podia ter avisado que era assim tão inteligente. Fiquei com a sensação que ele me deveria achar uma tontinha, e de facto ele tem um ar tão confiante que sempre que tinha que falar com ele, eu só dizia disparates, pois intimidava-me muito (ainda me lembro da minha vergonhosa apresentação do meu trabalho e de como a minha incapacidade de argumentação perante as questões dele me fizeram evoluir).
Enfim, o que é certo é que a Io, no dia seguinte pensou que eu afinal não gostava apenas de fruta e me trouxe um saco de livros dizendo que eu precisava ler cada um deles para dar continuidade ao meu gosto pelo Brasil e pela cultura. No saco estavam preciosidades: Guimarães Rosa (o grande sertão veredas); João Cabral de Melo e Neto (Morte e vida de Severina do qual eu conhecia a versão musicada); Machado de Assis (Dom Casmurro); Guarani (José de Alencar...esse eu já tinha lido).
Vim cheia de música também. A Japinha que partilhava o quarto comigo encheu-me de Barão Vermelho e Cazuza. O Flávio gravou-me todos os Legião Urbana, Pixinguinha e Hermeto Pascoal. O Guilherme deu-me uakti, para além de inúmeras sugestões futuras e uma amizade que persiste.

Mas tudo isto para dizer que uma frase do próprio Guimarães Rosa poderia dar título à minha estadia em São Paulo: Felicidade se acha só em horinhas de descuido.

Aquele foi um tempo em que não dei conta que era feliz. Aconteceu. Por muitos motivos, entre os quais a sensação de passagem. A liberdade do desconhecimento. O tempo para viver. E também pelo facto de aquelas pessoas se terem disposto a quererem saber quem eu era. Nunca antes ninguém o tinha feito com tanta veemência.

De volta à vida comum, menos descuidada, na maioria dos dias é bem verdade que sigo um trajecto não direi hedonista que seria exagerado, mas epicurista e de adaptação. Procuro mais do que ser feliz, fugir da dor.
Até nos livros que consumo faço um rastreio minucioso dos seus efeitos. Por exemplo ultimamente, li uma viagem para a Índia que pretendia reler, mas percebi que não posso, para já. Segui então para o nocturno indiano de Tabuchi e restabeleci-me um pouco. Prossegui caminho para o Mario Vargas Llosa (Tia Júlia e o escrevedor) que acabei e me deixou de bom humor e com coragem para incursar no viagens (uma compilação lindíssima de poemas de Fernando Pessoa e heterónimos), e ainda a meio tive que desertar para reler o fim do fim do mundo do Sepúlveda que me caiu da estante como que a dizer, agora sou eu.

E assim a minha tendência epicurista para dar prevalência à intenção e a outras tantas características mais sonhadoras que concretizadoras, é também uma adaptação. Para que possa ter horas de descuido.

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