Ora aí vem o habitual balanço maníaco-depressivo sobre os objectivos atingidos e por atingir.
Coisas boas de 2011:
1) Aprendi a gostar de ginástica
Se alguém me dissesse em 2010 que eu estaria a correr num tapete e a gostar, iria pensar que se tratava de uma previsão furada da Maya. Mas é verdade, corro cada vez mais tempo e com mais intensidade e gosto. E já me custa não ir à ginástica de manhã.
2) Missões profissionais cumpridas
Até ao verão parecia uma lunática que só trabalhava. Consegui cumprir todas as tarefas e fui de férias com aquela sensação de invencibilidade maravilhosa
3) Saúde da família
O mais importante. Altos e baixos, mas os baixos superados.
Coisas más de 2011:
1) Trabalho em excesso
2) Pouco lazer
3) Pouco descanso
4) Velhos hábitos a regressarem
Em 2012:
1) Mudar. Não é sempre esse o nosso desejo?
2) Continuar o exercício.
3) Viajar mais
4) Aprender mais
5) Ler mais
6) Rir mais
7) Receber mais amigos em casa
8) Não trabalhar aos fins de semana ou faze-lo muito excepcionalmente
9) Escrever um livro
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Partir
_____________________________
Apetece-me partir tudo
Poderia começar assim
Para dizer que nada me move
Nas vossas vidas de relógio
E de almoço aquecido
Nada me envolve
Nos vossos braços solidários
Nos vossos conselhos sábios e
Nenhuma luz de pinheiro sintético
Me faz qualquer espécie de sombra
Pois que me apetece partir tudo
Com a mesma veemência
Em que se inventam
Apetece-me contar a verdade
A todos vocês que pensam que são
As notícias que divulgam
“Tu és parte de todos aqueles que são capazes de ajudar uma criança no Burundi
O vosso coração e apoio são condicionados pela distância:
Ao longe são bondosas almas caridosas universais
Ao lado são resguardados seres individuais
Apetece-me partir tudo
Poderia começar assim
Para dizer que nada me move
Nas vossas vidas de relógio
E de almoço aquecido
Nada me envolve
Nos vossos braços solidários
Nos vossos conselhos sábios e
Opiniões fundamentadas
Nenhuma luz de pinheiro sintético
Me faz qualquer espécie de sombra
Nenhum presente embrulhado
Me estreita a distância que sintoPois que me apetece partir tudo
Com a mesma veemência
Com que aquecem as vossas refeições
E produzem as vossas receitas
Como quem cozinha um futuro
Apetece-me partir tudo
Rasgar os likes e os tags
Desprezar os comentários
E pintar de negro o muralEm que se inventam
Apetece-me contar a verdade
A todos vocês que pensam que são
As notícias que divulgam
Explicar-vos com condescendência
Que vocês não são o mural
Onde sabem postar coisas inteligentes, que julgam que vos
definemQue vocês não são o mural
Apetece-me partir tudo
Ou fazer uma rima vulgar, que vos cuspa aos ouvidos:“Tu és parte de todos aqueles que são capazes de ajudar uma criança no Burundi
E desprezar o problema ao pé de ti”
Vocês são todos aqueles que contribuem para apoiar causas
assépticas e distantes
Mas que não se envolvem em situações próximas que vos possam
macular a alvuraO vosso coração e apoio são condicionados pela distância:
Ao longe são bondosas almas caridosas universais
Ao lado são resguardados seres individuais
São os sensatos, equilibrados e de futuro
Que não levantam o nariz do espelho
A não ser para a conversa de café
Vocês são ainda todos aqueles
que me despertam talvez o único desejo que me anima
Esta irresistível vontade
De partir
De partir
Depressão e trabalho
Não te acontece só a ti...
Um estudo de pesquisadores do King´s College London, no Reino Unido, revelou que o stresse no trabalho causa depressão até mesmo àqueles que não têm nenhum histórico de desordem psiquiátrica. Além disso, constatou-se que a depressão pode ocorrer independentemente da personalidade do indivíduo, ou de sua posição socioeconómica. A pesquisa, divulgada em agosto do ano passado, foi realizada junto a mil homens e mulheres. Ela mostrou que em 45% dos novos casos de depressão e ansiedade entre os profissionais mais jovens a causa era o estresse. Os resultados revelaram ainda que 14% das mulheres e 10% dos homens registraram o primeiro episódio de depressão ou ansiedade aos 32 anos.
Causas da depressão:
"Engolir sapos, não reagir a eventuais abusos, não conseguir impor seu ponto de vista, não estabelecer limites, não falar o que sente, alta expectativa que nunca é atendida, falta de reconhecimento, frustrações constantes. São situações insuportaveis que agravam, aos poucos, o mundo emocional da pessoa. O excesso de trabalho, por exemplo, causa sensação de fracasso. Contornar a depressão irá depender de como a pessoa identifica o problema e busca uma solução"
As soluções:
Reconhecer o problema. Se impossível de solucionar nas actuais circunstâncias, mudar de emprego, recomeçar e construir um futuro diferente
Um estudo de pesquisadores do King´s College London, no Reino Unido, revelou que o stresse no trabalho causa depressão até mesmo àqueles que não têm nenhum histórico de desordem psiquiátrica. Além disso, constatou-se que a depressão pode ocorrer independentemente da personalidade do indivíduo, ou de sua posição socioeconómica. A pesquisa, divulgada em agosto do ano passado, foi realizada junto a mil homens e mulheres. Ela mostrou que em 45% dos novos casos de depressão e ansiedade entre os profissionais mais jovens a causa era o estresse. Os resultados revelaram ainda que 14% das mulheres e 10% dos homens registraram o primeiro episódio de depressão ou ansiedade aos 32 anos.
Causas da depressão:
"Engolir sapos, não reagir a eventuais abusos, não conseguir impor seu ponto de vista, não estabelecer limites, não falar o que sente, alta expectativa que nunca é atendida, falta de reconhecimento, frustrações constantes. São situações insuportaveis que agravam, aos poucos, o mundo emocional da pessoa. O excesso de trabalho, por exemplo, causa sensação de fracasso. Contornar a depressão irá depender de como a pessoa identifica o problema e busca uma solução"
As soluções:
Reconhecer o problema. Se impossível de solucionar nas actuais circunstâncias, mudar de emprego, recomeçar e construir um futuro diferente
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Playing on my head's radio #6
________________________________
De lábios agrafados tento romper o autismo para pedir um café
Mas o que articulo é uma exalação branca como se fumasse o silêncio
A torre cai e eu falo nuvens brancas ao frio.
A torre cai e sob o rugir da queda cubro o meu próprio tremor.
Olho em volta e ninguém vê.
Ninguém, porque cada um
"Cada um tem que tratar das suas nódoas negras sentimentais"
O prédio cai, calam-se e eu calo.
Cantas dentro da minha cabeça:
"Falar-te da minha solidão"
Olho em volta e ninguém.
Falar-te é soprar uma nuvem branca
A torre cai enquanto eu
“Eu sei que tu compreendes bem”
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a bom entendedor uma música basta,
what's the point?
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Bonjour Tristesse
Este edíficio em Berlim é da autoria do nosso afamado Siza Vieira e é incontornável numa visita à cidade. Ficou conhecido pelo famoso graffiti que um morador em protesto escreveu no topo do edifício: Bonjour tristesse.
E assim é a arte urbana. Surge com alguém que num momento expressa o que sente e acerta em cheio.
Este edifício, por muitas qualidades arquitectonicas que possua e que me abstenho de comentar, é de facto a personificação da tristeza. O seu tom plúmbeo e forma como ondeia entre edifícios, numa esquina que não é, mas que escorre arredondada, é a saudação ao dia mais frio de inverno.
Este edifício faz-me sentir frio e medo e vontade de chorar. E possuo imensa compaixão pelo morador que se pendurou para gritar aquilo que era indizível.
Este edifício sou eu, hoje, a tentar prevalecer entre outros, na curva de uma fuga, na tentativa de manter a verticalidade.
Oxalá consiga resistir assim, vertical ainda que só cinza e sombra
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Nota mental de sobrevivência,
what's the point?
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Calabar - o elogio da traição
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Calabar de Ruy Guerra e Chico Buarque é uma peça de teatro, que li já contaminada pelas músicas que conhecia de antemão e pela Portugalidade do meu sangue.
É óbvio o desafio que a peça impõe. O de questionar as versões oficiais, dadas como certas. O de virar a palavra do avesso e ver que do lado não aparente a palavra se transmuta noutra.
Perante a guerra entre Portugueses e Holandeses no século XVII no Nordeste Brasileiro, Calabar, que pertencia à facção Portuguesa, muda de lado e começa a lutar e a ganhar ao lado dos holandeses. Num acordo feito entre holandeses e portugueses é trocada a captura de Calabar pela conquista da Bahia e uma vez em poder dos Portugueses, Calabar é morto em praça pública e esquartejado como o traidor.
A peça mostra assim que do heroismo à traição vai um virar de lado. Calabar o traidor, foi ele próprio traido pelos holandeses que o usaram como moeda de troca. As intenções de Calabar na mudança de lado estratégico também se insinuam diferentes de traição. Calabar acreditava que o caminho certo para a sua terra era apoiar os holandeses. E nesse sentido, não será Calabar um herói? Um herói, porque se manteve fiel ao que acreditava. Nesse sentido a traição é apenas traição se vista de fora e de um lado apenas.
Mas eu disse que li o livro contaminada. Um livro que contém uma peça teatral não é um teatro. E nele não é possível ver a dor de Bárbara, amante, amada?, amaria Calabar? Ou amaria a imagem de um Calabar mártir?
Não sei o que sucede à Bárbara do palco, mas a Bárbara do livro pareceu-me gostar mais de se ver a gostar de Calabar, herói do avesso. Como num jogo de espelhos em que a compaixão por nós mesmos nos faz tantas vezes gostar de nos ver a gostar e a sofrer para que esse gostar seja elevado a uma forma que nunca seria possível nos amores terrenos e concretizáveis.
Li o livro contaminada e o texto que toda a gente apelida de extremamente inteligente desiludiu-me.
Desiludiu-me a conversa de latrina. Seria mesmo necessário satirizar de uma forma tão básica para se perceber que os heróis e os traidores dependem do ponto de vista?
Eu que gosto tanto do Chico Buarque fiquei irritada com aquela sensação de parcialidade, na escolha do buçalismo para a colonização portuguesa. O século XVII não seria obviamente um século de respeito pelos direitos humanos! Nem hoje eles estão garantidos. Não consigo perceber, porque motivo pessoas inteligentes como Chico Buarque e Caetano Veloso (a figura que este fez com o seu discurso anti-colonialismo na expo 98) continuam a achar que os brasileiros são os pobres dos indios puros e angelicais que os portugueses colonizadores dizimaram. Não são! Os brasileiros são a descendência dessa luta. Os brasileiros são a soma dessa adição. São o resto dessa divisão. O sangue de Chico Buarque e Caetano Veloso não é Guarani. O sangue deles contém a bondade dos índios (bondade apenas?) e a atroz herança dos portugueses. Os mexicanos não são os maravilhosos descendentes do povo Maia (que sim, era maravilhosamente avançado, mas impiedosamente cruel também....jogava futebol com cabeças humanas, tinha hierarquias, matava o seu povo também, fazia sacrifícios). Os mexicanos são apenas os filhos das violações de Hernan Cortés e da sua corja espanhola, às mulheres do povo maia. Os mexicanos não são maias. Os mexicanos só existem porque são o resultado da colonização. Os brasileiros só existem porque são o resultado da colonização.
Cruel, brutal sim, mas por favor, chega de cérebros inteligentes fazerem dos colonizadores bodes expiatórios para o seu descontentamento com o presente e com o futuro.
Olha para nós Brasil, somos colonizadores vis, ri-te de nós à gargalhada. Faz um carro alegórico no Carnaval onde podes deixar claro que finalmente vingaste o indio, e nós os portugueses vilões que carregavamos ouro carregamos agora impostos e dívidas ao FMI. Façam isso por favor. ó gentes do Brasil e expiem o vosso ressentimento de uma vez por todas.
Eu cá aceito o frio, o trabalho precário e a possibilidade de desemprego e prometo, que mesmo que o céu esteja púmbleo como só ele sabe ficar e que mesmo que o coração esteja apertado de falta de luz, não vou culpar os romanos por terem invadido os lusitanos. Nem me vou pôr a tentar mostrar que o celtibero Viriato era afinal um traidor do lado romano, nós que sempre o vimos como um herói.
