sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Anunciaram e garantiram que o mundo ia-se acabar



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Por hoje ainda há mundo, mas eu gostava de me fazer de Adriana e anunciar e garantir que o mundo acabará. Sob o manto do "vale tudo" fico a cismar no que faria.
Imaginar que seguia a vontade e estaria a caminho de ti.
Desejos simples os meus. De apenas partilhar a tarde, o dia ou a noite. E ficar a saber o que lês e o que vês, eu que tenho lido e visto muito pouco.
Se o mundo acabasse não poderia deixar de ver o mar. Poderíamos até partilhar um sofá, uma manta e quem sabe um gato numa qualquer varanda de onde o bramir se ouvisse e visse.
Talvez preferisses chá, mas eu na eminência do fim do mundo queria um vinho, tinto vivo.
Talvez que na eminência do mundo no fim, me deixasses voltar ao início. Ao tempo que conheci os teus lábios, os mesmos de quem sinto falta. Há beijos e palavras que não se esquecem.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O marketing de experiências

Em apenas 30 anos sucederam alterações notáveis na forma de ver o consumo.
Em 1980 a qualidade não tinha preço e o marketing era focado no produto.
Em 2012 vive-se com o vislumbre dessa qualidade e quer-se tê-la ao melhor preço.
O marketing tornou-se experencial e ninguém ousa gastar o dinheiro da crise em apenas produtos.
Pretende-se adquirir experiências. Pretende-se satisfazer necessidades. E na faculdade os objetivos de Bolonha apontam para a aquisição de valências.
Tudo isto tem qualquer coisa de etéreo e desesperado.
Fico a pensar no que nos move a todos de um ponto a outro.
E como vamos como numa torrente, levados pela mudança.

Vejo sempre as mesmas coisas todos os dias. Sempre as mesmas dores estampadas nos olhos dos velhos, mesmo em olhos de cores diferentes, o medo é o mesmo. Vejo sempre a mesma suspeição no sorriso dos mais jovens, convictos que ninguém os vê.
Sinto-me no meio. Com plena consciência da dor que se abeira e com o pé que saiu da crença que sabia de tudo.

Tenho pena das carcaças humanas que estremecem de febre e medo. E tenho pena dos olhos que do fundo pedem o tempo que já gastaram.
Há pessoas que choram pela solidão e pelo esquecimento. Muitas pessoas sós a quem só restava um outro que entretanto morreu. Os filhos são os tais que suspeitam que não seja nada assim. Raio dos velhos que não se calam e interrompem a vida atarefada dos filhos na cidade.

Sempre pensei que o envelhecimento tinha algo de dignificante. Mas tudo no corpo diz o contrário. Tudo descai mais um pouco e a memória esvai-se como que a atenuar a saudade do que foi.

Percebo que muitos se dediquem a encontrar o sentido para tudo isto. Pois que sem ele, tudo parece uma descarada reinação.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Naturalmente

Sob o signo das hormonas e do frio é sempre difícil ser abnegado e convicto.
Questiono-me como tantas outras vezes já sem grande coragem de me auto-punir por não ter essa capacidade de me contentar com a vida e de ter sempre este cenho arreganhado num esgar de sorriso à custa de algum esforço.
Não sou naturalmente simpática, nem naturalmente feliz.

Fico a pensar sobre isso. Sobre esses seres que nascem contentes com a vida e sobre esse advérbio que os veste de espontaneidade e pureza.
"Naturalmente" é sempre bem visto em oposição ao "forçadamente".
Sou sempre forçadamente quem sou. E como todos os seres em busca de aprovação esforço-me para que não me detectem o esforço nem a mácula da vergonha por não ser naturalmente tudo o que devia afinal ser.

O frio dá-me o direito de não querer saber. Quando o frio cava a alma e a sensação é de desalento, não sinto obrigações de disfarçar. Há certos estados que nos transmitem a sensação de sermos ou impunes ou invisíveis. E o desalento, o frio e a idade dão essa vertigem do pouco importa que seja assim.

Pouco me importa aqui neste último reduto da temperatura do gelo.
Tenho quase nada que me prenda a não ser a persistência constante de um frio, que o organismo (esse sim naturalmente) combate.
Eu forçadamente vou fazendo, com a zelosa ajuda da necessidade de aquecer.

Não sou naturalmente simpática, nem naturalmente feliz.
Talvez me escrevas nos dias dos sinais por pensares que há algo de natural em nós. E tu tal como eu procuras a identificação. Como uma borboleta busca a luz também tu sedento da  perspectiva de encontrares esse "naturalmente" que aos ombros dos outros é segunda pele.
Mas talvez seja apenas isso. Pouco naturais e sedentos, nunca satisfeitos.....nunca naturalmente satisfeitos.
Talvez seja isso que nos liga...naturalmente.




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Como numa outra vida



Estou a remendar aquele que foi sempre o meu medo. Tomar uma decisão que me levasse por um caminho de onde não pudesse regressar. O medo de decidir e essa decisão implicar uma vida que se colasse a mim para sempre . Essa coisa adulta de ter que optar. Uma chatice, com ar de irremediável e se escolheres mal aguenta-te à bronca.
Pois fiz marcha atrás e enveredei pelo caminho que achava ter abandonado irremediavelmente. Pensei que era algo contra as regras do jogo: esta opção de invalidar uma decisão e mudar. Pensava que não poderia fazê-lo por se tratar de um retrocesso.
Mas afinal não custa nada. E não sinto nada do que temia vir a sentir. Saudade alguma, nenhum arrependimento.
Quase me assusto com tanta certeza. Nenhuma dor. Nenhuma espinha que dói ao engolir. Olho as pastas do pc onde jazem os meus trabalhos anteriores, mas nenhuma turbulência interna. Apenas serenidade e alívio. Desses que nos faz acordar e pensar: estou livre. Desses que nos faz respirar fundo e fundo. Como se finalmente houvesse o fundo e o início. Como se recuperássemos o vasilhame que volta a ter capacidade de conter o que antes não cabia dentro. Sinto que ganhei espaço interior, para conter o que me apeteça.
Uma vida menor, menos exigente, pensava eu, pensa toda a gente que me rodeia. Sentem pena...sinto a pena que sentem. Mas não sinto nada que me afecte ou abale a convicção de que é boa esta mudança. São dias novos e vida. Apenas vida, a minha como a quero. Sem tempo nenhum, mas opção minha, por não ter tempo, ou por te-lo- o meu. Como aquele slogan: o tempo que se segue é da minha exclusiva responsabilidade .
 E de repente apetece-me chegar a casa e inventar o que fazer. Ter projectos: os meus. Sem ter que medir as palavras e limar o discurso. O meu discurso apenas. As minhas opiniões, tão inúteis e tão humanas. As conversa da treta ao balcão. O frio que faz. Os licores. A gata abandonada que era Lila e chamei-lhe Mimi. Descobrir à pressa como se cozinha moira para hóspedes com desejos. Organizar formação das farmácias amigas. Voltar a estudar.
E respirar fundo, vislumbrando ao longe uma pessoa encolhida que era eu a mirrar, para caber no sítio (esse sítio tão mais exigente, pensava eu) que me indicavam.
Na Patagónia do Sepúlveda fala-se uma linguagem tão humana quanto a que falo agora. A linguagem que me é implícita e que me negavam. Dizem, no sul do fim do mundo que "morrer" é um costume. E por aqui seguem-se os mesmos usos e costumes. Há pessoas que morrem e não querem, mas seguem a tradição. Outras suicidam-se e antecipam. Mas a vida antecede tudo isto. E a vida não costuma durar mais do que a sua conta. Por isso não é lógico viver em modo de sobrevivência. Não é lógico espartilhar a vida. A morte é um costume e a vida tem que ser como se quer e pode. Sem espinhas, sem lágrimas mal vertidas e sem espartilhos.





terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sob os designios do som e da palavra

Seria injusto supor que a camada subliminar que me guia se orienta apenas pela direcção da palavra.
A música é e será sempre parte da minha orientação nocturna sem bússola



180 º

Tenho sempre a sensação que o cérebro nos antecede nas decisões.
Passo a explicar: refiro-me à velha discussão sobre o que é consciente e subconsciente.
Há alguma coisa subliminar ao entendimento que não gosto de chamar subconsciente, pois envolve tudo o que à consciência diz respeito. Digamos que é um estado mais subtil do que o declaradamente consciente.
O meu cérebro tem essa subcapa a que não acedo declaradamente, mas a que obedeço e que me vai guiando pela turbulência. Enquanto me esforço por racionalizar e dirigir concretamente as decisões, sob esse marasmo reina uma paz declarada da certeza do que deve ser feito.
Já me senti perdida algumas vezes, olhando para os dias com dificuldade de optar. E mesmo nesses dias mais confusos, aquelas certezas entranhadas me guiavam, muitas vezes tornando ao meu corpo como um mero receptáculo de sensações. Agradeço ao meu cérebro na sua versão de autopiloto que sozinho sabe o que quer. E que faz o meu corpo repudiar o que não quer, mesmo que a racionalização me leve a aguentar.
Sempre fui assim. De andar a tentar encaixar cubos dentro de buracos esféricos. Até que o meu cérebro me diz: alto já chega e me faz ter juízo e procurar forma para o meu cubo em vez de tentar limar as suas originais arestas.
Não sei se isto se passa com o resto das pessoas. Mas penso que sim. Vejo na farmácia tantas dores e alegrias iguais às minhas que sorrio internamente a pensar como somos todos tão carne e osso, e tão todos mais do mesmo.
Por isso se isto ajudar a alguém, saibam que vocês sabem sempre o que querem, mesmo quando a mudança os leva a querer raspar arestas para encaixar onde não devem.
Dêem atenção ao que lêem e perceberão que o cérebro procura sempre caminhos para sobreviver.
Quem me salva sempre são os livros. Pois nos momentos cruciais os livros que escolho guiam-me. Com mãos ternas, as palavras primeiro insinuam-se e mais tarde revelam-se e explicam-se.

Nestes tempos de indecisão e mudança tudo o que li me guiou.
Não foi por acaso que reli a Montanha mágica do Thomas Mann, e que andei a ler Luís Sepúlveda e as suas descrições da Patagónia ou Luigi Pirandello e o seu "um ninguém e cem mil". Mas sobre cada um deles virei a falar.

