sábado, 12 de maio de 2012

Geni e o Zepelim


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Alguém um dia dizia que não se deve tomar nenhuma resolução depois das 2 h da manhã. Penso que é uma verdade para tudo, inclusivamente para escrever. Não se deve escrever depois das 2 h da manhã.
Porquê? Simples, porque depois das 2 da manhã sentimos uma falsa invisibilidade. Sentimos mais o mar e menos as pessoas e cremos que o mundo é mais daqueles que persistem despertos. Por isso escrevo aqui sobre a premissa do erro.
Sempre tive a mania de disputar os espaços menos disputados. Os meus irmãos em pequenos registavam os seus records dos jogos do spectrum 48K num caderno, quase sempre em jogos de acção ou de desportos. Jogavam os jogos olímpicos e detinham todos os records de todas as modalidades. E eu escolhia os intervalos em que eles subiam ao pódio uma e outra vez, para jogar os jogos que eles não queriam. Normalmente eram jogos parados, de encontrar pistas e objectos. Ou então jogos aborrecidos com gráficos pouco evoluídos. E eu detinha todos os records de todos esses jogos renegados. Era a campeã dos jogos preteridos.
E engraçado como coisas aparentemente tão pouco determinantes como essa, podem de facto imprimir uma tendência nas nossas vidas.
É dessa auto-exclusão que fala a maravilhosa música do Chico Buarque: Geni e o Zepelim. Geni de uma moral mal compreendida amava os pobres e os lazarentos, os cegos e os errantes, mas nunca um homem nobre a cheirar a brilho e a cobre. E se numa visão superficial vemos Geni a ser excluída, apedrejada, a verdade é que a Geni se autoexclui.
E eu não sei a que propósito, mais de 2h depois das 2h da manhã, num pecado duplo de falta de sensatez, venho aqui sentir afinidades com a Geni. Sentir que percebo essa sensação constante de auto-exclusão de um mundo onde o cheiro a brilho e a cobre me dão uma náusea profunda e uma vontade imensa de fugir. E de me agarrar à primeira vida menos invejada que alguém possa conceber. E de excluir da minha vida todos aqueles que toda a gente ama. Todos aqueles que toda a gente adora adorar e que adoram ser adorados. E ficar apenas com os sombrios, os escuros, os pouco sorridentes. Ficar com os difíceis. Os que ninguém quer conhecer.
Uma coisa aparentemente pouco determinante imprime uma tendência, de facto. E eu sou ainda a mesma que ficou com o gato que ninguém quis, por não ter pêlo e ter tinha. E que apanhou a tinha mesmo sem ninguém querer. Fui eu quem escolhi a única gata que não queria dormir, da ninhada que ninguém queria manter. Sou eu mesma que tive amigos que ninguém queria. Sou eu mesma que amei o gato saci de 3 pernas, o mais fraco e preterido até pela mãe gata. Fui eu quem ficou com o cão que ia ser abatido. Com o estágio na farmácia que ninguém escolheu ou disputou.
E sou eu mesma que com fibra de Geni decido a horas erradas que estou certa. E que me excluo da vossa inclusão. E assumo o quanto me cansam. O quanto me cansam.


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