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Ainda bem que sou portuguesa,
os livros que leio
sábado, 5 de novembro de 2011
Não sei mais como dizer-te
http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/22/helder1.html
Que a adaptação é um mero recurso da necessidade última
Que o sono e a vigília recebem a visita dessa sombra
E se adaptam, escorrem e incorrem em mudanças
Porque é preciso dormir e acordar e dormir e acordar e dormir
Não sei bem como dizer-te
Que não estar, não ser, não existir
Não se trata de um espaço corrigido
Ou de uma linha apagada no texto
Reescrita, refeita
Não sinto, não estou, não existo
Faço-me ser e surgir de repente
Como quem sabe e sente
Porque é preciso sentir e saber e sentir e saber e sentir
Não consigo convencer-te
Que há ausências tão densas, que ocupam o espaço
de uma presença incómoda, grossa, imensa
Que se adensa em noites de nevoeiro e trovoada
E se senta ao colo com o peso da montanha
E quando o mar ruge como um leão
Não sei de onde vem este barulho
Que soa a engrenagem rouca cheia de areia e ferrugem
Que mastiga sempre um bocadinho da coragem
E deixa passadas das garras na pele
Não sei bem como explicar-te
Que tenho uma pena imensa
Das palavras guardadas
E das outras: as engolidas
as não ditas, as esquecidas
As abafadas
As ultrajadas
Aquelas que nunca foram usadas
E também as que esperaram tempo de mais
Até serem letras sem sentido
Como contas debitadas
Num colar que cresce
Para ninguém usar
Não sei bem como dizer-te
Que por mais que tente
não consigo apreender
a ausência
E na recorrência desta minha incapacidade
volto às voltas
Do carrocel dos inconformados
Que a adaptação é um mero recurso da necessidade última
Que o sono e a vigília recebem a visita dessa sombra
E se adaptam, escorrem e incorrem em mudanças
Porque é preciso dormir e acordar e dormir e acordar e dormir
Não sei bem como dizer-te
Que não estar, não ser, não existir
Não se trata de um espaço corrigido
Ou de uma linha apagada no texto
Reescrita, refeita
Não sinto, não estou, não existo
Faço-me ser e surgir de repente
Como quem sabe e sente
Porque é preciso sentir e saber e sentir e saber e sentir
Não consigo convencer-te
Que há ausências tão densas, que ocupam o espaço
de uma presença incómoda, grossa, imensa
Que se adensa em noites de nevoeiro e trovoada
E se senta ao colo com o peso da montanha
E quando o mar ruge como um leão
Não sei de onde vem este barulho
Que soa a engrenagem rouca cheia de areia e ferrugem
Que mastiga sempre um bocadinho da coragem
E deixa passadas das garras na pele
Não sei bem como explicar-te
Que tenho uma pena imensa
Das palavras guardadas
E das outras: as engolidas
as não ditas, as esquecidas
As abafadas
As ultrajadas
Aquelas que nunca foram usadas
E também as que esperaram tempo de mais
Até serem letras sem sentido
Como contas debitadas
Num colar que cresce
Para ninguém usar
Não sei bem como dizer-te
Que por mais que tente
não consigo apreender
a ausência
E na recorrência desta minha incapacidade
volto às voltas
Do carrocel dos inconformados
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Da In sonia para a out sonia....ou como domesticar um cérebro que se conhece de gingeira
___________________________________________
Chegou-me a Sónia, mais uma vez nesta noite fria.
Tenho os pés gelados, mas sabe bem por vezes ficar simplesmente a ouvir o corpo e as suas manifestações.
E se do corpo apenas o frio dos pés responder, é bom então apurar o ouvido para a noite e para o mar a rugir como uma máquina mal oleada.
Mudo o rumo e começo a pensar em escalas. Eu e os meus pés de pequena superfície (um mero 37) gelada face ao macroscópico mar, gigantópica criatura.
É o suficiente.
Para um cérebro treinado para estabelecer comparações, é o suficiente para que o meu frio e a minha vigilia se encolham à insignificância do espaço que ocupam no vasto mundo que me ruge ao ouvido. E de repente estou out sonia, para escorregar para dentro do sono dos pequeninos.
Chegou-me a Sónia, mais uma vez nesta noite fria.
Tenho os pés gelados, mas sabe bem por vezes ficar simplesmente a ouvir o corpo e as suas manifestações.
E se do corpo apenas o frio dos pés responder, é bom então apurar o ouvido para a noite e para o mar a rugir como uma máquina mal oleada.
Mudo o rumo e começo a pensar em escalas. Eu e os meus pés de pequena superfície (um mero 37) gelada face ao macroscópico mar, gigantópica criatura.
É o suficiente.
Para um cérebro treinado para estabelecer comparações, é o suficiente para que o meu frio e a minha vigilia se encolham à insignificância do espaço que ocupam no vasto mundo que me ruge ao ouvido. E de repente estou out sonia, para escorregar para dentro do sono dos pequeninos.
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ainda sobre a adaptação,
Nota mental de sobrevivência
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O que vale a pena e o que não vale ou notas para aprender a viver melhor #1
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Estou cansada de ser a "stressada" que se preocupa demais com tudo.
Afinal de contas, vale a pena stressar? Valerá mesmo a pena não dormir para fazer o meu trabalho e o dos outros, passar dias e noites a fio a corrigir e reescrever, escrever isto e aquilo.
Não valerá mais a pena fumar um cigarrinho, rir-me e ser simpática e leve?
Vale a pena andar sempre preocupada, para à primeira oportunidade levar com a crítica de que sou stressada?
Vale a pena ainda ficar triste e extremamente desiludida com as pessoas?
Não vale, não. Não vale a pena nada disto. Vale a pena é a família, o amor e a vida com aqueles que apreciam o esforço que fazemos.
Não vale a pena encolher a alma de desilusão ou ela mirra num instante. Vale a pena, sim, aprender com a experiência e, para a próxima vez que precisares da minha ajuda, farei os possíveis para me lembrar da tua crítica e então irei relaxar, dormir de noite, gozar o fim-de-semana como toda a gente simpática que aprecias e que te entende bem melhor que eu.
sábado, 22 de outubro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Da beleza e dos monstros
Quando era pequena e custava a adormecer, tinha como estratégia imaginar que chegava à escola e todas as secretárias tinham uma mala imensa de marcadores e blocos de folhas. Os meus melhores sonhos passavam pela possibilidade de pintar folhas brancas sem limites de cor.
Hoje dei por mim a querer adormecer 1 minuto acordada durante o dia e os marcadores ou as folhas já pouco me dizem.
Chego a casa e penso nos meus marcadores de hoje e distraio-me a pensar em recortes de coisas que me fazem ausentar do cansaço.
É um exercício tão reconfortante como moldar as nuvens à semelhança de carros, animais e gente.
Os meus marcadores de hoje são recortes da memória que se implantaram sem dar conta. Exemplos:
- a cena do "in the mood for love", do segredo sussurrado à árvore;
- uma cena de um outro filme do qual não me lembro nada, apenas me lembro que a actriz muda faz um gesto de mãos em murro contra o peito, num deslizar que abre as mãos e que imita o som do mar. Nunca vi ninguém com tanta sensibilidade para dizer o mar, como aquela pessoa que não fala. Pois o mar é mesmo um murro que se abre em dedos que se espreguiçam, num misto de batida e sussurar arrastado ao deslizar a mão no tecido;
- A imagem do mar quando mergulho e de como se adequa tão bem a frase da Sophia Melo Breyner: um lugar onde sob cada coisa bela paira um monstro;
- O meu sofá da casa antiga em Armamar, encostado à janela que cobria a parede toda e de onde eu de joelhos via o pinhal ao fundo e a casa da moleira e onde via derreter as imagens nítidas com o escorrer da chuva. Da janela seguia os carros na estrada e se desapareciam na curva, imaginava que os fazia sair do outro lado onde já os via;
- A minha avó e a imagem do velho ritual de antes de se deitar espreitar debaixo da cama, para ver se alguém estava escondido. Ainda hoje quando espreito debaixo da cama à procura de sapatos por momentos penso se vou apanhar alguém desprevenido que me fará um sinal de "chiuuu, não digas nada";
- Um dos meus gatos no colo a dormir com um quase sorriso;
- Os abraços da Francisquinha que se encaixam em mim sem qualquer dúvida;
- O sinal do dedo do Simão que sei que fui eu que o pintei e o croquete de Simão enrolado na toalha;
- O riso da minha mãe quando contagia o meu pai e se pega a todos;
- As músicas do Chico Buarque, às escuras ou às claras; ou no duche; a jantar;
- A música que passa em playlist nos meus momentos obsessivos quando no carro ouço em modo repeat.
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Nota mental de sobrevivência,
what's the point?
terça-feira, 20 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
A meia idade
Pessoalmente acho que a meia idade é aos 35, ou seja agora.
Porque me sinto exactamente a meio:
Estou nova demais para ver concertos da Maria Rita na Casa da Música e me debater com a cadeira lindíssima, mas anti-movimento que a cada vontade de dançar sentada me fugia debaixo do rabo. Prefiro sem dúvida o Coliseu, onde se bate com os pés no chão e a madeira ruge connosco e dá voz ao desejo de querermos mais. Na Casa da Música o chão não entoa, pois que bem tentei bater o pé, e as mãos e mexer-me entre a rigidez muscular da audiência bem comportada.
Estou velha demais para ver concertos de pé. Gotan Project no Palácio de Cristal, com miúdos gandulos (como é que eles agora crescem tanto...deve ser das hormonas) a taparem-me as vistas e eu a saltar para ver e o pé a doer de esperar e de saltar. E eu a desistir de saltar, de ver ou de ouvir. E a vontade que tudo acabasse depressa, para não ver os excessos da banda a tentar agradar aos miúdos e a perder todo o encanto da fusão que tinha, para passar a pender para a modernice, com muito pouco tango. Gadgets, gadgets....ipod, ipad, luzes....um comando da wii...e as meninas em coro wiiii. E os telemóveis em riste (muitos blackberrys... que falta de gosto) a tirarem fotos para que ninguém lhes perca o rasto no facebook -é preciso que se saiba bem onde se encontram:
- Aqui estou eu na casa de banho a puxar, e depois sou eu no concerto dos gotan a dançar wiiii. Tag: gira! wiii. tanto num acto como noutro
E o concerto tornou-se numa tontura de cenas repetidas... o miúdo gandulo com a grande juba à miúdo da foz a tapar-me as vistas, as luzes do ipad no palco, o comando da wii a subir os tchan, tchan de batida electrónica asséptica e as yuuu uuu girls à minha frente a darem gritinhos yuuuu uuu cada vez que a electrónica se sobrepunha ao tango. E tiravam fotos mais uma vez para porem no "face" (nome carinhoso que dão a essa invenção do demo). E no "face" o concerto faz prova da existência, No "face" tudo se materializa. E no "face" gostarão ainda mais de gostar do concerto, pois poderão ver-se a ve-lo. No "face" vão tagar palermices (mesmo ao lado das fotos do wc que também postaram e onde em vez de "tagar" fazem uso de um verbo que soa ao mesmo, e no fundo é a mesma coisa, apenas com cheiro diverso). E no "face" as onomatopeias descritivas dos yuuuu uuus saem da minha irritação para a constatação. E no concerto, a minha cabeça arde de enjoo: do face, do tag, do pé, do yuuuuu uhhh.
E assim em dois concertos percebi que estou na meia idade....já saí do Palácio e ainda não cheguei à Casa da Música.
sábado, 30 de julho de 2011
Carta a ti mesma
_______________________________________
Querida M,
Embora tenhas passado anos a afundar-te em dúvidas sobre ti mesma, com uma auto-estima em valores altamente negativos. E embora a falta de auto-estima e a falta de confiança sejam características que tresandam de ti e que lobos afaimados sempre souberam como farejar e usar. E embora desde já há alguns anos os detectes e percebes as suas intenções...ao longe. E sabes que muitas das suas atitudes são porque te temem e por te temerem tentam fazer-te crer que não vales nada ou que o que fazes não é suficiente. Embora saibas tudo isso, porque és tudo menos burra e insensível então porque continuas a deixar-te ir nesse lodo?