Agora é tarde e só queria dizer, se é que alguém lê, que apenas lamento a minha ausência nos momentos importantes das pessoas. Passarei certamente como uma péssima amiga, e de facto sou, no sentido que a amizade tem de mais comum. Mas sinto uma amizade imensa por poucas pessoas preciosas que retenho como minhas, mesmo que a vida passe e eu não veja. 
Tenho tanto de cínico como de crente. Acredito que sabem o que sinto.
Passe a redundância: espero que esperem por mim

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O que é Nacional é Bom #9 - Jorge Palma


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Com uma ligeira insónia matinal que dura desde as 5 da manhã, lembrei-me que um dos meus preferidos nacionais é o Jorge Palma e acordei com esta música na cabeça, bem a propósito (da insónia e dos pensamentos que me embalaram):

Eu não sou quem tu desejas
Eu não sou aquele que beijas
Sou um mero pesadelo ou fantasia

Eu sou muito mais que velho
E intimido qualquer espelho
Sou o amigo mais funesto da poesia

Sou um tipo de morcego
Que é completamente cego
Embora, às vezes, seja fã do fritz lang

Sou uma espécie de vampiro
E quando sobre ti me atiro
É para saborear um pouco do teu sangue
Só para beber gota a gota o teu sangue

Tu não sabes de onde venho
Dás conversa a qualquer estranho
Ainda vais beijar-me os lábios docemente

Não confias nos teus pais
E acreditas que os jornais
Só relatam a verdade doutra gente

Sou um tipo de morcego
Que é completamente cego
Embora, às vezes, seja fã do fritz lang

Sou uma espécie de vampiro
E quando sobre ti me atiro
É para saborear um pouco do teu sangue
Só para beber gota a gota o teu sangue

É para saborear
Um pouco do teu sangue
Só para beber
Gota a gota do teu sangue

É só para beber
Gota a gota do teu sangue

quarta-feira, 23 de maio de 2012

canção de embalar de hoje: Army of Me



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E porque já falei muito e a música diz sempre muito melhor que eu.

Se Vronsky tivesse poderes telepáticos para chamar Anna

É escusado apelar às escuras, evocando o poder secreto que a ausência da luz pode trazer a esta sala, iluminada apenas pela tela branca onde desenho palavras com todo o esforço e nenhuma vontade.
Questiono-me, se em algum lugar, quem sabe na mesma parte onde estas palavras desembocam, estarás também alerta para o poder que esta luz solitária tem de levantar memórias, tão escuras como onde também te imagino.
Desconfiei sempre deste pedir telepático. Concordava com ele para que me não achasses um cínico total, descrente do poder da vontade.
Sempre tive um desejo concreto de te ver. E sempre suspeitei de elaborações teóricas sobre a cosmologia dos encontros. Mas isso é porque nunca olhei como tu, para as paredes. Nelas sou incapaz de ler mensagens ocultas para lá da corrosão e grafitti.
Se um Índio me enviasse sinais de fumo, pensaria com certeza não serem para mim. Ou encolheria os ombros perante a perspectiva de um céu mais poluído. Essa é a nossa principal diferença. Sinto mais os sinais por dentro da pele, do que os de fora do mundo. 
Sou um cínico, bem sei. 
Falo-te de nós e dos outros com aquela inadaptação adolescente de alguém que custa a aprender que os outros são tanto como nós. 
Mas não desisto de tentar ser menos eu e menos eles. Sou um cínico que desejava ser crente. Ter o poder de acreditar.
Queria acreditar que, mesmo sem a minha ajuda, a palma da minha mão me mostrará o futuro em linhas. Mas o cinismo deu-me uma cautela áspera e a minha mão é ilegível sob esta luz de sala escura. Nela apenas tacteio os sulcos onde por vezes, por consideração a ti, te imagino a caminhar. Quase me alegro quando te pareces dirigir pela linha da minha mão ao meu dedo mindinho. Fazes-me cócegas quando me queres fazer sinais.

O romancista ingénuo e o sentimental de Orhan Pamuk



Quando tento perceber em mim alguma vontade que nunca me abandona, essa vontade sobrevivente é a leitura.
 Acabei de ler este livro de Orhan Pamuk que é uma publicação das palestras que o escritor turco deu em Harvard (porque é que temos a mania de dizer a nacionalidade do escritor? como para pôr os pontos nos "i"...escritor "turco" e tomem lá mais uma catalogação: "prémio Nobel").

Em relação ao livro, tudo se resumiria a dizer, que segundo o Ohran, o romancista deve alternar entre a ingenuidade da escrita (aquela que surge da espontaneidade e do prazer um pouco inconsciente) e o lado sentimental reflexivo, aquele que envolve pensar na construção do que se escreve. Ohran fala também na importância do centro do romance, que seria qualquer coisa como o que está subjacente, qual o cerne,  qual o coração do romance? A este respeito fala da alegria de ser leitor de um romance bem urdido, como aquele romance que revela o seu centro, mas que não é explícito, obrigando a que o leitor persiga esse centro e o compreenda de forma intermitente. Sendo que esta alegria de elucidação, intermitente e conquistada, é o que faz com que o leitor sinta que aquele romance o destaca como "o leitor" bem sucedido: aquele que consegue decifrar o centro de um romance não totalmente explícito. É também esta sensação de exclusividade que conferem uma voz confessional ao romance, dando ao leitor a sensação de que algo lhe está a ser confiado e só a ele.
Ohran que se assume como escritor visual e que queria ser pintor antes de ser escritor explica também como acredita na forma de construir um romance como uma pintura, em que árvore a árvore o leitor vá descobrindo a floresta. Em relação a este tópico Orhan diz algo interessante. Por vezes as descrições num romance não fazem parte da paisagem de uma forma meramente descritiva, mas fazem parte do "ambiente" do romance, inclusivamente são extensões das personagens, pois são o ambiente que nos é dado a ver, muitas vezes pelas próprias personagens ou em complemento a elas. Exemplifica com uma passagem do "Anna Karenina" de Tolstoi em que a vista da janela do comboio numa viagem entre S. Petesburgo e Moscovo, nos é dada a ver por Anna. E a neve que cai na paisagem exterior da janela do comboio, verosímil no inverno russo, também é totalmente concordante com o inverno do interior de Anna, que se debatia com a tristeza de se ter sentido feliz a dançar com um homem sendo casada com outro. Achei curiosa essa reflexão, bem como a reflexão sobre a classificação de Tolstoi como um romancista visual e Dostoievski como romancista verbal. Realmente este último é muito mais espartano em descrições e muito mais rico na caracterização psíquica. Todas estas reflexões são  interessantes, como é interessante a analogia entre o romance e as pinturas japonesas. Estas eram consideradas belas, pois mostravam imagens muito abrangentes e quase etéreas, como se o pintor estivesse a pintar a paisagem vista do topo de uma montanha ou se pairasse sobre o que via. No entanto o pintor japonês apenas pinta como se estivesse a voar sobre a paisagem, mas está com certeza sentado dentro de uma das casas que representou vista do céu. Também o romancista deve dar uma imagem abrangente do romance como se pairasse sobre todo ele, ainda que o tenha de fazer de muito próximo, página a página.
Este livro trata-se então da visão do escritor sobre o género literário romance, sobre os tipos de romancistas e até sobre os leitores. Embora me interesse o tema, fiquei de longe mais fascinada com uma ideia peregrina de um desejo que me resta: ler. Se há pessoas que escrevem e que vivem da escrita (mal decerto, e há pouco quem viva somente da escrita) também poderia haver a profissão de leitor. Não, eu não quero dizer que o meu desejo é ser paga para ler e criticar os livros...isso é ser crítico literário ou trabalhador de uma editora. Não mesmo. O meu desejo era ser paga para ser leitora apenas. Essa sim era a melhor profissão do mundo. Perguntar-me-iam nas consultas dos médicos: qual a sua profissão, para pormos na fichinha: Leitora. Soava bem.
Mas, não sendo possível ser leitora de profissão, contento-me em ler de graça. E a graça deste livro também não é propriamente a opinião de Orhan Pamuk sobre os romances e romancistas. Opiniões há muitas e penso que a tentativa de catalogar ou aplicar um algoritmo que defina a estrutura de um bom romance é muito redutor e sujeito a debate. Para mim a graça deste livro está na opinião apaixonada que Orhan leitor tem sobre os romances que leu. Como ele descreve o alheamento e alegria que se conseguem com um livro. Como se consegue identificação com as personagens e como se consegue um diálogo silencioso entre a palavra escrita e a forma como a lemos e nos apoderamos dela.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O que é Nacional é Bom #8 - Manuel Cruz



A dor de ter de errar


eu não deixei de ser mordaz
mas sinto a dor de ter de errar
só temo nunca ser capaz de ouvir

a dor é perto da cabeça
aflora sangue a bom licor
só peço a mim que não me esqueça de ouvir

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Noções para viver sem ti


não queiras saber o que eu já pensei de ti
na negação da tua ausência fui esgotando a minha lista
e o que eu ganhei
tanto quanto eu sei
são noções pra viver sem ti

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Já é sabida a admiração que tenho pelo Manuel Cruz. Embora goste muito dos saudosos Ornatos Violeta, gostei ainda mais do MC nos Foge Foge Bandido. Aqui em dose tripla deixo: "Dor de ter de errar";  "Ainda pode descer mais" e "Noções para viver sem ti", simplesmente porque não conseguia escolher e todas e cada uma delas é a mais perfeita expressão musical do que sinto em dias como este em que pouco tenho a acrescentar ao mundo

Um sussurro

Diz Ohran Pamuk que o facto de "levar a sério" os romances fez com que "levasse a sua própria vida a sério", por perceber que as personagens tinham a "capacidade de influenciar a acção", percebendo assim por analogia que "os seus actos teriam reflexos na sua vida".

sábado, 19 de maio de 2012

Des(norte)ada



Interessante o facto de a perda do norte ser um sinónimo de perda de orientação. Tem a ver com certeza com o que dizíamos sobre a bússola que aponta o norte magnético terrestre. 
Mas se a terra é um grande iman, o que seremos nós? 
Seremos apenas conduzidos nesta atracção para um polo? 
Ou não seremos nós também polos actuantes sobre os outros e sobre todas as coisas?
Se existe uma declinação entre o que a bússola aponta e o norte que é, não teremos nós também declinações entre o que queremos seguir e o que realmente nos magnetiza?
E porque é que na linguagem de um modo inconsciente usamos palavras descritivas deste magnetismo? Porque falamos em atracção entre pessoas? Porque classificamos alguém de magnético? 
E porque é que a consciência de tudo isto vem depois da sensação? Como se algo em nós soubesse melhor e percebesse primeiro...instintivamente.
E às vezes reconheço que algumas coisas têm que significar mais do que aparentam. 
Os livros e as viagens que inconscientemente escolhi são bússolas afinal.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O que é Nacional é Bom #7 - Rodrigo Leão


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Não há uma música do Rodrigo Leão que eu não goste. Todas as músicas dele são preciosas obras de arte. Todas as músicas dele são cerebrais e complexas e maravilhosas. É de momento quem mais gosto de ouvir dos nossos nacionais. É com quem mais me identifico. É quem melhor traduz o que me sinto. Acho que ele é uma pessoa que conduz milimetricamente a sua carreira. E imagino que seja um perfeccionista, pois todas as suas colaborações com artistas convidados têm sido extremamente bem conseguidas. E todos os seus temas instrumentais são absolutamente belos.
É um orgulho e um privilégio ser contemporânea do Rodrigo Leão e poder ficar simplesmente à espera da sua música.
De tantas opções para seleccionar incluindo do último álbum montanha mágica resolvi no entanto escolher esta Voltar que me volta sempre à cabeça em dias frequentes em que a minha rádio mental sintoniza Rodrigo Leão.


