quarta-feira, 16 de maio de 2012

A tia Júlia e o escrevedor de Mario Vargas Llosa


Este é um livro ideal para quem quer um livro divertido, mas bem escrito.

É muito difícil encontrar estas duas características num livro. Normalmente quando os livros são leves de tomar como uma água são aborrecidos, mal escritos e de fórmulas gastas. Ou quando são muito bem escritos são normalmente exigentes do ponto de vista emocional. E eu não me poderia dar ao luxo de ler algo que tomasse conta de mim. Pensei por isso imediatamente em escritores da América do Sul, que normalmente são os meus autores preferidos em tempos frágeis. E optei por este de Mario Vargas Llosa, de quem ainda não tinha lido nada.
Fiz uma boa opção. Este é um romance muito interessante sob o ponto de vista formal e que contém ainda uma boa dose de humor e um tom muito alegre.
É quase um romance autobiográfico, pois Marito ou Varguitas, ele próprio, é o personagem principal e narrador. Varguitas é um jovem de 18 anos, estudante de direito e trabalhador numa rádio, onde a sua função é reunir notícias dos jornais diários e fazer o próprio serviço noticioso da rádio com base nessas notícias. Também faz parte das suas funções conter os ímpetos do Pascoal, um diligente colaborador que adora notícias com mortos e pormenores mórbidos, sendo capaz de em cada descuido de Varguitas ocupar um serviço noticioso inteiro com a descrição de um terramoto e suas vítimas.
Varguitas é uma daquelas personagens promessa, com muitas potencialidades mas algum ócio de viver. Inteligente, vai fazendo o curso de direito sem grande esforço, nem resultados brilhantes, e leva uma vida de algum descuido, adiantando serviços noticiosos para passear pelas ruas de Lima. Toda a vida ainda adolescente de Varguitas muda com a chegada de duas personagens. A tia Júlia, mulher madura de 30 anos, divorciada e que chega a Lima à procura de um pretendente. E Pedro Camacho - o escrevedor. O termo "escrevedor" e não "escritor" não surge por acaso no título do livro. Pedro Camacho é uma personagem com uma imaginação prodigiosa, contratado pelos patrões de Varguitas para ser o argumentista, director e actor de radionovelas. Pedro Camacho escreve e trabalha a um ritmo alucinante produzindo enredos diversos que passam várias vezes ao dia na rádio e que prendem a atenção de todos os ouvintes. Varguitas, que ambiciona ser escritor, começa a interessar-se por Pedro Camacho, percebendo no entanto rapidamente que ele só escreve, mas não escreve. Com a cadência com que escreve, Pedro Camacho não tem tempo de ler e nunca leu nada a não ser um livro de citações famosas que transporta para todo o lado como a uma bíblia. E Pedro Camacho nem sequer extrai a sua escrita da vivência, pois a sua vida é limitada a intervalos para chá de menta e uma morada espartana num quarto onde dorme e ainda assim dorme pouco. Todo o resto do tempo é usado para escrever os guiões das radionovelas. Por isso é no termo "escrevedor" e não "escritor" que se encontra o desejo de distinção em relação aquilo que Varguitas quer ser e aquilo que Pedro Camacho é.
A tia Júlia por sua vez é o desejo da vida adulta de Varguitas. Uma mulher bonita e atraente, pela qual Varguitas sendo menor (a maioridade ocorria aos 21 anos) tem que fazer uma série de sacrifícios: contrariar a família, ter um amor mal visto pela diferença de idade e grau de parentesco (ainda que ela seja sua tia apenas por afinidade); casar escondido e forjar papeis de identificação e arranjar uma série de empregos para conseguir sustentar a vida a dois. No fundo estas duas personagens vão balizar a entrada de Varguitas na vida adulta e por isso o fascinam. Pedro Camacho é essencial para Varguitas entender o papel de um escritor e para perceber com convicção o que quer ser, ele que havia apenas sido escritor em tentativas pouco convictas. Júlia é essencial para que a vida de Varguitas se complique e deixe de ser branda e sem desafios como era. Só assim com a visão do escrevedor (como a imagem especular do não-escritor) e das dificuldades que a vida prática impõe é que Marito Varguitas desperta para ser Mario Vargas.
A estrutura do romance faz-se numa alternância entre as histórias das radionovelas e a história de Varguitas. E a cada capítulo há uma história diferente onde Vargas e não Varguitas, mostra mestria em agarrar o nosso interesse, constantemente bruscamente interrompido para retomar a história nuclear de Varguitas e mais à frente incluir nova história que novamente nos seduz e novamente é interrompida sem desenlace. Parecendo quase uma lição que Vargas impõe ao leitor sobre essa diferença entre ser "escrevedor" e "escritor". Vargas exibe-se e mostra-nos que pode fazer de Pedro Camacho e Varguitas.
No final um tom algo moralizador para o insucesso esperado de um escrevedor. Pedro Camacho no auge do seu desaire imaginativo começa a confundir as personagens das radionovelas. O capitão Lituma que encontrou um emigrante ilegal africano e recebeu ordem para o matar, passa a entrar no papel de polícia que assiste ao acidente com um delegado de propaganda médica. E este último é o mesmo que esfaqueia o dono da pensão e o dono da pensão entra na novela do tocador de violão apaixonado pela freira, mas a freira é a mesma menina que havia sido violada por um jeová e também é a mesma de quem o árbitro de futebol se apaixona numa outra novela. Enfim, uma torrente de personagens que existem em contextos diferentes como se se transmutassem e fossem transversais a cada história. Como se Pedro Camacho fosse todas essas personagens e por isso elas surgissem em todas as histórias sem controlo. O que é certo é que os ouvintes das radionovelas começam a estranhar que haja esse derrame de histórias umas nas outras num acelerar vertiginoso que acompanha o cansaço da mente de Pedro. Até que Pedro Camacho, no desespero de não controlar o fenómeno de mistura de nomes e histórias, resolve num acesso shakespeariano matar todas as personagens em grandes acidentes e tragédias, para assim tentar recomeçar do zero. E aqui o livro atinge o ponto máximo do risível onde os fins bárbaros e apoteóticos dos diversos capítulos se sucedem, mas ainda assim com uma consanguinidade tal entre histórias, que a mesma personagem morre de diversas formas mais do que uma vez.
É assim o fim da carreira de Pedro Camacho, hospitalizado num manicómio. E é o fim de Varguitas com o início de Vargas o escritor, ele mesmo que haveria de dar em suas obras outras vidas às vidas esboçadas pelo escrevedor.

2 comentários:

josé ferreira disse...

Marlene,

foi muito bom revisitar aqui o livro que também li do varguitas, da tia, das radionovelas e do escrevedor e também o muito que me diverti na sua leitura, nas suas constantes peripécias sem perdas de ritmo, assim como deviam ser as telenovelas, um alimento de éter no correr dos dias.

meu deus, Marlene, que poder de síntese, que escrita tão bonita, gostei tanto de a ler, que bom

Bjo

José

M. disse...

Obrigada José,

Pois os meus resumos de livros são para eu mesma agarrar a sua memória. Eu padeço do mesmo mal de um personagem dum conto de Borges que lia os livros e se esquecia deles completamente ao ponto de não saber se já os tinha lido e se ver obrigado a escrever no livro um resumo, para quando o abrisse soubesse que já ali tinha estado. Foi assim que decidi resumir alguns dos livros que leio. E é de facto um bom exercício de reflexão. É muito simpático da sua parte vir aqui ler o que escrevo. Eu também aprecio muito o que escreve lá pelo mar e leio sempre, sempre.