Chegou agora de assumires perante ti mesma que és a única pessoa que interessa. Assume o que sabes e todos sabem: és boa em tantas coisas e podes orgulhar-te disso.
Tens uma capacidade de trabalho imensa ao ponto de dormires 2 horas em 3 dias seguidos. Lês muito. És curiosa. tens boas ideias. Copiaram as tuas idéias várias vezes. Tentaram apropriar-se delas muitas vezes.
Fazes as coisas com brio. Um brio que te leva a fazer a mais reles tarefa com a perfeição de uma tarefa importantíssima. Se te criticam por isso, fuck it...tu és assim e é assim que queres ser.
Tu tens sentido do humor. Tantas vezes te fazem crer que és mal-disposta ou que reclamas demais. Às vezes carregas o mundo às costas e gostavas de ver esses sorrisos fáceis a carregar o mesmo fardo continuando a sorrir.
Acima de tudo orgulha-te duma coisa essencial. Neste caminho muito cheio de tentações das da pior espécie, nunca prejudicaste ninguém e já ficaste mal vista por defenderes muitas pessoas. Não és a pessoa mais querida, mas as pessoas mais queridas são as que menos querem chatices. Há pessoas que fazem tudo para agradar a todos. E é fácil dizer meia dúzia de balelas sorridentes a qualquer pessoa, mas na hora H, quando essa pessoa precisa, fingir que não se sabe de nada. Tu és emotiva e metes-te naquilo em que não devias. Mas acima de tudo nunca te ficaste apenas por dizer apenas uma coisa sorridente. És contra o small talk que não leva a nada. O small talk não te diz nada de nada. Sempre enfrentaste as pessoas com quem tiveste problemas e disseste-lhes abertamente aquilo que te desagradava. Orgulha-te disso pá!
Não tens muitos amigos. Mas aqueles que te conhecem profundamente sabem que podes faltar no sorriso fácil, mas nunca lhes faltas nas horas difíceis. E já conheceste muitas pessoas e poucas deixam o seu trabalho para ajudar os outros, como tu fazes muitas e muitas vezes.
Se ninguém (pouca gente) reconhece isso. Está na hora de tu reconheceres. E sentires uma explosão imensa de orgulho por seres como és.
Chegou a hora de assumires que és boa....boa no que fazes, perfeccionista, sensível, com boas idéias, idealista, observadora e acima de tudo: boa pessoa. Só ainda não és muito boa, mas já andaste perto e isso é coisa que se resolve com umas corridas na praia :)
Nunca farás alguém sentir-se mal só para te sentires melhor, pois o teu sucesso não passa por recalcar os outros. O teu sucesso é apenas isso: teu...sem dever nada a ninguém
Tem umas excelentes férias
M.
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
Sobrevivo-te melhor do que que nunca
Se alguém de quem gostamos muito, morre ou desaparece, e a dor da perda parece um espigão no pé
que dói a cada passo
se a ausência é tal que parece um polígno impossível cheio de vértices
que nos arranha a pele
Se sobre a pele esfolada derramamos um caudal inteiro de lágrimas incontidas
que nos ardem na ferida
Se a falta é tão grande que parece que a ausência tem a consistência de um buraco
no estômago
Se enchemos o estômago para tapar o buraco sem fundo
Se olharmos para dentro do buraco e vemos os nossos olhos a olharem para nós
Se acima de tudo pensamos que não vamos aguentar
Claro que vamos
um dia passa
E não é porque tu voltes dos vivos ou dos mortos
Ou porque o espigão do pé se desintegre
Ou porque a tua ausência se arredonde e deslize pela pele
Ou porque gastamos o cloreto de sódio e só sobra glicose. E lágrimas doces não ardem
Ou porque o buraco do estômago se curou com omeprazol
E sem o buraco nunca mais irás ter onde espreitar
Não é por nada disso.
Apenas a parte de nós que tu criaste
para deixares para trás como um vértice, como um espigão, como uma ferida, como um buraco
Apenas essa parte se extinguiu
Como uma espécie que deixou de ser
para outra que se adapta
e sobrevive-te
que dói a cada passo
se a ausência é tal que parece um polígno impossível cheio de vértices
que nos arranha a pele
Se sobre a pele esfolada derramamos um caudal inteiro de lágrimas incontidas
que nos ardem na ferida
Se a falta é tão grande que parece que a ausência tem a consistência de um buraco
no estômago
Se enchemos o estômago para tapar o buraco sem fundo
Se olharmos para dentro do buraco e vemos os nossos olhos a olharem para nós
Se acima de tudo pensamos que não vamos aguentar
Claro que vamos
um dia passa
E não é porque tu voltes dos vivos ou dos mortos
Ou porque o espigão do pé se desintegre
Ou porque a tua ausência se arredonde e deslize pela pele
Ou porque gastamos o cloreto de sódio e só sobra glicose. E lágrimas doces não ardem
Ou porque o buraco do estômago se curou com omeprazol
E sem o buraco nunca mais irás ter onde espreitar
Não é por nada disso.
Apenas a parte de nós que tu criaste
para deixares para trás como um vértice, como um espigão, como uma ferida, como um buraco
Apenas essa parte se extinguiu
Como uma espécie que deixou de ser
para outra que se adapta
e sobrevive-te
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ainda sobre a adaptação,
Nota mental de sobrevivência
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Abertura 480 and so on
A vida é uma adaptação.
Adapto-me à minha inadequação latente com um desprezo desinteressado.
Como aquela grua que ouço e remato num ponto cruz este bordado pensamento: construções.
E penso como sórdidas as construções de mais pilhas de betão que se erguem no ar.
A grua muge e eu penso: vacas, campo, construções e Homens.
E um enorme desapego se instala em mim.
Construo o meu desinteresse com o som da grua que ouço.
É essa a adaptação última.
Tens medo de ser, opta por dizer que não és.
É cansativo algum estremecimento do sangue.
A violência com que te chamam da cama, para o dia que já começou sem ti
Pensas como será chegar atrasado a esse dia,
Pensas que poderás faltar a esse dia
E a grua range a lembrar que sem ti os Homens esticam-se para o céu
Enquanto te encolhes no sono
Que solução tens senão a adaptação?
Engoles conscientemente a decisão de recusar o dia
Aquela grua, aquele movimento, que não param às tuas ordens
Aquela vida estremecida que te pretende arrancar da latência da tua paragem
Que não param se tu parares
Optas então por desdenhar do movimento
Puxas o lençol sobre a cabeça e adormeces ao som da grua que constrói o dia
à tua revelia
Adapto-me à minha inadequação latente com um desprezo desinteressado.
Como aquela grua que ouço e remato num ponto cruz este bordado pensamento: construções.
E penso como sórdidas as construções de mais pilhas de betão que se erguem no ar.
A grua muge e eu penso: vacas, campo, construções e Homens.
E um enorme desapego se instala em mim.
Construo o meu desinteresse com o som da grua que ouço.
É essa a adaptação última.
Tens medo de ser, opta por dizer que não és.
É cansativo algum estremecimento do sangue.
A violência com que te chamam da cama, para o dia que já começou sem ti
Pensas como será chegar atrasado a esse dia,
Pensas que poderás faltar a esse dia
E a grua range a lembrar que sem ti os Homens esticam-se para o céu
Enquanto te encolhes no sono
Que solução tens senão a adaptação?
Engoles conscientemente a decisão de recusar o dia
Aquela grua, aquele movimento, que não param às tuas ordens
Aquela vida estremecida que te pretende arrancar da latência da tua paragem
Que não param se tu parares
Optas então por desdenhar do movimento
Puxas o lençol sobre a cabeça e adormeces ao som da grua que constrói o dia
à tua revelia
Abertura 480
Ouvi uma coisa este fim-de-semana sobre o facto de todos nós, mesmo sem termos contactado com cobras, termos uma reacção de medo quando vemos uma. A razão apontada seria que, o facto de já termos sido as presas de cobras durante o processo evolutivo, nos traria uma reacção inata de protecção.
Também ouvi algumas explicações sobre a palavra teoria. Como a um nível corrente a teoria ter um cariz de "historieta mais ou menos convincente inventada por fulano" e ao nível científico ser algo construido e sólido.
E a respeito disto tudo tenho as minhas próprias teorias. Que não sendo científicas lá caem na primeira categoria.
Sobre a vida, por exemplo. Penso que a vida de cada um de nós é a justificação que lhe atribuimos em função dos predadores que já nos devoraram e outros medos afins.
Toda a gente teoriza sobre a forma como entende a vida. Mas a verdade é que Darwin, esse sim de teoria em riste, tinha muita razão. E a vida é uma adaptação.
continuo este pensamento amanhã...pois quero dormir rápido, levantar-me cedo e aproveitar um pouco mais de vida
Também ouvi algumas explicações sobre a palavra teoria. Como a um nível corrente a teoria ter um cariz de "historieta mais ou menos convincente inventada por fulano" e ao nível científico ser algo construido e sólido.
E a respeito disto tudo tenho as minhas próprias teorias. Que não sendo científicas lá caem na primeira categoria.
Sobre a vida, por exemplo. Penso que a vida de cada um de nós é a justificação que lhe atribuimos em função dos predadores que já nos devoraram e outros medos afins.
Toda a gente teoriza sobre a forma como entende a vida. Mas a verdade é que Darwin, esse sim de teoria em riste, tinha muita razão. E a vida é uma adaptação.
continuo este pensamento amanhã...pois quero dormir rápido, levantar-me cedo e aproveitar um pouco mais de vida
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Abertura 9 - de febril a fabril
"Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir"
Há dois tipos de escrita em cada um de nós.
A que se cansa pelo esforço da caneta, obrigada a raspar o papel, ou aos toques hesitantes no teclado e a outra, a que trazemos inscrita, num punhado de genes, ou num qualquer fluido corporal etéreo a que não sabemos como classificar e que nem com TAC se vê.
Acredito que o envelhecimento me está a acontecer, pois cada vez menos sinto essa escrita interna e invisível.
Antes não conseguia evita-la.
Tudo agora se resume ao meu segundo tipo de escrita, o cansativo, que exige toques nas teclas e sensação de que as letras já não são as minhas. Chego a ponderar se vale a pena continuar a escrever o que quer que seja, pois faço-o um pouco com uma atitude fabril (e não febril) de quem cumpre uma tarefa na linha de montagem.
Por isso, perdi o jeito de abrir os fechos.
Gostava de falar sobre o desassossego. Mas quando encerro os olhos, entendo tudo e parece que não há nada a dizer.
O meu desassossego é brando como um lume que vai pegando no fundo do tacho mas à superfície não deixa qualquer suspeita.
Ainda o sinto, mas ninguém vê
Há dois tipos de escrita em cada um de nós.
A que se cansa pelo esforço da caneta, obrigada a raspar o papel, ou aos toques hesitantes no teclado e a outra, a que trazemos inscrita, num punhado de genes, ou num qualquer fluido corporal etéreo a que não sabemos como classificar e que nem com TAC se vê.
Acredito que o envelhecimento me está a acontecer, pois cada vez menos sinto essa escrita interna e invisível.
Antes não conseguia evita-la.
Tudo agora se resume ao meu segundo tipo de escrita, o cansativo, que exige toques nas teclas e sensação de que as letras já não são as minhas. Chego a ponderar se vale a pena continuar a escrever o que quer que seja, pois faço-o um pouco com uma atitude fabril (e não febril) de quem cumpre uma tarefa na linha de montagem.
Por isso, perdi o jeito de abrir os fechos.
Gostava de falar sobre o desassossego. Mas quando encerro os olhos, entendo tudo e parece que não há nada a dizer.
O meu desassossego é brando como um lume que vai pegando no fundo do tacho mas à superfície não deixa qualquer suspeita.
Ainda o sinto, mas ninguém vê
A cover a day puts the doctor away #11
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Cry me a river, inicialmente composta para a voz de Ella Fitzgerald é uma música que parece aqueles pratos tradicionais muito bons e que se imagina logo que são uma base neutra para com um twist se transformarem em algo surpreendente. Gosto especialmente destas versões femininas:
- Björk: para mim a incontornável Björk que põe sempre algo mais que a voz em tudo o que canta (e que piano fantástico, a acompanhar!);
- Lisa Ekdahl, cantora sueca, com um jazz luminoso que lembra uma tarde morna ao pôr do sol;
- Julie London, esta versão, apesar de não ser a primeira é aquela que me parece a base mais clean, onde todas as outras adicionaram pitadas de condimentos
- Ella Fitzgerald....se o sorriso não é uma questão de dentes, é aqui bem patente que uma boa interpretação não é uma questão de voz. Nesta voz vivem muitas mais coisas que uma simples vibração de cordas vocais e quando a ouço, ouço mil cambiantes de notas que vão muito além da voz. Como se ao ouvir Ella, ela mesma se fizesse ouvir.