O mundo do fim do mundo de Luís Sepúlveda

Este livro não tem nada de interessante a assinalar. A não ser a recordação de quem mo deu. Marco Mirinha, um rapaz idealista, biólogo, amante da serra da ossa e exímio a tirar fotografias à natureza. E nesse sentido fez todo o sentido (mesmo assim de forma redundante) rele-lo. Caiu-me da estante e vi na primeira página um autógrafo do próprio Luís Sepúlveda que encontrei numa das suas vindas a Portugal, já não sei se à FNAC ou a uma feira do livro. Sinceramente não sei por que motivo eu tinha o livro comigo e por que motivo me dispus a estar na fila à espera de um autógrafo do Luís Sepúlveda. Toda a situação é-me tão estranha e inverosímel que me soa a um sonho, que só percebo não ser fruto da minha imaginação, quando leio a dedicatória da qual também não entendo o contexto:

Para Marlene, con mis mejores deseos
Para la lucha que continua
y vale la pena luchar

Não sei que terei dito eu a Luís Sepúlveda. Ou se o facto de o mundo no fim do mundo, um livro sobre a luta da causa quase perdida de defesa da caça das baleias, tenha dado o mote para uma mensagem de esperança e de combate. Ou se eu terei dito algo sobre mim e certamente sobre algum período difícil que atravessava. E assim faz sentido esta mensagem que me caiu da estante.
Não sou nada crente, mas há alturas da vida que é preciso acreditar, nem que seja por mera necessidade. E por isso quero acreditar que o Marco Mirinha (porque é que eu deixo estas pessoas desaparecerem da minha vida) ou o Luís Sepúlveda nas suas formas aguerridas de lutarem para defenderem a natureza e os seus ideais me estejam a querer empurrar para a determinação de uma luta. Porque um ideal é sempre um ideal. No fim do mundo, na serra da ossa, ou dentro de nós.

A tia Júlia e o escrevedor de Mario Vargas Llosa


Este é um livro ideal para quem quer um livro divertido, mas bem escrito.

É muito difícil encontrar estas duas características num livro. Normalmente quando os livros são leves de tomar como uma água são aborrecidos, mal escritos e de fórmulas gastas. Ou quando são muito bem escritos são normalmente exigentes do ponto de vista emocional. E eu não me poderia dar ao luxo de ler algo que tomasse conta de mim. Pensei por isso imediatamente em escritores da América do Sul, que normalmente são os meus autores preferidos em tempos frágeis. E optei por este de Mario Vargas Llosa, de quem ainda não tinha lido nada.
Fiz uma boa opção. Este é um romance muito interessante sob o ponto de vista formal e que contém ainda uma boa dose de humor e um tom muito alegre.
É quase um romance autobiográfico, pois Marito ou Varguitas, ele próprio, é o personagem principal e narrador. Varguitas é um jovem de 18 anos, estudante de direito e trabalhador numa rádio, onde a sua função é reunir notícias dos jornais diários e fazer o próprio serviço noticioso da rádio com base nessas notícias. Também faz parte das suas funções conter os ímpetos do Pascoal, um diligente colaborador que adora notícias com mortos e pormenores mórbidos, sendo capaz de em cada descuido de Varguitas ocupar um serviço noticioso inteiro com a descrição de um terramoto e suas vítimas.
Varguitas é uma daquelas personagens promessa, com muitas potencialidades mas algum ócio de viver. Inteligente, vai fazendo o curso de direito sem grande esforço, nem resultados brilhantes, e leva uma vida de algum descuido, adiantando serviços noticiosos para passear pelas ruas de Lima. Toda a vida ainda adolescente de Varguitas muda com a chegada de duas personagens. A tia Júlia, mulher madura de 30 anos, divorciada e que chega a Lima à procura de um pretendente. E Pedro Camacho - o escrevedor. O termo "escrevedor" e não "escritor" não surge por acaso no título do livro. Pedro Camacho é uma personagem com uma imaginação prodigiosa, contratado pelos patrões de Varguitas para ser o argumentista, director e actor de radionovelas. Pedro Camacho escreve e trabalha a um ritmo alucinante produzindo enredos diversos que passam várias vezes ao dia na rádio e que prendem a atenção de todos os ouvintes. Varguitas, que ambiciona ser escritor, começa a interessar-se por Pedro Camacho, percebendo no entanto rapidamente que ele só escreve, mas não escreve. Com a cadência com que escreve, Pedro Camacho não tem tempo de ler e nunca leu nada a não ser um livro de citações famosas que transporta para todo o lado como a uma bíblia. E Pedro Camacho nem sequer extrai a sua escrita da vivência, pois a sua vida é limitada a intervalos para chá de menta e uma morada espartana num quarto onde dorme e ainda assim dorme pouco. Todo o resto do tempo é usado para escrever os guiões das radionovelas. Por isso é no termo "escrevedor" e não "escritor" que se encontra o desejo de distinção em relação aquilo que Varguitas quer ser e aquilo que Pedro Camacho é.
A tia Júlia por sua vez é o desejo da vida adulta de Varguitas. Uma mulher bonita e atraente, pela qual Varguitas sendo menor (a maioridade ocorria aos 21 anos) tem que fazer uma série de sacrifícios: contrariar a família, ter um amor mal visto pela diferença de idade e grau de parentesco (ainda que ela seja sua tia apenas por afinidade); casar escondido e forjar papeis de identificação e arranjar uma série de empregos para conseguir sustentar a vida a dois. No fundo estas duas personagens vão balizar a entrada de Varguitas na vida adulta e por isso o fascinam. Pedro Camacho é essencial para Varguitas entender o papel de um escritor e para perceber com convicção o que quer ser, ele que havia apenas sido escritor em tentativas pouco convictas. Júlia é essencial para que a vida de Varguitas se complique e deixe de ser branda e sem desafios como era. Só assim com a visão do escrevedor (como a imagem especular do não-escritor) e das dificuldades que a vida prática impõe é que Marito Varguitas desperta para ser Mario Vargas.
A estrutura do romance faz-se numa alternância entre as histórias das radionovelas e a história de Varguitas. E a cada capítulo há uma história diferente onde Vargas e não Varguitas, mostra mestria em agarrar o nosso interesse, constantemente bruscamente interrompido para retomar a história nuclear de Varguitas e mais à frente incluir nova história que novamente nos seduz e novamente é interrompida sem desenlace. Parecendo quase uma lição que Vargas impõe ao leitor sobre essa diferença entre ser "escrevedor" e "escritor". Vargas exibe-se e mostra-nos que pode fazer de Pedro Camacho e Varguitas.
No final um tom algo moralizador para o insucesso esperado de um escrevedor. Pedro Camacho no auge do seu desaire imaginativo começa a confundir as personagens das radionovelas. O capitão Lituma que encontrou um emigrante ilegal africano e recebeu ordem para o matar, passa a entrar no papel de polícia que assiste ao acidente com um delegado de propaganda médica. E este último é o mesmo que esfaqueia o dono da pensão e o dono da pensão entra na novela do tocador de violão apaixonado pela freira, mas a freira é a mesma menina que havia sido violada por um jeová e também é a mesma de quem o árbitro de futebol se apaixona numa outra novela. Enfim, uma torrente de personagens que existem em contextos diferentes como se se transmutassem e fossem transversais a cada história. Como se Pedro Camacho fosse todas essas personagens e por isso elas surgissem em todas as histórias sem controlo. O que é certo é que os ouvintes das radionovelas começam a estranhar que haja esse derrame de histórias umas nas outras num acelerar vertiginoso que acompanha o cansaço da mente de Pedro. Até que Pedro Camacho, no desespero de não controlar o fenómeno de mistura de nomes e histórias, resolve num acesso shakespeariano matar todas as personagens em grandes acidentes e tragédias, para assim tentar recomeçar do zero. E aqui o livro atinge o ponto máximo do risível onde os fins bárbaros e apoteóticos dos diversos capítulos se sucedem, mas ainda assim com uma consanguinidade tal entre histórias, que a mesma personagem morre de diversas formas mais do que uma vez.
É assim o fim da carreira de Pedro Camacho, hospitalizado num manicómio. E é o fim de Varguitas com o início de Vargas o escritor, ele mesmo que haveria de dar em suas obras outras vidas às vidas esboçadas pelo escrevedor.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O que é Nacional é Bom #6 - Luísa Sobral


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E numa overdose de música lusa, remato o dia de hoje com Luísa Sobral e esta Clementine.
Clementine com o mundo ao colo.
Clementine que é parte do mar e que nocturna vagueia cheia de olhar e nenhumas lágrimas.

Clementine was born not to be
Born not to love
Like you and me

No one has ever seen her cry
But hidden in her eyes
There’s a whole wide see

Clementine walks around at night
Talks the moonlight into sleep
Wakes up slowly taking her time
She has no one to meet

No one wonders where she’s from
If she has ever had someone of her own
She is just a part of the sea
A part of you and me

Clementine reads all day long
Carries the world of someone unknown
Finds her castle
Sits on her throne
Then she is not alone

O que é Nacional é Bom #5 - Linda Martini


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Num registo totalmente diferente também encontro aqui marcas da portugalidade unicamente detectáveis pelo orelhão (o tal órgão mutante, versão evolutiva de um coração que ouve). Gosto muito e gosto muito também de me deparar com grupos novos, tão interessantes, intensos, e tão bons.

