quarta-feira, 23 de maio de 2012

Se Vronsky tivesse poderes telepáticos para chamar Anna

É escusado apelar às escuras, evocando o poder secreto que a ausência da luz pode trazer a esta sala, iluminada apenas pela tela branca onde desenho palavras com todo o esforço e nenhuma vontade.
Questiono-me, se em algum lugar, quem sabe na mesma parte onde estas palavras desembocam, estarás também alerta para o poder que esta luz solitária tem de levantar memórias, tão escuras como onde também te imagino.
Desconfiei sempre deste pedir telepático. Concordava com ele para que me não achasses um cínico total, descrente do poder da vontade.
Sempre tive um desejo concreto de te ver. E sempre suspeitei de elaborações teóricas sobre a cosmologia dos encontros. Mas isso é porque nunca olhei como tu, para as paredes. Nelas sou incapaz de ler mensagens ocultas para lá da corrosão e grafitti.
Se um Índio me enviasse sinais de fumo, pensaria com certeza não serem para mim. Ou encolheria os ombros perante a perspectiva de um céu mais poluído. Essa é a nossa principal diferença. Sinto mais os sinais por dentro da pele, do que os de fora do mundo. 
Sou um cínico, bem sei. 
Falo-te de nós e dos outros com aquela inadaptação adolescente de alguém que custa a aprender que os outros são tanto como nós. 
Mas não desisto de tentar ser menos eu e menos eles. Sou um cínico que desejava ser crente. Ter o poder de acreditar.
Queria acreditar que, mesmo sem a minha ajuda, a palma da minha mão me mostrará o futuro em linhas. Mas o cinismo deu-me uma cautela áspera e a minha mão é ilegível sob esta luz de sala escura. Nela apenas tacteio os sulcos onde por vezes, por consideração a ti, te imagino a caminhar. Quase me alegro quando te pareces dirigir pela linha da minha mão ao meu dedo mindinho. Fazes-me cócegas quando me queres fazer sinais.

1 comentário:

Anónimo disse...

Era obrigatório alguém vir cá dizer isto. Este texto é maravilhoso. 20