E agora choro um rio inteiro, por ter que ir trabalhar
sábado, 4 de junho de 2011
sexta-feira, 3 de junho de 2011
As intermitências da morte
terça-feira, 17 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
Saturday's - in the mood
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Há uns tempos que sinto que a música diz quase tudo por mim.
Poderia experimentar descansar a voz e ter todas conversas em play.
E play back, para os distraidos que não percebessem à primeira.
A música quando a ouço, diz tudo o que sinto e ainda me faz sentir tudo o que diz.
Para quê ser redundante?
Deste dia em diante e durante 30 dias, farei esta experiência pseudo-psico-antropológica da capacidade de expressão através da música e de regeneração através da música. E a cada dia colocarei uma música "in the mood" que exprima um resumo do meu dia (físico ou mental) e uma música "into the mood" que me encaminhe de outra forma, para onde pretendo que o meu dia vá.
Marlene morganha a caminho
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Sentimental
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Nestes tempos incertos, quero trocar o mundo por um novo só para ti, Francisquinha
Recomponham o mundo
Para a minha menina especial
Reponham a esperança
Segurem o final, o final
Que nela há só o começo
E falta o caminho,
O tropeço, os enganos
A sorte
e todos os planos
Falta o amor, a dor e o desejo
Falta o beijo, o beijo,
Falta o beijo
Sensível, pequena e sentimental
E eu peço, e eu peço
Recomecem o mundo
Do fim ao princípio
Devolvam o sonho
De volta ao início
Pois nos olhos ao fundo
dos olhos
dela
(ela a menina, sensível, pequena e sentimental)
eu vejo
esse desejo profundo
do que falta ainda afinal
Sensível, pequena e sentimental
Tens direito a um mundo
com dias de sol
com dias de sal
e um mar que te lave
do peito, "o tal"
e te inunde o olhar
para acordar refeito
amanhã
Tens direito,
O Direito
de ter ainda um sorriso igual
àquele que hoje trazes perfeito
Menina dos olhos (meus)
Tão Perfeita
Tão sensível
e sentimental
Nestes tempos incertos, quero trocar o mundo por um novo só para ti, Francisquinha
Recomponham o mundo
Para a minha menina especial
Reponham a esperança
Segurem o final, o final
Que nela há só o começo
E falta o caminho,
O tropeço, os enganos
A sorte
e todos os planos
Falta o amor, a dor e o desejo
Falta o beijo, o beijo,
Falta o beijo
Sensível, pequena e sentimental
E eu peço, e eu peço
Recomecem o mundo
Do fim ao princípio
Devolvam o sonho
De volta ao início
Pois nos olhos ao fundo
dos olhos
dela
(ela a menina, sensível, pequena e sentimental)
eu vejo
esse desejo profundo
do que falta ainda afinal
Sensível, pequena e sentimental
Tens direito a um mundo
com dias de sol
com dias de sal
e um mar que te lave
do peito, "o tal"
e te inunde o olhar
para acordar refeito
amanhã
Tens direito,
O Direito
de ter ainda um sorriso igual
àquele que hoje trazes perfeito
Menina dos olhos (meus)
Tão Perfeita
Tão sensível
e sentimental
Com a língua por bandeira
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Crise, tempos difíceis.
A velha lenga-lenga de café de que este país não vai para a frente.
E no entanto, eu que me sentia tão apátrida e tão ingenua-pretensiosamente me considerava cidadã do mundo, depois de deixar de dizer palavras de café e começar a conhecer realmente o mundo, aqui afirmo que não trocava a nossa língua por nenhum Hamburgo próspero.
Nenhuma Merkel, nenhuma alemanha, nenhum alemão, nenhum instituto cientificamente avançado. Nenhum anel de electrões acelerados. Nenhuma radiação energética.
O meu país é a língua portuguesa.
E por mais que políticos execráveis se esforcem por esvaziar os bolsos, o futuro, a ciência ou a esperança, a palavra fica sempre connosco. E ninguém a tem mais bela.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Do(rm)ente
Passei estes últimos 3 dias doente e a dormir. E não sei bem se dormia ou ficava dormente, naquele estado feliz de ausência de sentir. Acordava somente para adormecer mais uma vez.
Lembrei-me muito do Jorge Palma e de como é bom fugir da realidade e viver na terra dos sonhos:
"Na terra dos sonhos podes ser quem tu és
Ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos, toda a gente trata toda a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas
Ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos e escuta bem o coração se queres ir para lá morar"
Eu adapto de uma forma mais literal esta ida à terra dos sonhos "fechando bem os olhos e calando bem o coração" andarei por lá até de manhã, em longas noites que começam ao fim de uma tarde como esta.
até amanhã
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Lembrei-me muito do Jorge Palma e de como é bom fugir da realidade e viver na terra dos sonhos:
"Na terra dos sonhos podes ser quem tu és
Ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos, toda a gente trata toda a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas
Ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos e escuta bem o coração se queres ir para lá morar"
Eu adapto de uma forma mais literal esta ida à terra dos sonhos "fechando bem os olhos e calando bem o coração" andarei por lá até de manhã, em longas noites que começam ao fim de uma tarde como esta.
até amanhã
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segunda-feira, 21 de março de 2011
Ser resiliente
E se ser assertivo for de todo impossível, deliciam-se os psicólogos com aqueles que são resilientes. No fundo, o sentido físico é o de suportar pressões, deformações, sem perder a forma inicial. Imagine-se uma mola humana que é puxada pelas pontas e largada e puxada e largada. Enquanto os puxões forem brutos, mas suportáveis, a mola volta ao sítio, quando largada em sossego. Claro que a elasticidade é perdida com o tempo, e também há limite para o puxão, pelo que é melhor que a mola se acautele para pinchar fora, caso as coisas se tornem incomportávies. Há quem conecte ainda a capacidade de resiliência com a capacidade de sobrevivência, o que de facto faz sentido. Ser resiliente é o escape de sobrevivência daqueles que não conseguem ser assertivos. Se a assertividade fosse uma qualidade não Barbie acessível a qualquer boneco de trazer por casa, o mundo era de facto o reino dos ursinhos cor-de-rosa, onde reinaria a paz e a compreensão, e o diálogo e a partilha e...sei lá que palavras mais feitas de poliéster e made in taiwan. Mas não. É difícil ser-se assertivo fora do Toys r' us ou do mundo encantado dos brinquedos da Leopoldina (que aliás também tem um arzinho de ter batido contra uma árvore e viver agora com algum dano cerebral).
Conclusão: a falta de assertividade compensa-se com uma grande capacidade de resiliência. E quando a pancada é muita e ameaça partir, à nossa espera há sempre o maravilhoso efeito placebo de um Pharmaton e uma música escolhida a dedo, como a que se segue:
Apesar de você, amanhã ha-de ser outro dia
Conclusão: a falta de assertividade compensa-se com uma grande capacidade de resiliência. E quando a pancada é muita e ameaça partir, à nossa espera há sempre o maravilhoso efeito placebo de um Pharmaton e uma música escolhida a dedo, como a que se segue:
Apesar de você, amanhã ha-de ser outro dia
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Nota mental de sobrevivência,
what's the point?
Ser assertivo
Assertividade é a palavra preferida dos psicólogos, se calhar ex aequo com a palavra resiliência.
Diria mesmo que a assertividade está para os psicólogos como o efeito placebo para os farmacêuticos, no sentido de ser um dos exemplos de jargão profissional mais acarinhado.
A verdade é que esta tal "assertividade" me enerva um bocadinho (mais do que isso, enerva-me muitissimo), pois parece a Barbie das qualidades. Se procurarmos significados para a palavra na net deparamo-nos com exemplos como este:
"Imagine que está no seu local de trabalho, muito ocupado com algumas tarefas urgentes e decisivas para o bom funcionamento da empresa. Entretanto o seu chefe vem ter consigo com um problema e pede-lhe, com igual urgência, para fazer uma outra actividade que o ocupará durante várias horas."
Diz o comportamento assertivo:
"Olhe directamente para o seu chefe, explique que o seu tempo está totalmente ocupado e procure saber qual é a prioridade do pedido feito, comparando-a com as outras tarefas que tem a fazer nesse dia.
A seguir, defina com o seu chefe a nova organização das prioridades do seu trabalho, para, nessa altura, decidirem se será você a pessoa mais indicada para dar resposta à necessidade entretanto surgida."
Aããh?? Em que mundo se passa isto? Com certeza no mundo dos ursinhos cor-de-rosa, ou das montanhas de algodão doce. Talvez no Toys r' us morem peluches assertivos. E mesmo assim desconfio um bocado, aquela Hello Kitty nunca me enganou!
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Diria mesmo que a assertividade está para os psicólogos como o efeito placebo para os farmacêuticos, no sentido de ser um dos exemplos de jargão profissional mais acarinhado.
A verdade é que esta tal "assertividade" me enerva um bocadinho (mais do que isso, enerva-me muitissimo), pois parece a Barbie das qualidades. Se procurarmos significados para a palavra na net deparamo-nos com exemplos como este:
"Imagine que está no seu local de trabalho, muito ocupado com algumas tarefas urgentes e decisivas para o bom funcionamento da empresa. Entretanto o seu chefe vem ter consigo com um problema e pede-lhe, com igual urgência, para fazer uma outra actividade que o ocupará durante várias horas."
Diz o comportamento assertivo:
"Olhe directamente para o seu chefe, explique que o seu tempo está totalmente ocupado e procure saber qual é a prioridade do pedido feito, comparando-a com as outras tarefas que tem a fazer nesse dia.
A seguir, defina com o seu chefe a nova organização das prioridades do seu trabalho, para, nessa altura, decidirem se será você a pessoa mais indicada para dar resposta à necessidade entretanto surgida."
Aããh?? Em que mundo se passa isto? Com certeza no mundo dos ursinhos cor-de-rosa, ou das montanhas de algodão doce. Talvez no Toys r' us morem peluches assertivos. E mesmo assim desconfio um bocado, aquela Hello Kitty nunca me enganou!
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quinta-feira, 17 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
O país da delicadeza perdida
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Há dias que por cansaço ou por desencanto, nenhuma das técnicas treinadas para ver o mundo por uns óculos de lentes coloridas surte efeito.
E nessa altura, nem sequer percebemos se a chuva que açoita a janela é a mesma da que nos arde nos olhos.
Não sei se estes dias são iguais aqueles em que me contorcia com dores nas pernas e em que a minha tia me dizia que eram as dores do crescimento. Talvez sejam as dores da maturação, do envelhecimento.
É assim uma espécie de chegada ao lugar da delicadeza perdida. Onde finalmente aterramos depois de há tanto tempo carregarmos ao peito uma arca de desencantos. Há dias que a arca enche e a dor é apenas conformada, cansada, ansiosa pelo conforto básico de uma cama razoavelmente quente e de um sono asséptico sem sombra de sonhos.
terça-feira, 8 de março de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
Diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és #2
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De Angus and Julia Stone, dois manos australianos que o meu mano me disse que ia gostar. Mais uma vez acertou.
sexta-feira, 4 de março de 2011
It's been a long time
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Well it's been a long time, long time now
Since I've seen you smile
And I'll gamble away my fright
And I'll gamble away my time
And in a year, a year or so
This will slip into the sea
Well it's been a long time, long time now
Since I've seen you smile
Nobody raise their voices
Just another night in Nantes
Nobody raise their voices
Just another night in Nantes
Contos de Tchékhov
A um ritmo lento de caracol, só agora dois meses depois do Natal acabei os contos de Tchékhov (volume IV). Em minha defesa digo que li também a bibliografia do José do Canto e as cartas a um jovem poeta, mas 2 meses é muito tempo para tão poucas leituras.
O que é certo é que há livros que também prolongamos por nos saberem bem, como um doce que deixamos derreter na boca.