O que é Nacional é Bom #4 - Carlos Paredes



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Num "o que é Nacional é Bom" nunca poderia deixar de fora o Carlos Paredes. A música dele emociona-me muito e se há algo que expresse a língua portuguesa melhor que muitos textos eloquentes, é o som desta guitarra. Quem compreende este som sabe o que é ser português. É uma linguagem aposta nos genes, por intermédio de uns órgãos mutantes que resultam de uma qualquer etapa evolutiva entre o ouvido e o coração. Como se a dada altura da nossa vivência nascêssemos mais portugueses do que nos deitamos. 
Foi assim comigo. Ouvi esta música pela primeira vez há muitos, muitos anos e no outro dia já não era a mesma. Ou era mais um pouco de mim do que o costume.
E agora mesmo que me banhe no Índico ou mergulhe no Pacífico, esta guitarra não desbota e está inscrita junto às guaninas e às timinas fazendo a dupla hélice rodar em dias de vento.

O que é Nacional é Bom #3 - Dead Combo



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Ainda bem que os Dead Combo finalmente deram nas vistas nos States graças ao programa "No reservations".
A minha vista há muito tempo que já tinha dado com eles, primeiro nas noites do ritual no palácio de cristal no Porto. Depois comprei bilhetes para os ver no teatro circo em Braga com a royal skulls orquestra (orquestra das caveiras...ehehe mesmo apropriado) e faltei por uma maldita sina chamada Hamburgo que me desvia sempre dos meus compromissos musicais.  E com o seu segundo álbum "quando a alma não é pequena" tenho vindo a acompanhar as minhas viagens físicas e mentais.

sábado, 12 de maio de 2012

Geni e o Zepelim


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Alguém um dia dizia que não se deve tomar nenhuma resolução depois das 2 h da manhã. Penso que é uma verdade para tudo, inclusivamente para escrever. Não se deve escrever depois das 2 h da manhã.
Porquê? Simples, porque depois das 2 da manhã sentimos uma falsa invisibilidade. Sentimos mais o mar e menos as pessoas e cremos que o mundo é mais daqueles que persistem despertos. Por isso escrevo aqui sobre a premissa do erro.
Sempre tive a mania de disputar os espaços menos disputados. Os meus irmãos em pequenos registavam os seus records dos jogos do spectrum 48K num caderno, quase sempre em jogos de acção ou de desportos. Jogavam os jogos olímpicos e detinham todos os records de todas as modalidades. E eu escolhia os intervalos em que eles subiam ao pódio uma e outra vez, para jogar os jogos que eles não queriam. Normalmente eram jogos parados, de encontrar pistas e objectos. Ou então jogos aborrecidos com gráficos pouco evoluídos. E eu detinha todos os records de todos esses jogos renegados. Era a campeã dos jogos preteridos.
E engraçado como coisas aparentemente tão pouco determinantes como essa, podem de facto imprimir uma tendência nas nossas vidas.
É dessa auto-exclusão que fala a maravilhosa música do Chico Buarque: Geni e o Zepelim. Geni de uma moral mal compreendida amava os pobres e os lazarentos, os cegos e os errantes, mas nunca um homem nobre a cheirar a brilho e a cobre. E se numa visão superficial vemos Geni a ser excluída, apedrejada, a verdade é que a Geni se autoexclui.
E eu não sei a que propósito, mais de 2h depois das 2h da manhã, num pecado duplo de falta de sensatez, venho aqui sentir afinidades com a Geni. Sentir que percebo essa sensação constante de auto-exclusão de um mundo onde o cheiro a brilho e a cobre me dão uma náusea profunda e uma vontade imensa de fugir. E de me agarrar à primeira vida menos invejada que alguém possa conceber. E de excluir da minha vida todos aqueles que toda a gente ama. Todos aqueles que toda a gente adora adorar e que adoram ser adorados. E ficar apenas com os sombrios, os escuros, os pouco sorridentes. Ficar com os difíceis. Os que ninguém quer conhecer.
Uma coisa aparentemente pouco determinante imprime uma tendência, de facto. E eu sou ainda a mesma que ficou com o gato que ninguém quis, por não ter pêlo e ter tinha. E que apanhou a tinha mesmo sem ninguém querer. Fui eu quem escolhi a única gata que não queria dormir, da ninhada que ninguém queria manter. Sou eu mesma que tive amigos que ninguém queria. Sou eu mesma que amei o gato saci de 3 pernas, o mais fraco e preterido até pela mãe gata. Fui eu quem ficou com o cão que ia ser abatido. Com o estágio na farmácia que ninguém escolheu ou disputou.
E sou eu mesma que com fibra de Geni decido a horas erradas que estou certa. E que me excluo da vossa inclusão. E assumo o quanto me cansam. O quanto me cansam.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

O que é Nacional é Bom #2 - Bernardo Sassetti



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Se o dia estava triste, desbotado e cinza.
Agora muito mais entristeceu, porque pleno de uma sombra densa de mais uma enorme perda.

Epicurismo ou adaptação


Da minha estadia em São Paulo trouxe muitos livros que a Io me ofereceu na mesma generosidade com que me presenteava com os frutos exóticos. Todos os dias de manhã antes do trabalho no laboratório, um sabor diferente: mamão, fruta do conde, pitanga, goiaba, mangostin, acerola, caju, jabuticaba, carambola.
Os livros surgiram numa correria que ela fez no último dia, com um aviso de "não vá sem eu voltar". E sei que essa oferta de último instante se deveu ao dia anterior. No dia anterior, tinha sido a festa da minha despedida e eles, Io e Hernan, só me ficaram a conhecer melhor nesse dia, nessa noite. O Flávio e o Guilherme já sabiam há muito, muito mais sobre mim em 2 meses do que todos os amigos que eu tinha em Portugal. É estranho essa vulnerabilidade exposta que assumimos com pessoas que desconhecemos. Mas os brasileiros também têm essa característica boa e má de forçarem algumas barreiras.
Pois no fim de semana anterior à minha festa de despedida eu tinha ficado sozinha em casa e resolvi sair pelos meus sítios favoritos em São Paulo. Fui ao MASP, ao trianon, à praça benedito calixto ouvir chorinho no sábado e deambulei também pelas feirinhas da praça da república e da liberdade em busca dos presentes para trazer. E como tive tempo, resolvi entrar numa virgin megastore e comprar música portuguesa para oferecer. Só havia Madredeus (e é muito bom, mas gostaria de dar outras coisas) e gastei o que eles dizem, uma nota preta, pois comprei todos os cds. Depois em casa, instalada na rede da varanda resolvi fazer uma brincadeira. Jogaria ao amigo imaginário na entrega dos cds de presente. E fiz um poema para cada pessoa, que contivesse as características de cada um, mas sem dizer o nome. No final de ler o poema a pessoa deveria adivinhar para quem era aquele Madredeus. E assim, me vi pela primeira vez numa situação de quase protagonismo, a ler poemas e a fazer as pessoas rir e chorar numa despedida alegre e muito emotiva. No final da festa de despedida, Hernan, o perfumado, abraçou-me com força e disse-me uma coisa que me deixou triste e alegre: menina, você podia ter avisado que era assim tão inteligente. Fiquei com a sensação que ele me deveria achar uma tontinha, e de facto ele tem um ar tão confiante que sempre que tinha que falar com ele, eu só dizia disparates, pois intimidava-me muito (ainda me lembro da minha vergonhosa apresentação do meu trabalho e de como a minha incapacidade de argumentação perante as questões dele me fizeram evoluir).
Enfim, o que é certo é que a Io, no dia seguinte pensou que eu afinal não gostava apenas de fruta e me trouxe um saco de livros dizendo que eu precisava ler cada um deles para dar continuidade ao meu gosto pelo Brasil e pela cultura. No saco estavam preciosidades: Guimarães Rosa (o grande sertão veredas); João Cabral de Melo e Neto (Morte e vida de Severina do qual eu conhecia a versão musicada); Machado de Assis (Dom Casmurro); Guarani (José de Alencar...esse eu já tinha lido).
Vim cheia de música também. A Japinha que partilhava o quarto comigo encheu-me de Barão Vermelho e Cazuza. O Flávio gravou-me todos os Legião Urbana, Pixinguinha e Hermeto Pascoal. O Guilherme deu-me uakti, para além de inúmeras sugestões futuras e uma amizade que persiste.

Mas tudo isto para dizer que uma frase do próprio Guimarães Rosa poderia dar título à minha estadia em São Paulo: Felicidade se acha só em horinhas de descuido.

Aquele foi um tempo em que não dei conta que era feliz. Aconteceu. Por muitos motivos, entre os quais a sensação de passagem. A liberdade do desconhecimento. O tempo para viver. E também pelo facto de aquelas pessoas se terem disposto a quererem saber quem eu era. Nunca antes ninguém o tinha feito com tanta veemência.

De volta à vida comum, menos descuidada, na maioria dos dias é bem verdade que sigo um trajecto não direi hedonista que seria exagerado, mas epicurista e de adaptação. Procuro mais do que ser feliz, fugir da dor.
Até nos livros que consumo faço um rastreio minucioso dos seus efeitos. Por exemplo ultimamente, li uma viagem para a Índia que pretendia reler, mas percebi que não posso, para já. Segui então para o nocturno indiano de Tabuchi e restabeleci-me um pouco. Prossegui caminho para o Mario Vargas Llosa (Tia Júlia e o escrevedor) que acabei e me deixou de bom humor e com coragem para incursar no viagens (uma compilação lindíssima de poemas de Fernando Pessoa e heterónimos), e ainda a meio tive que desertar para reler o fim do fim do mundo do Sepúlveda que me caiu da estante como que a dizer, agora sou eu.

