quarta-feira, 23 de maio de 2012

O romancista ingénuo e o sentimental de Orhan Pamuk



Quando tento perceber em mim alguma vontade que nunca me abandona, essa vontade sobrevivente é a leitura.
 Acabei de ler este livro de Orhan Pamuk que é uma publicação das palestras que o escritor turco deu em Harvard (porque é que temos a mania de dizer a nacionalidade do escritor? como para pôr os pontos nos "i"...escritor "turco" e tomem lá mais uma catalogação: "prémio Nobel").

Em relação ao livro, tudo se resumiria a dizer, que segundo o Ohran, o romancista deve alternar entre a ingenuidade da escrita (aquela que surge da espontaneidade e do prazer um pouco inconsciente) e o lado sentimental reflexivo, aquele que envolve pensar na construção do que se escreve. Ohran fala também na importância do centro do romance, que seria qualquer coisa como o que está subjacente, qual o cerne,  qual o coração do romance? A este respeito fala da alegria de ser leitor de um romance bem urdido, como aquele romance que revela o seu centro, mas que não é explícito, obrigando a que o leitor persiga esse centro e o compreenda de forma intermitente. Sendo que esta alegria de elucidação, intermitente e conquistada, é o que faz com que o leitor sinta que aquele romance o destaca como "o leitor" bem sucedido: aquele que consegue decifrar o centro de um romance não totalmente explícito. É também esta sensação de exclusividade que conferem uma voz confessional ao romance, dando ao leitor a sensação de que algo lhe está a ser confiado e só a ele.
Ohran que se assume como escritor visual e que queria ser pintor antes de ser escritor explica também como acredita na forma de construir um romance como uma pintura, em que árvore a árvore o leitor vá descobrindo a floresta. Em relação a este tópico Orhan diz algo interessante. Por vezes as descrições num romance não fazem parte da paisagem de uma forma meramente descritiva, mas fazem parte do "ambiente" do romance, inclusivamente são extensões das personagens, pois são o ambiente que nos é dado a ver, muitas vezes pelas próprias personagens ou em complemento a elas. Exemplifica com uma passagem do "Anna Karenina" de Tolstoi em que a vista da janela do comboio numa viagem entre S. Petesburgo e Moscovo, nos é dada a ver por Anna. E a neve que cai na paisagem exterior da janela do comboio, verosímil no inverno russo, também é totalmente concordante com o inverno do interior de Anna, que se debatia com a tristeza de se ter sentido feliz a dançar com um homem sendo casada com outro. Achei curiosa essa reflexão, bem como a reflexão sobre a classificação de Tolstoi como um romancista visual e Dostoievski como romancista verbal. Realmente este último é muito mais espartano em descrições e muito mais rico na caracterização psíquica. Todas estas reflexões são  interessantes, como é interessante a analogia entre o romance e as pinturas japonesas. Estas eram consideradas belas, pois mostravam imagens muito abrangentes e quase etéreas, como se o pintor estivesse a pintar a paisagem vista do topo de uma montanha ou se pairasse sobre o que via. No entanto o pintor japonês apenas pinta como se estivesse a voar sobre a paisagem, mas está com certeza sentado dentro de uma das casas que representou vista do céu. Também o romancista deve dar uma imagem abrangente do romance como se pairasse sobre todo ele, ainda que o tenha de fazer de muito próximo, página a página.
Este livro trata-se então da visão do escritor sobre o género literário romance, sobre os tipos de romancistas e até sobre os leitores. Embora me interesse o tema, fiquei de longe mais fascinada com uma ideia peregrina de um desejo que me resta: ler. Se há pessoas que escrevem e que vivem da escrita (mal decerto, e há pouco quem viva somente da escrita) também poderia haver a profissão de leitor. Não, eu não quero dizer que o meu desejo é ser paga para ler e criticar os livros...isso é ser crítico literário ou trabalhador de uma editora. Não mesmo. O meu desejo era ser paga para ser leitora apenas. Essa sim era a melhor profissão do mundo. Perguntar-me-iam nas consultas dos médicos: qual a sua profissão, para pormos na fichinha: Leitora. Soava bem.
Mas, não sendo possível ser leitora de profissão, contento-me em ler de graça. E a graça deste livro também não é propriamente a opinião de Orhan Pamuk sobre os romances e romancistas. Opiniões há muitas e penso que a tentativa de catalogar ou aplicar um algoritmo que defina a estrutura de um bom romance é muito redutor e sujeito a debate. Para mim a graça deste livro está na opinião apaixonada que Orhan leitor tem sobre os romances que leu. Como ele descreve o alheamento e alegria que se conseguem com um livro. Como se consegue identificação com as personagens e como se consegue um diálogo silencioso entre a palavra escrita e a forma como a lemos e nos apoderamos dela.

1 comentário:

josé ferreira disse...

Marlene,
vim de novo ler, e que bem como sempre, este não li e portanto, depois da visão de uma leitora especial, fiquei com vontade de ler e de dizer também da minha leitura. Anna Karenina que li há dois anos é um romance magnífico assim como as análises da psique que Doistoievski faz, também me seduzem, mesmo os cadernos subterrâneos. Nem de um nem de outro li algo que me deixasse amarguras de tempo perdido, e concordo um mais visual sem dúvida, a descrição da ceifa em Tolstoi é magnífica.
Bem, mas que pena de não poder ser leitora a tempo inteiro, eu também gostava, acho óptimo, que tal fazermos um movimento?
Marlene, amanhã, 25 vai haver jantar de grupo, porque não vem? Seria óptimo!

Abraço

José