Os Contos começaram por me fazer muito frio, porque há ali muito material humano de um Rússia agreste de invernos rigorosos, mas aos poucos fui ficando cada vez mais fascinada. Tchékhov tem o poder de centrar a atenção não em enredos do qual as personagens são meros peões, mas nas personagens, onde o enredo é só um pretexto. E assim não espere quem o lê encontrar histórias e desfechos. Não se trata disso, porque a vida também não é assim. Na nossa vida também não há uma cortina que se fecha com um fim aplaudido. E os contos são uma maravilhosa transposição de bocados de vidas. As pessoas descritas são mesmo pessoas, dessas que temos a certeza existirem, tal a dimensão e complexidade que apresentam. E o enredo é mesmo essa malha humana, esse caractér de cada personagem, extremamente vivo e verosímil.
Senti-me neste livro a fazer uma das coisas que mais gosto de fazer. A espreitar vidas de outras pessoas.
Chamem-me cusca, mas às vezes estou num café ou num restaurante e sinto vida a sair das outras mesas. Dou por mim a prestar atenção a conversas de pessoas estranhas e entretenho-me com aqueles retalhos do cotidiano. Os contos de Tchékhov são exactamente janelas por onde se espreita e apanha de repente pessoas que vivem e se cruzam connosco. Quando fechei o livro tive a certeza que aquelas vidas continuaram os seus caminhos. A Pelagueia continua a espreitar o Egor Vlássitch e a sonhar com um pouco da sua atenção e ele continua a ostentar a roupa oferecida com a mesma pobreza de Pelagueia, mas com a ilusão de um distanciamento muito grande daquela realidade a que finge não pertencer. E se virar a cara ainda encontro novamente Savka, naquele papel de passageiro pela própria vida, com o desprendimento de toda a culpa e a desvantagens de não sentir dor (já vi tantos como ele, meros figurantes dos próprios dias).
E se abrir o livro quando ele não esperar acho que encontrarei a filha da Zinaida Fiodorovna, talvez a sofrer da anestesia do espírito num bordel, onde levará os homens a pagarem-lhe bebidas. E talvez Vassiliev a veja e deixe de dormir com o peso de ver almas moribundas. E se vasculhar bem, verei o Orlov escondido que nem um rato, no seu esgar de ironia com que despreza o mundo( um pouco como o Savka, mas versão citadina e polida com leituras).
E sei que de rompante verei o Laptev a ver o amigo a ver a mulher. E vendo a mulher vista pelos olhos de quem a vê e ama, talvez Laptev a volte a amar e ver.
Fecho os contos mas deixo a porta encostada, pois talvez eu um dia volte e os apanhe a todos e um-a-um desprevenidos a viver dentro do livro.
O que é certo é que há livros que também prolongamos por nos saberem bem, como um doce que deixamos derreter na boca.
Os Contos começaram por me fazer muito frio, porque há ali muito material humano de um Rússia agreste de invernos rigorosos, mas aos poucos fui ficando cada vez mais fascinada. Tchékhov tem o poder de centrar a atenção não em enredos do qual as personagens são meros peões, mas nas personagens, onde o enredo é só um pretexto. E assim não espere quem o lê encontrar histórias e desfechos. Não se trata disso, porque a vida também não é assim. Na nossa vida também não há uma cortina que se fecha com um fim aplaudido. E os contos são uma maravilhosa transposição de bocados de vidas. As pessoas descritas são mesmo pessoas, dessas que temos a certeza existirem, tal a dimensão e complexidade que apresentam. E o enredo é mesmo essa malha humana, esse caractér de cada personagem, extremamente vivo e verosímil.
Senti-me neste livro a fazer uma das coisas que mais gosto de fazer. A espreitar vidas de outras pessoas.
Chamem-me cusca, mas às vezes estou num café ou num restaurante e sinto vida a sair das outras mesas. Dou por mim a prestar atenção a conversas de pessoas estranhas e entretenho-me com aqueles retalhos do cotidiano. Os contos de Tchékhov são exactamente janelas por onde se espreita e apanha de repente pessoas que vivem e se cruzam connosco. Quando fechei o livro tive a certeza que aquelas vidas continuaram os seus caminhos. A Pelagueia continua a espreitar o Egor Vlássitch e a sonhar com um pouco da sua atenção e ele continua a ostentar a roupa oferecida com a mesma pobreza de Pelagueia, mas com a ilusão de um distanciamento muito grande daquela realidade a que finge não pertencer. E se virar a cara ainda encontro novamente Savka, naquele papel de passageiro pela própria vida, com o desprendimento de toda a culpa e a desvantagens de não sentir dor (já vi tantos como ele, meros figurantes dos próprios dias).
E se abrir o livro quando ele não esperar acho que encontrarei a filha da Zinaida Fiodorovna, talvez a sofrer da anestesia do espírito num bordel, onde levará os homens a pagarem-lhe bebidas. E talvez Vassiliev a veja e deixe de dormir com o peso de ver almas moribundas. E se vasculhar bem, verei o Orlov escondido que nem um rato, no seu esgar de ironia com que despreza o mundo( um pouco como o Savka, mas versão citadina e polida com leituras).
E sei que de rompante verei o Laptev a ver o amigo a ver a mulher. E vendo a mulher vista pelos olhos de quem a vê e ama, talvez Laptev a volte a amar e ver.
Fecho os contos mas deixo a porta encostada, pois talvez eu um dia volte e os apanhe a todos e um-a-um desprevenidos a viver dentro do livro.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és
Já conhecia e gostava deste grupo Beirut com influências de música dos Balcãs. É óbvio para mim que dos Balcãs vêm sempre ritmos e imagens que me despertam. Gosto muito do Emir kusturika, por exemplo.
Mas mesmo assim fascina-me essa ideia que da diversidade imensa do mundo, há coisas que se destacam para nós e talvez não para os outros e é essa atenção dirigida que define a nossa assinatura, o nosso "estilo".
Esta música enviou-me o meu irmão dizendo "sei que vais gostar". E fiquei a pensar no apeiron de onde parte tudo o que somos, cada um de nós. Parece que, para quem me conhece e conhece o que gosto, isso é suficiente para saber que eu vou gostar de algo que posso até desconhecer. Ou seja, mesmo que eu não fale muito, o meu molho de cds dirá tudo por mim (eu já desconfiava).
Send me now, the winter's over
Life turns sour and we are older
The love we've had will turn all over
The gold went south and we are older
Oh when tides broke (you walked now)
On a night like this we walked around
no but I, I won't have you anymore
no and I, I can't have you anymore
And some days we're all alone on the banks of the Rhine
And some days all we had was our barrels of wine
The salt in the sea brings us near, shows us what's to find
And some days all we had was our barrels of wine
Mas mesmo assim fascina-me essa ideia que da diversidade imensa do mundo, há coisas que se destacam para nós e talvez não para os outros e é essa atenção dirigida que define a nossa assinatura, o nosso "estilo".
Esta música enviou-me o meu irmão dizendo "sei que vais gostar". E fiquei a pensar no apeiron de onde parte tudo o que somos, cada um de nós. Parece que, para quem me conhece e conhece o que gosto, isso é suficiente para saber que eu vou gostar de algo que posso até desconhecer. Ou seja, mesmo que eu não fale muito, o meu molho de cds dirá tudo por mim (eu já desconfiava).
Send me now, the winter's over
Life turns sour and we are older
The love we've had will turn all over
The gold went south and we are older
Oh when tides broke (you walked now)
On a night like this we walked around
no but I, I won't have you anymore
no and I, I can't have you anymore
And some days we're all alone on the banks of the Rhine
And some days all we had was our barrels of wine
The salt in the sea brings us near, shows us what's to find
And some days all we had was our barrels of wine
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a bom entendedor uma música basta,
In the mood
sábado, 26 de fevereiro de 2011
And now for something completely different: a man with a multiple head
Antes de ter que mergulhar outra vez no trabalho, um desejo súbito de ser um Frankenstein e construir esta criatura
domingo, 20 de fevereiro de 2011
E se eu entornasse agora um pouco de sol neste dia tão escuro
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Um pouco mais de sabor às férias tão distantes com Baby de Devendra Banhart.
Ideal para ouvir ao Domingo.
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só o domingo me deita abaixo,
Tomar em altas doses
Dance me to the end of love ou a cover a day puts your sanity miles away
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Quando ouvi a versão do "Dance me to the end of love" (1ª música) na rádio pensei: como é que é possível? A música é do Leonard Cohen de 1984 e estou a ouvi-la cantada pela Billie Holiday que faleceu em 1959? Pensei que estava a ter um momento de transcendência, mas antes de ouvir o assobiozinho dos ficheiros secretos a entoar, percebi que afinal era a cover da Madeleine Peyrox que faz lembrar tanto, tanto a Billie Holiday.
Com a sanidade reposta e com um misto de desilusão, pela Billie não ter voltado do lado de lá só para me cantar naquela voz de veludo e de alegria por ter descoberto (sim não conhecia Madeleine Peyrox, às vezes ando distraida) uma Billie clone holiday tenho a dizer que adoro esta cover. Adoro. Adoro.
Quando ouvi a versão do "Dance me to the end of love" (1ª música) na rádio pensei: como é que é possível? A música é do Leonard Cohen de 1984 e estou a ouvi-la cantada pela Billie Holiday que faleceu em 1959? Pensei que estava a ter um momento de transcendência, mas antes de ouvir o assobiozinho dos ficheiros secretos a entoar, percebi que afinal era a cover da Madeleine Peyrox que faz lembrar tanto, tanto a Billie Holiday.
Com a sanidade reposta e com um misto de desilusão, pela Billie não ter voltado do lado de lá só para me cantar naquela voz de veludo e de alegria por ter descoberto (sim não conhecia Madeleine Peyrox, às vezes ando distraida) uma Billie clone holiday tenho a dizer que adoro esta cover. Adoro. Adoro.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
A cover a day puts the doctor away #10
Telephone call from Istambul
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Da cover dos belle chase hotel, acho graça aos "rrr" à frrrancesa. Gosto muito dos belle chase hotel, no entanto esta cover diverte, mas não distrai do verdadeiro telefonema protagonizado por Tom Waits. Nele acho graça a tudo. Que música mais electrizante! É das tais que figuram nas cassetes temáticas para me porem de feição. Esta põe-me in the mood for dance. E in the mood para atender o telefone. Se estes dois telefones tocassem, sem dúvida que atenderia o segundo. E como diz o Chico Buarque: penteava-me para atender.
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Da cover dos belle chase hotel, acho graça aos "rrr" à frrrancesa. Gosto muito dos belle chase hotel, no entanto esta cover diverte, mas não distrai do verdadeiro telefonema protagonizado por Tom Waits. Nele acho graça a tudo. Que música mais electrizante! É das tais que figuram nas cassetes temáticas para me porem de feição. Esta põe-me in the mood for dance. E in the mood para atender o telefone. Se estes dois telefones tocassem, sem dúvida que atenderia o segundo. E como diz o Chico Buarque: penteava-me para atender.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Ainda sobre os filmes, os artistas, a imortalidade ou sob o efeito do licor de chocolate
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Eu aprendo muitas coisas nos filmes. Talvez porque seja fácil me manipularem com algumas imagens bem alinhadas e uma música de feição. Tal como escrevi atrás descobri que se consegue dar a volta ao meu cérebro com alguma facilidade. Claro que eu descobri isso como pura necessidade e instinto de sobrevivência. Aprendi a conduzir as emoções quando elas eram tão avassaladoras que me prostravam e me tolhiam as acções. Hoje em dia é difícil voltar a resvalar nessa tendência mental para a tristeza. Mal lhe sinto o cheiro, guino à direita e faço inversão de marcha. E depois penso, se eu sou capaz de fazer isso a mim mesma de uma forma tão consciente, não serão também capazes os "artistas" do mesmo? Claro que sim. É essa a diferença de ser artista, bom escritor, bom realizador, bom músico. É possuir universalidade e atingir o ser humano naquilo que o torna ser humano. Desconstruir tanto ao ponto de perceber qual o ponto que tocando dói a todos. Esse é o segredo para a imortalidade: a universalidade.
Por isso dizer: aprendo muitas coisas nos filmes é o mesmo que dizer: os filmes ensinam-me tudo aquilo que querem que eu saiba.
Isto tudo para falar de outro dos meus filmes preferidos: "fala com ela" do Almodovar. Se eu descrevesse o filme num tom asséptico de lista de compras do supermercado eu diria: trata-se de um filme que conta a história de um enfermeiro que engravida uma mulher que estava em coma e aos seus cuidados. O enfermeiro vivia sozinho com a mãe. A mulher desperta do coma e o enfermeiro é preso.