E assim a minha tendência epicurista para dar prevalência à intenção e a outras tantas características mais sonhadoras que concretizadoras, é também uma adaptação. Para que possa ter horas de descuido.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O que é Nacional é Bom - 1 - Samuel Úria



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Já há muito tempo que no supermercado fujo dos alhos chineses e das laranjas espanholas.
Não se trata  de chauvinismo, trata-se de ter concluído muito fortemente que quando em pequena me considerava "uma pessoa do mundo", era simplesmente ingénua. (é de família, o meu irmão fez cartões profissionais a dizer que a sua profissão era "Livre pensador"...ingénuo ao cubo)
É verdade que é um acaso, nascermos num local. Mas se insistimos nesse acaso e aí ficarmos corremos o risco de sermos afectados para sempre. Eu fui afectada para sempre pela língua portuguesa. Mesmo quando pouco viajada achava que outros lugares teriam tudo de melhor. Cedo concluí que não têm. Não porque não tenham mesmo, mas porque não têm o que me construiu.
Não acredito que cresçamos apenas para o alto. Eu cresço para dentro e quase impludo com falta de espaço interior para tanta sede que tenho. E se o faço é porque o acaso ditou que aqui nascesse e falasse com estas letras, que são as únicas no mundo inteiro onde me imagino morar.
Resolvi por isso aqui criar mais um daqueles projectos inacabados que gosto de começar e que de repente me esqueço e viro como um barco a seguir outra corrente. Mas fica a intenção, que para mim é a mais bela das utopias. As pessoas criticam severamente as intenções e aplaudem as acções.Mas eu gosto muito mais de um bem intencionado do que um intrépido actuante. E também essa minha preferência está em consonância com o meu desejo de estrugir e fazer sumo em português. Porque a característica mais utópica e bonita do tecido português (esse não sei quê que todos partilhamos) é intencionar mais do que agir. Que ajam os alemães que têm jeito para as máquinas e para despacharem o almoço às 11 da manhã ensopado em sauce. Eu cá prefiro ter a intenção  de trabalhar (ohne sauce aber mit bier!) e pelo caminho perder-me de amores por uma música.
Ah esqueci-me de dizer qual a nova intenção: todos os dias um O que é nacional é bom.

e já agora:

INTENÇÃO:

1. Resultado da vontade depois de admitir uma ideia como projecto
2. O que está planeado ou se pretende alcançar

versus

ACÇÃO:

1. Manifestação de uma força
2. Movimento ou actividade para obter um resultado

Não é evidente que a intenção é muito mais bonita? A intenção vive no plano cósmico, da teoria, do plano e da ideia. Alimenta-se da vontade. A acção é muscular, mexida, bruta... enfim cansativa




quarta-feira, 9 de maio de 2012

Música que passa na minha cabeça feita num 8 #1



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Esta cabeça twisted num 8 não é a mesma que dirigia o 205.
E hoje Marisa Monte é 2 sweet, 2 much
Pelo que a substituo já pe1os white stripes e este 7 nation army

só para não ficar 100 a senda numérica do meu m00d



Música que passava no meu peugeot 205 #5



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Conheci a Marisa Monte pelas minhas divagações pelo all music guide, meu desporto favorito de compensações pós-exames.
Assim, para levar a bom porto as épocas de exames da faculdade, no dia de cada exame, o meu prémio era ficar a deambular pelo site do AMG. Tudo funcionava mais ou menos desta forma: pensava num grupo de música, ou numa música que gostava muito. Pesquisava no AMG e depois havia uma parte no site que dava sugestões: "quem gosta disto, normalmente também gosta de x...e o link". E assim ia de x em x e de gosto em gosto a percorrer uma estrada musical ouvindo pelo caminho exemplos de músicas dos autores ou grupos sugeridos. Como passei uma fase exclusivamente MPB, da qual o Chico Buarque e o Vínicius de Morais me persistem, acabei por ir parar à Marisa Monte e ao seu cd rosa e carvão. Então no mecanismo compensatório habitual, no exame mais difícil, ou no fim dos exames eu fazia a minha incursão às lojas de vendas de cds para comprar um ou dois daqueles que mais se salientaram.
Não, nada de centros comerciais, a fnac foi uma bênção (?) tardia. Antes eu ia mesmo à baixa à tubitek e ainda a uma loja que ficava na 31 de janeiro, cujo nome não me recordo.
E depois passar do cd comprado para a k7 que ouviria no walkman e no meu Peugeot 205 era uma nova fase de deleite. Estar na sala a gravar a k7 com todas as músicas do cd e depois gravar outras com os mix de músicas preferidas e/ou temáticas, era puro prazer. Ainda hoje adoro a sensação de tirar o plástico tranparente de um cd e ficar no sofá a acompanhar as músicas com o livrinho.

Bem, Marisa Monte tem uma grande voz. Hoje em dia não a ouço muito, pois o seu percurso foi-se distanciando do que eu ouvi no rosa e carvão. Ainda a segui de perto por outros álbuns como o: Marisa Monte; o Mais e o Barulhinho Bom, mas depois perdi-lhe o rasto e zanguei-me com ela definitivamente quando a ouvi na muito batida música dos tribalistas, cujo refrão (amor I love u) me irrita solenemente por achar: 1) que a MM é melhor que aquilo; 2) que é muito piroso 3) que igualmente piroso é o sucedâneo brasileiro do nosso Vitor Espadinha que narra na música uma série de coisas tão pirosas como o refrão.

Desta Marisa Monte antiga que tem uma voz muito bonita (mais bonita ao vivo...sim também a vi no coliseu) deixo este "ao meu redor" que é a descrição na medida certa da presença de uma ausência.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Playing on my head's radio #496



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Tal como o próprio grupo, também eu gostei muito da aliteração do nome Franz Ferdinand, o que me despertou o interesse pela música.
Gosto muito desta banda escocesa formada numa cidade que também me trás recordações do meu Erasmus: Glasgow.
Um dia tive um episódio engraçado de "diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és" com um aluno numas aulas laboratoriais. No fim das aulas era costume os alunos colocarem a pen no pc da sala para trabalharem nos dados obtidos e ao ajudar um dos alunos vi a pen carregadinha de Franz Ferdinand. Perguntei-lhe se gostava e disse-me que era o seu grupo preferido. Senti que fazia sentido com a personalidade dele e ri-me internamente num matching game mental de atribuir a cada um dos alunos que eu ia conhecendo melhor, as suas bandas favoritas.

Esta música, não tão conhecida como o "take me out" é uma boa banda sonora para uma dança desenfreada ou para uma corrida valente no tapete do ginásio. Tudo o que me apetecia fazer e não posso.
Fica a imagem mental do bom que seria poder.

Musica que passava no meu Peugeot 205 #4



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Esta música cheira mesmo a juventude e a cantorias desafinadas no carro, com os vidros fechados. E a eufóricos momentos em que baixava a capota e sentia uma pequena invencibilidade a despentear-me os cabelos.
Here comes your man dos Pixies.
Costumava pensar...onde é que ele está que eu não o vejo?
Na verdade eu tinha um na altura, mas estava sempre a pensar que surgiria outro, o verdadeiro.

sábado, 5 de maio de 2012

Musica que passava no meu Peugeot 205 #3



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Só mais esta. Não resisti.
Joy Division também passava.

Música que passava no meu Peugeot 205 #2


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Já ando em modo de Tabu, a recordar o meu tempo.
A recordar o Concerto do Peter Murphy no Coliseu e a recordar Bauhaus que ouvia non stop no peugeot, som vindo das famosas K7s, com o charme da fita gasta que de vez em quando arranhava e distorcia um pouco a voz.

suspiro e retirada de cena para trabalhar

Música que passava no meu peugeot 205 #1


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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Azeitonas mas não azeiteiros


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Ouvi os azeitonas pela primeira vez num concerto de carnaval no Indústria há...4 anos talvez. E gostei muito. Hoje quando lamentava para mim mesma o facto de não me sair o euromilhões (mesmo assim sem jogar) para andar de aviões a conhecer o mundo lembrei-me desta música tão bonita.

Do facebook e outros demónios

Mais uma razão para eu não ter conta no facebook

sábado, 28 de abril de 2012

Playing on my head's radio # (não sei que número já)




Em Dezembro de 2009 eu tinha reparado nesta música da Márcia, mas agora surge a mesma música com o JP Simões.
Gostaria que o JP Simões se tivesse cingido à melodia e não a quisesse modificar, pois acho que lhe tirou musicalidade. No entanto no refrão acho bonita a conjunção das duas vozes, uma cristalina e cheia de seiva e outra cheia de fumo e coisas dolorosas.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mar e Mar













Via-me eu Marítima
pelo Mar contido no nome
e por trazer dentro a vontade
feita vaga
Ondas
que crescem e se desfazem
na violenta espuma

Sabia-me eu a Mar
de aparência plúmbea e azul
de guarda-sombras
E se faltarem evidências do mar que era
mostro dele os monstros marinhos
que me moram em aparente planitude

Mas tu Marinha, mais Marítima do que eu
Tu abrigas mais mar
Desse todo mar que é fresco e cura
Dessa tanta água que é prata e reluz ao sol
E reflecte as noites e o luar
Tu sim és feita desse mar que se estende
E atinge horizontes ou suspende
velas de barcos embalados nas ondas
Tu sim tens água límpida que brame e dá guarida aos corais

Não sei de que tempestade vieste
Sempre ouvi dizer que a corrente violenta
Traz ao areal uma paz posterior
Sei apenas que surgiste tu, Marinha
De um Mar melhor que o meu
Para me render o cansaço
De não mais maré sozinha

Saudade é...



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Como se no mundo sobrassem coisas e nenhuma dessas coisas fosse mais do que a procura da única coisa que não está lá.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tabu


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E num fim-de-semana prodigioso de tanto alimento para uma alma que já andava ressequida de falta de suprimento, vi eu Tabu de Miguel Gomes.
E orgulhosamente no meu peito luso e nacionalista, mais hoje do que nunca habitante da minha pátria a língua portuguesa e moradora confessa dessa lusitânia existência, afirmo que gostei muito do filme.
Tabu não tem uma existência precisa. Passa-se hoje e ontem. Fala de África e da famosa ferida dos retornados e do corte entre esse paraíso e o paraíso perdido, mas na verdade a localização temporal é qualquer uma, pois que o preto e branco imutável o colocam num patamar de memória, de filme de sempre e de material intemporal.
Acho que talvez o Miguel Gomes (lá me ponho eu a achar o que quero e o que tenho direito sobre aquilo que libertaram no mundo e que deixaram ao alcance da minha sobreinterpretação) se põe a pensar ou a ruminar bovinamente como eu que engulo as coisas e depois as processo. E nesse exercício, suponho que ele se tenha detido a pensar no que sobrevive ao tempo?
Pois que também eu me detenho vezes sem conta a pensar naquilo que vivendo neste tempo sujeito às intempéries, à chuva, à doença, à idade, ao desgaste, à ferrugem, à oxidação, mesmo assim algo sobrevive a tudo isto. O que sobrevive ao tempo?
E uma das coisas que perdura no tempo, seja este qual for, é a própria noção do tempo de cada um e é o amor. É a juventude e são as promessas. É a idade e são as memórias. Tempo, memória, recordação, sobrevivem até à hora da nossa morte.
Tabu é sobre tudo isto. É sobre a solidão e a loucura que ela traz, como salvaguarda de decepções. É sobre o abandono e a sobrevivência. E é sobre como sobreviver ao paraíso que foi a idade que definimos como tendo sido "o nosso tempo". "O nosso tempo" é a idade em que a nossa vida atinge um cume do viver pleno. Talvez daí a imagem analógica da vivência no sopé do monte Tabu. Nunca as personagens estiveram tão perto de poder subir como no seu tempo. O "nosso tempo" é o tempo do amor maior e de tudo o que parecia ser a base do que prometeríamos ser. Suponho que em todas as línguas e em cada país alguém à mesa de amigos um dia recorde o que fez "no seu tempo". Como eram os seus amigos de então? O que fizeram de factos heróicos e ridículos e de como riam? A memória de um cristal de existência é um bem comum a todos. Todos, nas nossas línguas múltiplas de torre de Babel, temos identificação com Tabu. E por isso é um filme belo e único, porque é nitidamente português, mas toca sentimentos universais.

Para quem não viu o filme: Aurora, senhora idosa, desconfia de Santa, a sua empregada de sempre. Aurora atormentada procura a vizinha Pilar e mostra inquietude atribuindo a sua solidão e o abandono da sua filha à macumba da empregada. Pilar ocupada com a solidão da vizinha, de forma a não se ocupar com a sua própria solidão, acompanha-a e percebe nela um reflexo da sua própria sobrevivência. Aurora morre, mas antes dá indícios sobre uma vida misteriosa que já viveu. Pilar segue a pista de um homem e conhecemos então Jean Luca que foi a personagem principal do tempo de Aurora. Num tempo de África, num tempo jovem e de crocodilos, onde o amor ditava os actos, Aurora casada com outro enamora-se de Jean Luca. Após uma tentativa um pouco atabalhoada de concretizar o amor que era belo, talvez porque era imaterializável, Aurora e Luca viveram vidas dispares, mas nunca mais as mesmas. No final dessas vidas só essa recordação subsistiu como última memória. A memória do tempo de cada um, a que cada um sobrevive no dia-a-dia, mas que ninguém esquece.

No caminho do bem



A "Alma" do TNSJ tem para mim grande parte do mérito em algumas resoluções cénicas e/ou dramatúrgicas como a imagem esplêndida de uma alma ginasta que (per)corre o seu caminho.
Esplêndida a ideia de apresentar a alma em fato de treino, despojada de grandes adornos e quase pluma de tão magro corpo, que não faz sequer barulho num estrado. Este estrado também não inocentemente ali colocado a nos lembrar muita coisa, desde suportes de andores em procissão, a esteira fitness um pouco mais espartana ou a palco sobre o palco na alusão do teatro da vida dentro do teatro que está dentro das vidas que o assistem.
Fora uma certa antiguidade das peças morais e das alusões teológicas (que a mim me provocam sempre afastamento e confesso alguma repulsa) a que é difícil de escapar, tudo o resto é moderno e conseguido nesta peça com o mérito último de ser também uma peça aberta. Óptimo para ver e engolir sem mastigar. E depois de volta a casa, como as vacas ruminar aos poucos tudo o que se viu. Assim é para mim o bom sabor do teatro. Material para pensar por vários dias e a várias horas. E mesmo a várias fases da nossa vida. Desde o eterno debate do caminho, às viagens iniciáticas e à aprendizagem da jornada. Tudo nesta peça é material para paralelismos com a (minha) vida.

Voltando à peça. Uma alma corre leve e despojada. Até que aquela alma leve e lesta é tentada a usar pumps e vestir longos trajos rubros. A se enfeitar. A se demorar e contemplar. E todos os adornos a tornaram assim mais visível, menos pluma e mais corpo material. Porém, após um certo período de euforia a alma cai em si e todos aqueles acrescentos e brilhos acabam enfim por ser entraves à caminhada.
E é aí que novamente se transmuta o chão esteira, que de caminho a percorrer se torna obstáculo a saltos stilettos. E o chão vira também cruz e simbolismo na igreja onde a alma arrependida por meio do sacrifício retoma a condição de alma caminhante, novamente determinada e em passo de corrida.

Se a mesma alma é quem termina a correr, não sei. No fim pareceu-me ver-lhe sabrinas e não pés descalços, a lembrar que não mais a mesma ela seguia, não incólume ao que lhe sucedeu. Talvez fosse quase a mesma, mas com um acrescento, depois de uma aprendizagem. E talvez aquele acrescento fosse o indício de que, mesmo assim, corre sempre com ela a não garantia de que outros desvios lhe sucedam.

À parte de tentações e de figuras de diabo e anjo, esta peça faz-me pensar no que sempre penso, e que não afiguro como um caminho do bem ou de um desvio para o mal. Dêem-lhe os nomes que quiserem, mas em nós, religiosos ou não, há sempre esse percurso e essa dualidade de saber por onde vamos. Essa dialética existe em mim, não lhe chamando o bem ou o mal, chamo-lhe procurar alguma espécie de essência daquilo que sou na realidade, quando elimino tudo o que é acessório. E a dificuldade de sentir essa essência perante tanto ruído externo. E a dificuldade de perseguir essa essência perante tantos diversos caminhos e opções. A dificuldade de manter o espírito de jogging sabendo tão pouco onde está a meta...ou se uma meta existe. A dificuldade em insistir em correr quando parando em momentos se percebe haver pouca meta ou propósito.
Esta é a dificuldade de cada um. Ou dos que se dêem ao trabalho de ruminar depois de terem engolido.´

(e agora surgiu-me uma nova interpretação. Aquela correria em oposição ao comummente entendido estado estático meditativo. Será que aquela corrida é uma urgência, um eminente sentido a descobrir, ou não será que a corrida é o evitar parar para pensar? O diabo na peça apela a que a alma se detenha. O anjo fala em urgência e apela ao movimento. Todas as almas obreiras que se ocupam com o movimento correm (interessante este verbo aqui) menos riscos de se dedicarem a melancólicas conclusões que as façam pensar: correr para quê?)

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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Melodia Sentimental

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 Não conhecia Villa-Lobos até ir para São Paulo e no meio da conversa um tanto afectada de Hernan o perfumado, surgir a sua referência. Villa-Lobos, não obstante pousar na música erudita clássica, introduz exotismo na música. Como se misturasse Bach com o índio e a amazónia e ignorasse a imiscibilidade dessas misturas. Com ele aprendi parte de uma grande lição que venho a confirmar consecutivamente: a qualidade depende de conseguir misturar o que queremos fazer com aquilo que somos. São bem sucedidos todos os cineastas, músicos, escritores que põem no que fazem a honestidade das suas origens independentemente do estilo que procuram ou do tema que propõem.

Desvendando a Hidra

Há uns tempos, por pura diversão dediquei-me a pensar numa Hidra feita de um corpo e muitas cabeças.


Pode à partida não se perceber a lógica nesta selecção. Nem eu mesma racionalizei muito sobre o assunto. São homens dos quais conheço apenas a sua faceta pública e que, mesmo sabendo que incorro num razoável erro de desconhecimento pela ignorância das suas outras facetas, admiro por razões múltiplas: beleza, carisma, sensibilidade, um pormenor, distinção, génio.
De cima para baixo, da esquerda para a direita:

Johnny Depp = "Eduardo mãos de tesoura" e outros filmes do Tim Burton são a faceta de Johnny Depp que me fascina. Nessa parceria encontro extravagância; carisma; beleza e capacidade camaleónica.

Daniel Day-Lewis = The master of disguise. É capaz de ser o meu actor preferido. O rei dos camaleões que faz papeis muito diversos entre si e dele próprio: "Gangs de Nova Iorque", "Meu pé esquerdo", "There will be blood", "Em nome do pai". Estou sempre ansiosa para ver um filme dele.

Edward Norton= "Primal Fear", "Fight Club" e "American history", este último fundamentalmente, e uma cena de um olhar gélido são suficientes para o colocar numa cabeça da hidra. Não é bonito, nem alguém cujos traços sejam marcantes e no entanto transmuta-se quando representa e torna-se magnético.

Gael Garcia Bernal = Há cabeças para as quais não tenho grandes razões. Não é um talento inusitado, mas é mexicano (não se trata da minha atracção xenófoba por tudo que é não americano, mas sim pela graça do espanhol sul-americano...é uma delícia ouvi-lo) e esteve muito bem nos "amores perros". Esteve mal como Che Guevara, pela sua compleição física que nada tem a ver com a de Che. Esteve mal como padre Amaro na versão mexicana do nosso crime. Mas é muito bonito e tudo se lhe desculpa, bastando ficar a olhar para ele, para os olhos dele, para o sorriso dele. Enfim.

Jude Law = Mais uma cabeça estética. Nunca sei se ele representa bem. Ainda não teve oportunidade para fazer nenhum papel de destaque, ou simplesmente é ele que não se destaca. Mas talvez aconteça aos outros o que a mim me acontece. Esqueço-me de atentar no papel, bastando-me vê-lo e vê-lo e vê-lo.

John Malkovich = Este homem é um portento de carisma. O seu ar meio enfadado, lânguido ou irónico. A sua voz cansada do mundo que esconde mil intenções. Vi-o pela primeira vez no "ligações perigosas" a fazer de Vicomte de Valmont e senti-me aquelas meninas da época seduzidas por tão vil e deliciosa criatura. Há beleza que não é literal.

Neil Hannon = Apaixonei-me por ele quando o ouvi cantar "Cathy" para Rodrigo Leão. Que homem franzino e que grande ele se faz a cantar amor e poesia. Fui cavar fundo os Divine Comedy como faço sempre que alguém me suscita a curiosidade. E estava lá tudo o que já tinha visto: sensibilidade, inteligência; refinamento.

Manuel Cruz = Este homem não acaba. Para mim é a cores, pela sua capacidade de se reinventar. Todos os grupos que cria são bons. Tem ar de atormentado, enigmático e também de alucinado e sensível. A interpretação musical que ele faz em todas as músicas é muito mais do que a sua capacidade vocal. É como o Edward Norton, uma figurinha aparentemente plácida, mas que se transmuta e se torna magnética.

Chico Buarque = O meu Chico Buarque de todas as minhas horas e de toda a juventude, velhice e sempre. Ele é a cabeça da hidra. Nele todos os predicados. Nos livros, na música e no teatro é sempre sofisticado, sensível, inteligente e belo. Para mim, um génio.