O que se pensaria daqui? Que horror. Que homem monstruoso. Que oportunismo de uma situação frágil. Que pessoa ridícula, cuja acção apenas existe com aqueles que não podem reagir.
Mas a mestria é tanta, que nada disto nos horroriza, ao ponto de percebermos perfeitamente o ponto de vista do enfermeiro.
Somos ou não manipuláveis?
Quem não acredite que experimente ver este filme....e de seguida em dose dupla, aproveite e veja o "Morte em Veneza". Garanto que a tinta do cabelo a escorrer ao sol é capaz de apagar qualquer repulsa à vertente pedófila do personagem.
Em todos os filmes que me tocam sei que aquilo que toca mais fundo é a sensação de identificação. É conseguir focar o aspecto mais humano e até mais ridículo, no sentido de mais exposto, de tão nu que dá pena, que comove e que nos faz entender aquela mensagem como vinda de dentro de nós mesmos.
A imortalidade
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No livro a imortalidade de Milan Kundera, o tema transversal é mesmo o próprio título do livro. O que é que subsiste de nós? A imortalidade que todos almejamos é conquistada por muitos, não no sentido literal, de também eles terem deixado de morrer (boa tentativa Saramago), mas no sentido de alcançarem, sem a presença física, a proeza de lembrarem aos outros que existiram. Porque quer queiramos quer não, longe da vista é mesmo longe do coração e, permanecer no imaginário daqueles que não partilham o mundo connosco, é algo muito especial. Eu vejo um pouco a imortalidade num sentido menos lato. Digamos que, no sentido da minha pequena vidinha, e com o prazo de validade da sua duração, há um sem número de coisas imortais. Porque mesmo não as tendo mais ao alcance da mão, estão em mim inscritas na pedra, indeléveis.
Há coisas aparentemente banais como gestos de pessoas e até tiques. Há fotogramas de momentos, como a visualização de um gato ao colo que me fazia enternecer tanto com a seguinte imagem: duas espécies diferentes e um instante de absoluta comunhão e puro entendimento.
E depois há esta coisa maravilhosa que é a capacidade de um artista sair do outro lado do mundo para nos tocar, onde nós não entendemos ser possível, e nos mudar para sempre.
A imortalidade no domínio que é a minha pequena vidinha são filmes como o "In the mood for love". Já aqui escrevi sobre esta cena do filme que me fascinou tanto. Mas o filme é todo ele fascinante e imortal. Imortal, porque renasce em mim inúmeras vezes. Dou comigo a pensar nele em várias perspectivas possíveis. E desde que o vi, nunca parou de dialogar comigo
Mezinhas caseiras para maleitas da cabeça
Tentando fazer uso da psicologia de bolso, ou das brilhantes edições do especialista instantâneo apetece-me agora aqui explanar sobre a influência da música no comportamento humano.
Esta dicotomia música-comportamento é um pouco mais complexa que o observador mais incauto possa pensar. Sim, porque nenhum sistema é observável sem alguma perturbação do sistema pelo observador, por isso aqui salvaguardo já a minha parte dizendo se não pensam o mesmo que eu, é porque a dioptria aumentou e estão a distorcer isto tudo.
Bem, então eu acredito, creio ou tenho a convicção (que chatice, agora apetecia-me abandonar este post enfadonho para explanar sobre a diferença entre a crença, o acreditar e o estar convicto) que as músicas alteram o nosso humor e que se isso for reconhecido, temos no nosso poder uma arma poderosíssima para nos "pormos de feição" (ai como adoro esta expressão) para fazermos alguma coisa. Por exemplo, quando eu era muito jovem e a vida para mim era um mistério (entra agora a banda sonora sonhadora...precisa ter violinos e talvez alguma harpa, porque o sonho coaduna-se sempre com estes instrumentos) eu comecei a gravar as cassetes temáticas (agora mais de metade da gente que frequenta a internet e que não frequenta este blog, na hipótese remota de ler este post diria...cassetes? wtf?). Pois essas cassetes constavam de música agrupada aos molhos de intenções. Havia a intenção de ficar bem-disposta perante a adversidade do mundo cruel e lá punha eu a cassete x a tocar no gravador do peugeot 205. E daí a perceber que o meu cérebro era uma criança manipulável com meia dúzia de guloseimas, foi um instante. Assim surgiu esta minha crença do in the mood. Consigo dirigir a minha disposição com algumas músicas bem escolhidas. Claro que por vezes, o tamanho do everest que se sentou ao nosso colo é tal que nem uma música o consegue demover e nesse caso, o exagero de boa disposição musical pode ser uma ofensa, mais do que uma cura. Pode-nos dar uma vontade de esganar o mundo inteiro, apenas porque uma música é exageradamente optimista. Assim sendo, há que ir com moderação e ouvir coisas cada vez menos negras até ao ponto de equilíbrio, onde sabemos que do outro lado do passeio está um dia bom e atravessa-lo custa tanto quanto deixar que o sinal mude para verde.
Com um pouco de treino, garanto-vos que vocês conseguem condicionar o vosso cérebro a deixar de pensar no que não querem. E quando descobrem os melindres e as subtilezas da vossa disposição sentem-se donos de um poder imenso.
Se nada resultar, um copo de licor de chocolate também tem sido descrito como potencialmente útil ao controlo da disposição
Esta dicotomia música-comportamento é um pouco mais complexa que o observador mais incauto possa pensar. Sim, porque nenhum sistema é observável sem alguma perturbação do sistema pelo observador, por isso aqui salvaguardo já a minha parte dizendo se não pensam o mesmo que eu, é porque a dioptria aumentou e estão a distorcer isto tudo.
Bem, então eu acredito, creio ou tenho a convicção (que chatice, agora apetecia-me abandonar este post enfadonho para explanar sobre a diferença entre a crença, o acreditar e o estar convicto) que as músicas alteram o nosso humor e que se isso for reconhecido, temos no nosso poder uma arma poderosíssima para nos "pormos de feição" (ai como adoro esta expressão) para fazermos alguma coisa. Por exemplo, quando eu era muito jovem e a vida para mim era um mistério (entra agora a banda sonora sonhadora...precisa ter violinos e talvez alguma harpa, porque o sonho coaduna-se sempre com estes instrumentos) eu comecei a gravar as cassetes temáticas (agora mais de metade da gente que frequenta a internet e que não frequenta este blog, na hipótese remota de ler este post diria...cassetes? wtf?). Pois essas cassetes constavam de música agrupada aos molhos de intenções. Havia a intenção de ficar bem-disposta perante a adversidade do mundo cruel e lá punha eu a cassete x a tocar no gravador do peugeot 205. E daí a perceber que o meu cérebro era uma criança manipulável com meia dúzia de guloseimas, foi um instante. Assim surgiu esta minha crença do in the mood. Consigo dirigir a minha disposição com algumas músicas bem escolhidas. Claro que por vezes, o tamanho do everest que se sentou ao nosso colo é tal que nem uma música o consegue demover e nesse caso, o exagero de boa disposição musical pode ser uma ofensa, mais do que uma cura. Pode-nos dar uma vontade de esganar o mundo inteiro, apenas porque uma música é exageradamente optimista. Assim sendo, há que ir com moderação e ouvir coisas cada vez menos negras até ao ponto de equilíbrio, onde sabemos que do outro lado do passeio está um dia bom e atravessa-lo custa tanto quanto deixar que o sinal mude para verde.
Com um pouco de treino, garanto-vos que vocês conseguem condicionar o vosso cérebro a deixar de pensar no que não querem. E quando descobrem os melindres e as subtilezas da vossa disposição sentem-se donos de um poder imenso.
Se nada resultar, um copo de licor de chocolate também tem sido descrito como potencialmente útil ao controlo da disposição
Etiquetas:
Nota mental de sobrevivência,
what's the point?
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Violino dança o tango
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Gidon Kremer - Astor Piazzolla Tango Etude No.3
E para terminar o dia, o assombroso violino que se insinuou dentro do tango de Piazzola. Há fusão mais bela?
Oxalá electrónico
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Gosto muito desta versão electrónica do Oxalá dos Madredeus, mais ainda que o original que me soa um pouco doce demais. A fusão da doçura muito redonda com os tons electrónicos mais rectos, é como uma correcção de um tempero do tipo: um brigadeiro com um café
Um tango al revés
Vivemos numa época onde os contornos se esbatem e as diferenças de culturas distantes se ultrapassam com uma simples pesquisa na net.
Na moda, o animal print saltou de Africa para os cabides da H&M. Prolifera a comida de fusão que proporciona encontros improváveis do gourmet ocidental com o exótico do oriente. Dispensamos a pescada em filete, mas comemos sushi armados de pauzinhos como se soubessemos o que estamos a fazer.
E a música também se funde: instrumentos inusitados imiscuem-se em melodias conhecidas; estilos misturam-se e o etnico, popular ou clássico vem juntar-se à música electrónica, ao pop, ao rock, ao indie-rock.
Gotan Project é um tango al revés e é uma destas fusões sem cisão que eu gosto muito de ouvir.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Revolutionary road versus revolutionary road
O livro é muito bom.
E o filme é igualmente muito bom.
Só o vi um ano depois de ler o livro, adiando sempre o que achei que seria uma desilusão. Mas não, o Frank e a April dos actores DiCaprio e Winslet estão muito bem representados.
Se comparações se podem fazer e alguma coisa falhou, entendo que seja por não caber tudo no filme. Coube o importante.
No livro há mais detalhe em pormenores de diletantismo, como a tarefa empreendida por Frank (e inacabada) de construir um caminho para a casa em lajes de pedra. Há ainda alguma maior amargura na maneira como o Frank lida com a amante colega de trabalho, que no filme não é tão evidente. Sabemos apenas que ele acabou com a relação quando diz a April.
Algo que eu tenho pena de não ter sido bem explorado foi a vizinha chata que lhes vendeu a casa. No livro, a vizinha que aparece muitas vezes é quase a materialização das frustrações do casal e, apesar de cheia de amabilidades, não sabemos se ela é honesta no desejo de os visitar e presentear, ou se visa apenas deitar o olho à forma como vivem. A certa altura no livro pareceu-me que a senhora era genuinamente simpática, mas talvez a sua simpatia e servilismo com que quase rastejava perante os Wheelers os fizesse odia-la, pois era a personificação daquela vida plástica, falsamente feliz e agradável. No filme isso não foi explorado, e apenas numa cena brilhante da Kate Winslet se percebe a repugnância que April mostra à oferta de uma flor que a vizinha lhe traz. Mas é tudo muito subtil e se não tivesse lido o livro se calhar escapava-me. Aliás há uma cena muito engraçada do livro em que o marido da dita senhora (não me lembro do nome dela) desliga o aparelho auditivo para não a ouvir. No filme essa cena aparece um pouco descabida. Penso que é porque no filme, exceptuando o casal Wheeler, as restantes personagens não têm tempo de ganhar mais profundidade. Têm poucas cenas e por exemplo, no caso desta vizinha, não se percebe muito bem o seu espírito inoportuno e metidiço. E é uma pena, porque no livro esta parte traz ainda mais riqueza aquele tapete emocional. O mesmo poderia dizer do casal amigo, que no livro ganha outra dimensão.
Mas esta opinião apenas reforça a minha ideia de que um bom livro não cabe num filme. E neste caso, mesmo ficando muito livro de fora, sobrou um excelente filme.
Revolutionary road de Richard Yates
Muito se diz sobre o facto de este livro retratar a apatia da vida nos subúrbios dos EUA. Mas na verdade, apesar de bem localizado geograficamente, o livro situa-se muito mais na densidade psicológica de qualquer pessoa, do que na casinha no alto de um cume em revolutionary road.
Frank e April são um casal jovem, bonito e cuja união se fez por aquela sensação de que algo neles era especial, diferente, promissor.
À boa maneira da geração promissora, mas diletante dos Maias de Eça de Queirós, também April e Frank vivem suspensos na sua distinção social que faz com que olhem todos os seus vizinhos e até o casal de amigos mais chegado, com alguma sobranceria. Frank é o género de homem encantador, que não sabendo nada sobre nada, sempre se distinguiu pela graça do discurso e por uma certa irreverência. Todos lhe auspiciavam um futuro brilhante e indefinido, pois não parecia ser possível idealiza-lo em tarefas mundanas. April é a mulher que se destaca. Bonita, misteriosa e com um discurso igualmente apelativo. Este pack completo de mulher incontornável parecia igualmente destinado a um não sei quê de auspicioso, tanto mais que April estudava teatro e conhecera Frank.