Jeremy Irons = Outro portento de carisma e estilo. Um ar não totalmente declarado, com uma ponta de mistério e muita discrição. Faz sempre bons filmes. "Madame Butterfly" e os "Irmãos inseparáveis" são prova disso.

Joaquin Phoenix = É a hidra da distinção. Aquela cicatriz conjugada com uma cara de "not so good boy", faz pensar numa alminha atormentada e eu tenho uma mega tendência para elas como as borboletas para a luz. Além disso fez de Johnny Cash muito bem.

Leonard Cohen = Aquela postura de sentimento com a mão fechada e o chapéu negro no concerto a que assisti comoveu-me às lágrimas. Há tanto tempo que o ouço e admiro. Letras magníficas muito criticadas por uma irreverência e crueza de juventude, que a mim só me seduz.

Jorge Palma = Adoro-o. Na sua irreverência, na sua exposição pública. Por não se saber resguardar e pela melancolia que nele vive. Adoro-o mesmo quando bebeu demais e estendeu o concerto sem voz nem acerto. É muito poeta e muito sensível. E mesmo que perdido quando dizem que deveria ter idade para ter juízo, a loucura dele é a mais bela de todas as utopias: a de continuar sem saber muito bem viver.

Yann Tiersen= Talento. Chama a beleza pura para a música. Sempre que penso nele penso em imagens bonitinhas como penas a oscilarem no ar e gotas de chuva na contra-luz ou em flocos de neve ao microscópio. Invoca o meu lado sinestésico e sonhador.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Da Incapacidade para a in capacidade

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Depara-se mais uma vez com os prefixos In e Des que insistem em colar-se às palavras.
Há uma série de coisas práticas que é preciso fazer e olha a lista de afazeres como a uma montanha inóspita que evita escalar.

Porquê este retrocesso, questiona-se?

Porque sabe que no mundo há sempre muitas maneiras de ver as coisas.
Porque sabe que este frio se acalma com o calor da cama, com o conforto de um chá.
Aprendeu as técnicas de um réptil para escapar a qualquer perigo. Aprendeu a amar coisas pequenas e a construir o riso dente a dente.

Porquê este retrocesso?
Porquê esta recaída no lugar da incapacidade, da insónia, da desmotivação, do desalento?
In e des são só prefixos que entende como meras letras apensas a palavras. E no entanto por estes prefixos escorrega de volta à cordilheira montanhosa das simples tarefas. Escalar a vontade como a uma montanha. Fazer do in uma inserção e desfazer o des à chapada.

Conseguirás. Tens na memória de réptil, a altura em que te livraste da pele como de uma carcaça. E em que te renovaste e surgiste daquilo que parecia mirrar. Agarra esse pensamento e respira fundo tu que já sabes o que isto é. Fortalece os músculos e o brio e destranca as portas, os travões e a dor. Destrava essa dor, para que respire e não se alimente qual organismo anaeróbio.
Conseguirás. Clica em play e no final da música espera-te o reinício.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Parabéns Francisquinha

A minha Francisquinha ganhou um concurso de poesia interescolas com este poema:


Música

Música minha paixão,
Ouço-a nos ouvidos
E sinto-a no coração.

Música minha adorada,
Não vivo sem ti
Porque estou apaixonada.

Música minha grandeza,
Contigo sinto-me viva
E também em tristeza.

Música grande invenção,
Se não existisses
O que seria do meu coração?

Francisca (10 anos e muita sensibilidade)

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Flautista de Hamelin

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Ainda retomando o tema das bandas sonoras, não percebo como é que esta música nunca foi escolhida para acompanhar as imagens de alguém.
Tem uma combinação de improbabilidades que a tornam misteriosa e bela. Por um lado o tom antiquado da voz em contraponto ao canto que parece ser angelical e sedutor. Por outro lado o tom delicodoce leva-nos a embalar numa sensação de que seguimos Hamelin e a sua flauta em direcção à pureza.
Mas enquanto inebriados seguimos a voz de seda, esta profere palavras ao amante e aos saturnais destroços de um amor. O desejo que a voz doce pronuncia, é afinal louco; o canto límpido e hipnótico é rouco e de paixão dilacerante.
E a música corre num crescendo até se perceber que o excesso leva à combustão. E o flautista que habilmente nos conduziu mostra-nos enfim o abismo que esteve sempre à espera da carne exausta. No fim os despojos das sangrentas bodas: apenas os ossos e os destroços do amor que duplamente é fatal (de morte e de destino impossível de evitar). Fantástica ainda a subtileza com que no final se aceita esta resignação da fatalidade e a voz enfim abandona o tom angélico e acaba grave.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu não sou eu nem sou o outro


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Gosto especialmente de livros que mostram viagens erráticas, onde a personagem é alguém com alguma indolência. Porque, a bem da verdade dá preguiça viver todos os dias. E conhecer pessoas. E desconhecer pessoas. E saber onde ir. E levantar e tomar decisões como quem toma um duche ou muda de roupa. Talvez fosse mais fácil viver se o pudéssemos fazer de vez em quando. De uma forma intermitente. E se nos intervalos pudessemos sair por aí assumindo que verdadeiramente não sabemos muito bem se alguma destas coisas nos interessa, ou se apenas o fazemos por hábito e algum comodismo.

Penso mesmo que, não fosse por uma série de imposições sociais, a maior parte de nós viajaria erraticamente. Mas de uma forma mais ou menos titubeante (o pretexto também existe para usar belas palavras) nos mantemos, todos aqueles que se equilibram em cima da linha, como um artista de circo bêbado. E assim vamos seguindo com a queda eminente a apelar aos ouvidos doces tentações.

Muitos de nós não resvalamos na indolência, pela própria indolência de tomarmos essa decisão. Por vezes também tomamos à letra as castrações sociais e a voz materna das palavras que nos repreendem baixinho. Assim a palavra "Errante" repreende quem a usa, pois induz afinidades com o erro. No dicionário, "errático" é associado a "aquele que se desvia das normas", mas também a "vagabundo", "desorganizado", "imprevisível".

Há três livros que li, e de que gosto muito, em que o percurso errante é a personagem principal. O "Estorvo", de Chico Buarque, é muito consciente em assumir esse lado deambulatório. O CB vai até mais longe e traça uma série de associações sobre os sinónimos da palavra estorvo, numa linha horizontal que acaba por se fechar em círculo na palavra estorvo. Neste livro caminhamos de uma forma errática entre o sonho e a vigília com um personagem que se sente perseguido e toma a perseguição como desculpa para a própria fuga. Ele foge ao acaso de tudo que estorva o seu caminho. Das festas sociais, da cidade, das vozes dos outros, da pobreza, do crime, de si mesmo e do olho mágico. E o olho mágico tem mesmo essa função de iniciar uma jornada dupla: a do homem que olha para fora da porta e a do homem que é visto atrás da porta. E assim tudo se duplica em reflexos de espelho. O homem a quem os outros estorvam é um estorvo para eles. O homem que foge de tudo, corre atrás de alguma coisa. O homem sonha a vigília e vive como num sonho.

O "Nocturno Indiano" de António Tabucchi assemelha-se muito a este estorvo. No livro, a pretexto de encontrar um amigo antigo, um homem erra pela Índia, num percurso nocturno por hotéis e zonas pouco turísticas. Na errância do percurso percebe-se que a procura é também dupla, e um vidente deixa essa premonição ao homem e ao leitor: ele não é ele, mas o outro.
Uma procura de um amigo que exista ou não (pouco importa) é no fundo a viagem paralela de um homem que se procura a si mesmo. Mas ainda assim, de forma indolente. Menos corajosa e assumida que a de estorvo, a viagem que este homem usa com propósitos socialmente aceites (ir a Goa procurar num acervo literário informação para algo de cariz vago e histórico que irá escrever) resvala num percurso errático com o pretexto da busca do outro que se pressente ser ele próprio, afinal.
Este livro é ainda e também (tal como o estorvo) um pretexto maior para deixar escorrer a escrita, ao sabor da pena. E são estes livros que me sabem melhor, pois o principal enredo é a palavra. A palavra a par com a solidão que existe em todos nós e que nos empurra para dentro e para longe do que fora nos rodeia.

Por fim, falei em três e falta o terceiro. É ele o "Barão trepador" de Italo Calvino: um livro terno, melancólico, poético e maravilhoso.
Cosimo o filho de um barão, decide viver para sempre em cima das árvores. É também esta a história de um personagem errante que decide isolar-se do mundo vivendo acima dele. É um livro que nunca esqueço, mesmo com a minha falta incrível de memória, e que de uma forma pungente traduz a solidão daqueles que assumem que estão à margem e que se auto-expulsam quando a dor de não pertencer se torna mais viva que a capacidade de tentar ser aquilo que esperam de nós.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobrinha de peixe, peixinha é

Da pilha de post-its amarelos, rosa, verde e laranja eu tinha destacado os laranja e estava a usar esses apenas.
Pergunta a Francisquinha: Porque é que desmanchaste a pilha e estás a usar a última cor?
Respondo que gosto dos laranja e depois dos amarelos e só quando não tenho hipóteses é que uso os verdes e os rosa.
- Não gostas dos verdes e dos rosa?
- Não.
- Porquê?
- Os verdes dão-me a sensação de frio e os rosa enervam-me
- Mas esse verde lembra as bebidas de verão, e lembra o limão. Eu gosto desse verde
- Pois, mas o verde é amarelo e azul e deve ser o azul que me faz frio
- Ah...eu não gosto nada do azul
- Mas tu trazes vestido um casaco azul, Francisquinha?!
- Sim, mas eu não gosto é do azul claro que vem com os marcadores, sabes qual é? É enjoativo. Este mais escuro da cor do meu casaco faz-me sentir bem.
- Estou a ver que tens a mania da sinestesia como eu (explico-lhe o que é sinestesia)
- Se calhar é como quando eu penso nas cidades. Por exemplo, Armamar para mim é uma cidade gorda
(Ri-me com sensação de identificação)

terça-feira, 27 de março de 2012

A árvore dos lugares comuns

Crítica ao filme "The tree of life" de T. Malick:
"Those less inclined to be generous might note that the central section of Tree is a mass of clichés: a baby being born to adoring parents mesmerized by his tiny foot, kids roughhousing in the front yard, a long-suffering mother long suffering,(...)
But holiness is the theme here, as frequent invocations to God and family – all breathed in a pseudo-profound whisper – make clear (...)
Bringing up questionable dichotomies between grace and nature via voice-over helps little. These people are simply clichéd props to deliver Malick’s increasingly out-of-touch vision of dubious spiritualism."