Todos (incluindo April e Frank) previam um amanhã de deslumbre para este casal. Algo fazia crer, que o hoje deles, bem longinquo dessa visão, era apenas um ensaio, uma passagem. Ninguém acredita que Frank e April sejam reais, nem eles mesmos. Os vizinhos e amigos rondam-nos como borboletas em torno da luz, na tentativa de aproveitarem a sua passagem terrena. Mas a imaterialização do desejo de serem as promessas que semearam, torna-se cada vez mais pesada. Primeiro April sente na pele o fracasso de uma peça representada num teatro de bairro. Ela April, tão igual a todos os outros. Tão sem graça, tão teatral, tão sem propósito. April desespera com a possibilidade de ser apenas assim. Onde estão as promessas? Os sonhos? As infinitas possibilidades que lhe pareciam destinadas? Frank que não foi posto à prova sente uma certa repugnância. É difícil ao casal voltar a desprezar os outros se ali April está no lugar deles.
Prestes a descarrilarem do carrocel das ilusões, April ela mesma pretende resgatar quem eram, ou o que nunca foram, mas serão, ou o que não serão, mas seriam, ou o que desejam. Tudo é indefinido, apenas resta uma certeza, o problema não é deles. O problema é dos outros, daquela vizinha excessivamente atenciosa que lhes ronda a casa, daquele casal excessivamente vulgar que os deixa exaustos, daquele lugar excessivamente igual que não os distingue. Há um certo conforto mental quando o casal retira a culpa dos ombros e passa a assumir que o problema é do lugar. Ali todas as Aprils e todos os Franks falham nas suas vidas e nas peças de teatro. Só serão felizes num outro lugar, onde as coisas sejam mesmo reais e não este mundo de fantochada e passagem que eles vivem à espera que as promessas se cumpram. Encetam então num plano familiar de irem para Paris e lá se reinventarem.
April toma as rédeas desse desejo. Frank, mais do que desejar, deseja o desejo. E com o pequeno impulso que a ideia de se ver a planear um futuro em Paris lhe dá, Frank brilha novamente aquela aura de possibilidades que o ajudam a conquistar simpatias na Empresa, até dos directores. Frank deixa então de depender da simbiose que tem com April para se sentir brilhante. Lá fora, outros alimentam essa chama. Os colegas, uma amante, o patrão.
Frank começa a desejar que apenas se deseje para sempre, mas não se concretize. E April, sem querer, dá-lhe a oportunidade (a desculpa) para que isso aconteça. April engravida e isso deita a perder os planos de mudança. Frank fica aliviado e finge que não. April finge-se resignada. Tudo aparenta voltar à normalidade, até que April tenta uma última vez. Morre a tentar
Frank e April são um casal jovem, bonito e cuja união se fez por aquela sensação de que algo neles era especial, diferente, promissor.
À boa maneira da geração promissora, mas diletante dos Maias de Eça de Queirós, também April e Frank vivem suspensos na sua distinção social que faz com que olhem todos os seus vizinhos e até o casal de amigos mais chegado, com alguma sobranceria. Frank é o género de homem encantador, que não sabendo nada sobre nada, sempre se distinguiu pela graça do discurso e por uma certa irreverência. Todos lhe auspiciavam um futuro brilhante e indefinido, pois não parecia ser possível idealiza-lo em tarefas mundanas. April é a mulher que se destaca. Bonita, misteriosa e com um discurso igualmente apelativo. Este pack completo de mulher incontornável parecia igualmente destinado a um não sei quê de auspicioso, tanto mais que April estudava teatro e conhecera Frank.
Todos (incluindo April e Frank) previam um amanhã de deslumbre para este casal. Algo fazia crer, que o hoje deles, bem longinquo dessa visão, era apenas um ensaio, uma passagem. Ninguém acredita que Frank e April sejam reais, nem eles mesmos. Os vizinhos e amigos rondam-nos como borboletas em torno da luz, na tentativa de aproveitarem a sua passagem terrena. Mas a imaterialização do desejo de serem as promessas que semearam, torna-se cada vez mais pesada. Primeiro April sente na pele o fracasso de uma peça representada num teatro de bairro. Ela April, tão igual a todos os outros. Tão sem graça, tão teatral, tão sem propósito. April desespera com a possibilidade de ser apenas assim. Onde estão as promessas? Os sonhos? As infinitas possibilidades que lhe pareciam destinadas? Frank que não foi posto à prova sente uma certa repugnância. É difícil ao casal voltar a desprezar os outros se ali April está no lugar deles.
Prestes a descarrilarem do carrocel das ilusões, April ela mesma pretende resgatar quem eram, ou o que nunca foram, mas serão, ou o que não serão, mas seriam, ou o que desejam. Tudo é indefinido, apenas resta uma certeza, o problema não é deles. O problema é dos outros, daquela vizinha excessivamente atenciosa que lhes ronda a casa, daquele casal excessivamente vulgar que os deixa exaustos, daquele lugar excessivamente igual que não os distingue. Há um certo conforto mental quando o casal retira a culpa dos ombros e passa a assumir que o problema é do lugar. Ali todas as Aprils e todos os Franks falham nas suas vidas e nas peças de teatro. Só serão felizes num outro lugar, onde as coisas sejam mesmo reais e não este mundo de fantochada e passagem que eles vivem à espera que as promessas se cumpram. Encetam então num plano familiar de irem para Paris e lá se reinventarem.
April toma as rédeas desse desejo. Frank, mais do que desejar, deseja o desejo. E com o pequeno impulso que a ideia de se ver a planear um futuro em Paris lhe dá, Frank brilha novamente aquela aura de possibilidades que o ajudam a conquistar simpatias na Empresa, até dos directores. Frank deixa então de depender da simbiose que tem com April para se sentir brilhante. Lá fora, outros alimentam essa chama. Os colegas, uma amante, o patrão.
Frank começa a desejar que apenas se deseje para sempre, mas não se concretize. E April, sem querer, dá-lhe a oportunidade (a desculpa) para que isso aconteça. April engravida e isso deita a perder os planos de mudança. Frank fica aliviado e finge que não. April finge-se resignada. Tudo aparenta voltar à normalidade, até que April tenta uma última vez. Morre a tentar
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Do facebook e outros demónios
Quando em relação aos acontecimentos periódicos do post anterior tentava pensar num "a mim tudo me acontece", o meu pai serenamente deu-me um conselho como quem diz: deixa-te lá de fatalidades e organiza as tuas prioridades e o teu dia.
E eu fiquei a pensar que ele tem razão, claro. E eu sei que ele tem razão, mas independentemente de saber, os meus dias são na verdade um pouco caóticos. Pois como não tenho tempo para tudo e não estabeleço prioridades, faço tudo à custa de dormir/descansar menos.
Por isso talvez o meu "asco" ao facebook e aquela coscuvilhice diária de pessoas que dizem a cada passo onde estão, onde vão e onde querem ir e de pessoas que vão ver a página das pessoas que dizem isso. Eu não me interesso por isso. Eu estou-me nas tintas para isso. Eu não tenho tempo para isso (soa arrogante, não é? a falta de tempo dá-nos a arrogância de termos que desprezar algumas coisas). É claro que sei que há pessoas que fazem um uso diferente do facebook, mas também é claro para mim que essas pessoas não são a maioria. E também é claro para mim que já há tanta coisa que sei que gosto e não tenho tempo de fazer...por que motivo iria eu ter uma página e lançar-me em mais uma actividade a que não iria prestar atenção?
E é verdade que escrevo aqui meia dúzia de balelas...ou como o meu colega que tanto se indigna que eu deteste visceralmente o facebook dizia: "também se pode ter um blog e escrever coisas perfeitamente anormais (ou absurdas) nele". Não sei se ele estava a referir-se ao que eu aqui escrevo, nem quero saber. O que eu aqui escrevo são apenas retalhos de algumas coisas que me ajudam a pensar que também vivo. O que eu aqui escrevo é precisamente uma tentativa de deixar guardado em algum lugar quem eu sou, o que gosto e penso. Para que no meu esquecimento constante das prioridades da minha vida, não me vá esquecer também de mim, no processo.
E se mais argumentos não hajam aqui afirmo peremptoriamente uma série de razões muito convincentes e irrefutáveis para explicar porque detesto o facebook:
- Não gosto do "look" azul e branco das páginas...e aquela fonte de letra é qual? arghhh
- Gosto daquela ideia romântica de que não se deve mexer muito com as memórias boas. Porquê descobrir que "aqueles amigos daquele tempo" afinal não são bem como imaginavamos? O facebook serve para isso, para acabar com encantos e eu cá já sofri a desilusão de um dia atender na farmácia o meu professor de biologia e ver à minha frente um homem baixo feio e que falava "axim" que arrasou com a minha fantasia de ter tido um professor de biologia alto e espadaúdo de discurso brilhante e voz arrebatadora
- Sou um bocado anti-social e tenho um apelido que é um nome de um peixe por isso essa coisa de me meter numa "rede" social, soa-me a que vou ser pescada e dá-me logo vontade de me esconder em casa a comer um balde de gelado de iogurte enquanto vejo filmes até desfalecer.
Portanto não gosto do facebook porque não....assim como gosto de chocolate porque sim, não será esta uma razão suficiente? Aliás todos (des)gostamos um pouco por instinto, só depois vamos muito enfaticamente procurar uma série de razões que nos façam sentir que estamos certos nas nossas escolhas. E muitas vezes queremos convencer os outros destas razões e de que nós estamos certos. Eu não sinto a necessidade de convencer ninguém, por isso faço aqui a promessa de nunca mais me envolver em conversas do tipo ter que convencer alguém porque é que eu gosto/desgosto de alguma coisa. Porque motivo me vejo sempre a ter que defender as minhas opiniões? Elas "são" apenas opiniões e como tal carecem de qualquer defesa. Só as certezas são passíveis de discussão, mas certezas não tenho nenhumas.
E eu fiquei a pensar que ele tem razão, claro. E eu sei que ele tem razão, mas independentemente de saber, os meus dias são na verdade um pouco caóticos. Pois como não tenho tempo para tudo e não estabeleço prioridades, faço tudo à custa de dormir/descansar menos.
Por isso talvez o meu "asco" ao facebook e aquela coscuvilhice diária de pessoas que dizem a cada passo onde estão, onde vão e onde querem ir e de pessoas que vão ver a página das pessoas que dizem isso. Eu não me interesso por isso. Eu estou-me nas tintas para isso. Eu não tenho tempo para isso (soa arrogante, não é? a falta de tempo dá-nos a arrogância de termos que desprezar algumas coisas). É claro que sei que há pessoas que fazem um uso diferente do facebook, mas também é claro para mim que essas pessoas não são a maioria. E também é claro para mim que já há tanta coisa que sei que gosto e não tenho tempo de fazer...por que motivo iria eu ter uma página e lançar-me em mais uma actividade a que não iria prestar atenção?
E é verdade que escrevo aqui meia dúzia de balelas...ou como o meu colega que tanto se indigna que eu deteste visceralmente o facebook dizia: "também se pode ter um blog e escrever coisas perfeitamente anormais (ou absurdas) nele". Não sei se ele estava a referir-se ao que eu aqui escrevo, nem quero saber. O que eu aqui escrevo são apenas retalhos de algumas coisas que me ajudam a pensar que também vivo. O que eu aqui escrevo é precisamente uma tentativa de deixar guardado em algum lugar quem eu sou, o que gosto e penso. Para que no meu esquecimento constante das prioridades da minha vida, não me vá esquecer também de mim, no processo.
E se mais argumentos não hajam aqui afirmo peremptoriamente uma série de razões muito convincentes e irrefutáveis para explicar porque detesto o facebook:
- Não gosto do "look" azul e branco das páginas...e aquela fonte de letra é qual? arghhh
- Gosto daquela ideia romântica de que não se deve mexer muito com as memórias boas. Porquê descobrir que "aqueles amigos daquele tempo" afinal não são bem como imaginavamos? O facebook serve para isso, para acabar com encantos e eu cá já sofri a desilusão de um dia atender na farmácia o meu professor de biologia e ver à minha frente um homem baixo feio e que falava "axim" que arrasou com a minha fantasia de ter tido um professor de biologia alto e espadaúdo de discurso brilhante e voz arrebatadora
- Sou um bocado anti-social e tenho um apelido que é um nome de um peixe por isso essa coisa de me meter numa "rede" social, soa-me a que vou ser pescada e dá-me logo vontade de me esconder em casa a comer um balde de gelado de iogurte enquanto vejo filmes até desfalecer.
Portanto não gosto do facebook porque não....assim como gosto de chocolate porque sim, não será esta uma razão suficiente? Aliás todos (des)gostamos um pouco por instinto, só depois vamos muito enfaticamente procurar uma série de razões que nos façam sentir que estamos certos nas nossas escolhas. E muitas vezes queremos convencer os outros destas razões e de que nós estamos certos. Eu não sinto a necessidade de convencer ninguém, por isso faço aqui a promessa de nunca mais me envolver em conversas do tipo ter que convencer alguém porque é que eu gosto/desgosto de alguma coisa. Porque motivo me vejo sempre a ter que defender as minhas opiniões? Elas "são" apenas opiniões e como tal carecem de qualquer defesa. Só as certezas são passíveis de discussão, mas certezas não tenho nenhumas.
Há que ver as coisas com optimismo
Cronologia dos acontecimentos:
2004 - Computador portátil avaria nas vésperas de uma viagem e incompetentes do serviço de apoio a clientes arrasam com o meu disco. Pensei que tinha perdido todo o material do trabalho e quase tive uma sincope. Recuperei os dados através de http://www.arnaldolucio.com/
2006 - Computador portátil roubado da mala do carro. Perdi algumas coisas porque nunca se tem os backups em dia e as coisas acontecem precisamente quando não se tem
2008 - Computador portátil roubado do meu gabinete no trabalho. Mais uma vez começar tudo...sem lembrar a falta do backup incluida para o que se tinha acabado no dia anterior às tantas da manhã
2011 - Computador portátil avaria. Já estava a imaginar ficar sem disco, mas desta vez isso não aconteceu.
Cronologia das emoções:
2004- Chorei, bati mal, pensei em desistir
2006- Chorei, bati mal
2008- Chorei
2011- Fiquei um bocado chateada e pensei: ok agora só por volta de fim de 2012, princípio de 2013 vou ter nova chatice
Conclusão: A velha máxima- o que não nos mata, torna-nos mais fortes
2004 - Computador portátil avaria nas vésperas de uma viagem e incompetentes do serviço de apoio a clientes arrasam com o meu disco. Pensei que tinha perdido todo o material do trabalho e quase tive uma sincope. Recuperei os dados através de http://www.arnaldolucio.com/
2006 - Computador portátil roubado da mala do carro. Perdi algumas coisas porque nunca se tem os backups em dia e as coisas acontecem precisamente quando não se tem
2008 - Computador portátil roubado do meu gabinete no trabalho. Mais uma vez começar tudo...sem lembrar a falta do backup incluida para o que se tinha acabado no dia anterior às tantas da manhã
2011 - Computador portátil avaria. Já estava a imaginar ficar sem disco, mas desta vez isso não aconteceu.
Cronologia das emoções:
2004- Chorei, bati mal, pensei em desistir
2006- Chorei, bati mal
2008- Chorei
2011- Fiquei um bocado chateada e pensei: ok agora só por volta de fim de 2012, princípio de 2013 vou ter nova chatice
Conclusão: A velha máxima- o que não nos mata, torna-nos mais fortes
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
Domingo à noite
Haverá algo mais deprimente que as noites de Domingo?
Para mim o Domingo cheira sempre ao barulho das corridas de fórmula 1 na TV, que me deixavam com uma dor profunda e a sensação de que estaria na eminência de ficar doente. Essa sensação de doença eminente era apenas a semana que ia começar e que despontava em mim como uma febre.
É o que sinto agora. Estou infectada do fim do fim-de-semana e esta é uma doença crónica cujo sintoma principal é sentir no estômago o zunido de uma corrida de fórmula 1.
Não sou pessoa para me impressionar com a esposição do corpo humano...só o domingo me deita abaixo!
Para mim o Domingo cheira sempre ao barulho das corridas de fórmula 1 na TV, que me deixavam com uma dor profunda e a sensação de que estaria na eminência de ficar doente. Essa sensação de doença eminente era apenas a semana que ia começar e que despontava em mim como uma febre.
É o que sinto agora. Estou infectada do fim do fim-de-semana e esta é uma doença crónica cujo sintoma principal é sentir no estômago o zunido de uma corrida de fórmula 1.
Não sou pessoa para me impressionar com a esposição do corpo humano...só o domingo me deita abaixo!
sábado, 29 de janeiro de 2011
Há música no ar...
...que respiro.
Últimos concertos a que fui: Deolinda no Coliseu do Porto e Sérgio Godinho no casino da Figueira da Foz.
Os Deolinda são aquela injecção de energia, para vencer a crise, o frio ou o vírus da gripe. Aquele tom popular aliado às letras bem urdidas e à irreverência da Ana Bacalhau, que a tudo isso junta uma voz parecida com a da Teresa Salgueiro, mas com mais pica, fazem com que o resultado seja sempre bom.
Ai, mas o Sérgio Godinho a cantar numa sala pequena com mesas de bar, foi o coração cheio de tudo o que me faz falta. É tão bom, faz tão bem.
E mais uma vez sinto que estou quase a apreender a unicidade que explica tudo isto. Cada vez mais sinto que não posso deixar que as misérias diárias me tirem este ar que renova a mais murcha célula.
A vida é mais que um problema laboral.
Ser feliz é estar feliz e o segredo é estar tantas vezes que mal se notem os intervalos.
SÉRGIO GODINHO - É TÃO BOM (AO VIVO) from Persona Non Grata on Vimeo.
Últimos concertos a que fui: Deolinda no Coliseu do Porto e Sérgio Godinho no casino da Figueira da Foz.
Os Deolinda são aquela injecção de energia, para vencer a crise, o frio ou o vírus da gripe. Aquele tom popular aliado às letras bem urdidas e à irreverência da Ana Bacalhau, que a tudo isso junta uma voz parecida com a da Teresa Salgueiro, mas com mais pica, fazem com que o resultado seja sempre bom.
Ai, mas o Sérgio Godinho a cantar numa sala pequena com mesas de bar, foi o coração cheio de tudo o que me faz falta. É tão bom, faz tão bem.
E mais uma vez sinto que estou quase a apreender a unicidade que explica tudo isto. Cada vez mais sinto que não posso deixar que as misérias diárias me tirem este ar que renova a mais murcha célula.
A vida é mais que um problema laboral.
Ser feliz é estar feliz e o segredo é estar tantas vezes que mal se notem os intervalos.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
José do Canto
Ando num deserto de leitura e à parte do trabalho que me obriga a leitura constante, tenho lido pouquíssimo e coisas esparsas. Acabei no entanto um livro que a minha mãe me ofereceu no Natal e ainda bem que o li.Passei as férias do verão nos Açores e, especialmente em S. Miguel e em particular em Ponta Delgada, é frequente a menção a José do Canto. Visitei inclusivamente em Ponta Delgada o "jardim de José do Canto", que achei muito abandonado, embora pelas espécies presentes deixasse a sugestão que teria sido muito bonito. Ainda me fartei de reclamar para mim mesma com o preço do bilhete, pois o actual estado do jardim não parecia estar a beneficiar de manutenção nenhuma, pelo que não entendi o valor que cobram aos visitantes.
Depois de ler o livro, sobre o homem, por trás do nome, apetecia-me voltar aos Açores e deter-me com admiração por cada menção a José do Canto, ainda presente.
O livro é no fundo uma quase biografia que traça o perfil de José do Canto, muito apoiado nas cartas que este trocou com os vários membros da família. Embora o título se refira aos Cantos, quem realmente me interessou foi José do Canto e penso que mesmo à autora, apenas ele interessa.
José do Canto foi uma pessoa admirável, que viveu no século XIX, mas que era feito de matéria intemporal, de tal modo que o seu nome lhe sobrevive ainda hoje. Não me interessa grandemente, linhagens familiares e enquadramento histórico. Claro que é interessante saber que este homem acompanhou os filhos, como ninguém faria nessa altura e mudou-se para Paris de armas e bagagens com o único propósito de estar perto enquanto eles recebiam a educação que ele considerava ser a melhor, permanecendo quase em exílio com a data marcada para o regresso apenas quando os filhos se formassem. É interessante saber que este homem foi pioneiro na visão de S.Miguel relativamente ao mundo, investindo em novas culturas (ananás, chá) e debatendo-se com a inércia política para construir uma doca em Ponta Delgada e assim facilitar o comércio com o exterior. É interessante saber que este homem era um curioso pela ciência e se dedicou a coleccionar cerca de 6000 espécies de plantas de todo o mundo, que fez crescer no dito jardim, que eu (com tristeza agora reconheço) não consegui apreciar pelo desmazelo. É muito interessante saber que este homem nunca deixou de dizer à mulher o quanto a amava, e fazia-o em todas as cartas e todas as separações que as viagens obrigavam, sempre sem aquele medo estúpido que alguns homens demonstram, de dizer demais o que sentem (a velha desculpa do medo da banalização das palavras...meus amores, as palavras não são as culpadas, culpa é a de quem as massacra e sentindo-as gastas, não as sabe reacender).
Mas por mais interessantes que sejam estes factos, por revelarem o espírito, a curiosidade e a progressão de pensamento, tão inusitados para a época e ainda mais para um homem rico, mas não aburguesado (era até espartano), o que mais me interessou não foi isso. O que mais me interessou foi ler as cartas que José do Canto escrevia (escrevia muito bem) e nelas pressentir o que estava por trás de tudo o que ele fazia: a paixão.
Cada vez mais me convenço que a paixão, em todas as suas formas, é o motor da vida.
A paixão movia José do Canto a não estagnar. Tinha paixão pelo conhecimento, paixão pela mulher, paixão pelos filhos, paixão por uma imagem de futuro que ele havia delineado na sua cabeça.
Nada lhe correu de feição. A família não partilhava do mesmo sangue veloz. Os filhos de educação esmerada eram apáticos. Não tinham gosto por nada em particular e isso tornou-os perdidos e vagos. A mulher, talvez por restrições da época (as mulheres teriam que ser bem fortes para alguma paixão do carácter sobreviver a todas as restrições sociais), era queixosa e imagino-a amarela, queixando-se e vivendo lamurienta. A política e a sociedade eram como hoje são, cheias de burocracias, demoras, jogos idiotas que o exasperavam.
Tudo isto fez com que entristecesse e apesar de nunca perder o vigor, nem a chama que lhe era intrínseca, viu-se resignado a constatar que a felicidade é uma idéia romântica e ilusória.
E é assim que apesar de José do Canto acabar os dias a pensar que falhou, vem mais de 100 anos depois tocar no ombro de alguém que lê as suas cartas, como que a sussurrar: e tu, o que vais fazer do teu privilégio de viver? que paixões vais levar adiante? o que te faz correr o sangue?
E eu, com a marca no ombro ainda viva, não consigo dormir antes de sussurrar de volta:
Se me pudesse ouvir/sentir só lhe queria agradecer e dizer que não falhou, pois há-de tocar no ombro a tanta gente que, como eu, de vez em quando, pelo cansaço, pela rotina, pelo trabalho ou por desculpas várias, se esquece de se sentir sempre apaixonada.
sábado, 22 de janeiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Sentido do sentir
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Alguém me dizia um dia que eu misturava os assuntos todos.
Talvez seja porque tudo se resume a um só assunto, de onde todas as conversas são apenas reflexos/produtos ou ramificações.
Assim como o facto de ninguém ser o que quer e sermos apenas aquilo que podemos com as escolhas que fizemos. Dizer isso, é o mesmo que dizer amor, saudade ou até uma sobremesa de chocolate derretido. Porque embora não pareça está tudo relacionado.
Ontém na insónia nocturna, isto fazia mais sentido. Talvez um dia saiba explicar melhor.
Por agora tenho que voltar ao trabalho, pois que ele também faz parte deste assunto.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Playing on my head's radio #1
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Tenho uma estação de rádio na cabeça. Todos os dias acordo com uma música a tocar. Não escolho, não penso em mudar...simplesmente acontece.
A de hoje é my man da Billie Holiday.
sábado, 8 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
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