Bem, pensei que estava sozinha no mundo. Sou um bocado fundamentalista nas opiniões sobre os filmes. E sobre o filme tree of life a minha opinião é: clichés em cima de clichés, adornados com imagens pseudo-profundas e a cereja em cima do bolo é uma irritante voz de narrador em sussurro. Um filme assumidamente mau e pseudo-intelectual sem pingo de profundidade, apenas lugares comuns a começar pela imagem do pézinho do bebé.
Bem, dá-se o caso que quando tão veemente (convicta que seria entendida) expressei esta opinião, vi que estava sozinha. Os meus amigos tinham gostado (não só gostado, mas gostado muito), e as opiniões são polos opostos da minha.
 E isto, que poderia ser entendido apenas como uma série de opiniões diversas da minha, na verdade na minha cabeça torna uma proporção mais preocupante. É que eu vejo placards luminosos em cima da cabeça de pessoas que admiro e gosto. E gostar de filmes do calibre do "tree of life" é razão para fundir uma meia centena de luzes de uma só vez nesse placard luminoso.
Serviu-me de consolo o facto de ter lido no indiewire, no meio de tantas aclamações ao filme, uma alma caridosa (e com um placard certamente resplandescente de brilho e luz) que partilha inteiramente a minha opinião - Senti que ainda há esperança no mundo. Uffa!

domingo, 25 de março de 2012

A que soa o envelhecimento?

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Esta música é, a par com "que o amor não me engana", a minha preferida do Zeca Afonso.
Ouço nas músicas do Zeca Afonso muito mais do que mensagens de intervenção.
Esta obviamente contém uma mensagem política de revolta e de mudança. Mas isso está apenas na superfície da música.
Quando a ouço (e esse é o mal de tornar algo público) sou eu que ouço. E como sou eu que ouço, apodero-me da música, pelo que aquelas palavras servem para os meus egoistas propósitos. E antes do meu país estou eu. Eu e o meu mundinho privado de revoluções e quedas de regimes.
Hoje, para mim, estas palavras são o revés do "parabéns a você".
Porque envelhecer é uma morte lenta do que fomos.
Dia após dia algo do que eramos se transmuta numa outra coisa. Não necessariamente pior ou melhor, mas apenas diferente.
Mas há partes do que somos que lamentamos perder.
E o pintor, aquele que fantasia dentro de nós, é sempre a primeira vítima.

sábado, 24 de março de 2012

A que soa a indiferença?

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Alienada
Ali é nada

quinta-feira, 22 de março de 2012

Reposição da verdade sobre as bandas sonoras


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Não é verdade que não haja nenhuma banda sonora de um filme que me diga alguma coisa.
Há algumas que me ficaram na pele, ao ponto de não saber se a música acompanhava o filme ou o contrário.
E lá vai a famosa lista de filmes com bandas sonoras que comprei, pois não consegui olvidar (forma tão mais bonita de esquecer esta):

- "In the mood for love" (Yumeji's Theme é uma música que não sai da pele, nem depois de esfregar com força....o tema de Angkor Wat também é lindíssimo....e o Nat King Cole de quem não gosto especialmente fica lindíssimo no filme)
- "Le fabuleuse destin d'Amelie Poulin" e "Goodbye Lenin" como tudo que o maravilhoso Yann Tiersen faz também estas bandas sonoras o são e consequentemente os filmes são mágicos
- "Trainspotting" contém pérolas atrás de pérolas....impossível esquecer a cena da overdose com a música "Perfect day" do Lou Reed....Passenger do Iggy Pop...New Order...impossível esquecer a música "Lust for life" que acompanha a correria  do Ewan McGregor que quase a ser atropelado salta sobre o capô do carro e fixa os olhos no condutor.
- "Habla con ella" com o Caetano Veloso a dar show. Mas esta já é uma característica do Almodovar que escolhe canções lindissimas para os filmes (ver em cima a Luz Casal...perfeita)
- "Os mutantes" da nossa Teresa Vila Verde....o fim do filme ao som do "Que o amor não me engana" do Zeca Afonso (deviam esquartejar a Dulce Pontes pela versão horrorosa que fez desta música) é de uma pungência atroz...não consigo deixar de reviver a cena do aborto do filme no WC da estação de serviço e  quando ouço a música chego mesmo a sentir o frio dos azulejos
- "Chocolat"- toda a banda sonora é gira, mas a minha preferida é a "minor swing" do Django Reinhardt
- "Madame Butterfly"- O filme é arrebatador. Não consigo esquecer o papel de Jeremy Irons. E claro que a opera de Puccini é lindíssima
- "O Fantasma da Ópera" - Gostei do filme e adorei o fantasma. Não percebo o que a Cristine viu no outro deslavado. Também tenho-o sempre na cabeça: "the phantom of the opera is there inside your mind"
- "Platoon" e "Apocalipse now" impossível não gostar
- "Dancer in the Dark" de Lars von Trier com a Bjork....a banda sonora é uma obra de arte com o nome de "Selma songs"

Uma viagem à Índia - primeiras impressões

A que soa o caminho


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Sempre achei um disparate, qualquer plano de viagem à Índia, que um qualquer amigo pseudo-filosófico/intelectual se propunha a encetar com a típica mochila às costas.
Mas sempre achei um disparate, por um cinismo que guardo dentro de mim para espantar coisas sobre as quais não quero pensar. O velho truque da cauda de vaca que espanta as moscas: assim é o meu cinismo para com as ideias que me encostam à parede.
Só que ultimamente, não sei se pelo inexorável poder da velhice que me está a acontecer, resolvi ser mais franca comigo mesma.
Afinal de contas, sempre detestei o amargor das pessoas cínicas, porque então não perceber que sou também eu uma cínica? (e quase orgulhosa disso)
Claro que não mudei de opinião sobre existir um certo lirismo gasto na opção de "se ir encontrar para a Índia". No alto do meu cinismo atirava sempre a mesma previsibilidade: porque não te vais encontrar ali para os lados da Afurada?
Não mudei de opinião sobre o facto de achar incoerente esse desejo de encontrar a metafísica e a espiritualidade em espaços confinados de puro material. Porquê ir à Igreja? Porquê acender a vela aos pés de um santo de barro? Porquê rezar a mexer nas missangas de um terço? Porquê rezar uma ladaínha decorada? Porquê ir à Índia. Porquê ir? Se esta viagem que os meus profundos amigos almejavam, era no fundo a viagem que se faz quando se está paradíssimo e só com os seus botões. Para quê a mochila....porque não apenas os botões e porque não no sofá mesmo?.
Enfim...mas hoje mais branda percebo melhor o simbolismo da Índia. E percebo até melhor o simbolismo que uma viagem real externa pode trazer ao interior. Pois que é uma espécie de travessia física para cansar o corpo e no fundo o anular. E assim a viagem, o caminho, o cansaço em tudo concorrem para apenas sobrar pensamento. Sempre percebi isso, mas fiz-me sempre de tonta. Porque sempre que iniciei essa viagem assustadora e solitária da confrontação comigo mesma, queria fugir para longe. Para o filme mais próximo, para o livro mais próximo, para a música mais próxima.
Talvez porque na verdade nunca tive grande dificuldade em partir para a Índia sem sair do lugar. Talvez por isso, pela facilidade com que o faço é que não quisesse fazê-lo e achasse risível aquele desejo dos outros. Pois não é nada fácil assumirmos o silêncio e depararmo-nos com o que somos a cru. Sem cenários, sem escapatórias e sem protecções.

Mas este foi um aparte para as minhas primeiras impressões deste livro maravilhoso.
Tenho tanto de cínica como deslumbrada e intensa de opiniões ("intensa de opiniões" em vez de "excessiva"- os eufemismos e todos os recursos linguisticos são a melhor invenção do mundo...panaceias para suavizar arestas) e por isso o que eu vou dizer vale o que vale: este é um dos melhores livros que eu já li.
Trata-se de uma viagem metafísica e metacárnica de Bloom à Índia. Uma epopeia com o mote dos Lusíadas, que levavam os ancestrais heróis a descobrir o caminho para lá chegar. Bloom encontra o mundo já descoberto, mas nem por isso a sua epopeia é menor. A epopeia de Bloom é a mesma que cada um de nós tem medo de iniciar e que vai adiando com as tarefas diárias, ou que vai desprezando com o cinismo confortável. O acto heróico de Bloom é o próprio caminho. Compreendo bem que a Índia para Bloom vale tanto como a Índia do meu cinismo. A Índia é apenas a personificação de um objectivo, do conhecimento, da reflexão.
Percebo bem que a Índia personifique todos os mistérios. Um país que desconheço e que imagino como a cheirar a especiarias e a lixo. Uma água que purifica e onde despojos da vida flutuam. Um país de intensas cores e extrema pobreza. A Índia e a viagem até ela é a viagem da busca do conhecimento interior e de todos os óbvios contrastes que se apresentam quando nos dispomos a ter tempo e espaço para reflectir. E a viagem de Bloom e do livro é uma leitura que nos faz pensar a cada frase. E que nos obriga a deixar de cinismos e a pegar na mochila.

(ainda vou no canto VIII...quando acabar vou voltar a ler o livro)

domingo, 18 de março de 2012

A que soa o passado?


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O meu tresanda a Velvet Underground e Nico e Lou Reed e ainda John Cale.
Ouvia incessantemente.
Quando ainda ninguém (ou muito pouca gente) andava a navegar na net, eu descobria o chat e o irc. O saudoso icq. E neles era Sweetjane. Homónima da música dos Velvet.
Talvez por isso hoje não tenha paciência para o facebook. Mergulhei com intensidade suficiente na existência virtual e na conversa de projecção "do que sou, quem tu és, nós com mais uns pozinhos", que agora fujo do msn com força, guino para não embater no facebook e uso com parcimónia o skype e os emails.
Sim e escrevo aqui. Mas aqui tudo me parece menos estridente. Debito o que entendo. E não tenho que colecionar amigos ou likes. Já passei mesmo essa fase e esgotei-a por completo.
Mas os velvet não se esgotam. Ficam de reserva para quando me esqueço de que parte de mim vim.
A música é um botão reset poderoso.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A que soa a mudança?


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"Não dizer: sou grande, mas falta-me a metade de tudo,
Dizer sim: falta-me metade de tudo,
mas sou grande.
E mudar a localização do positivo e do negativo
altera muito, como bem se sabe"
(do livro Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, que leio a conta-gotas para saborear cada palavra)

terça-feira, 13 de março de 2012

A que soa a confiança?


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Mais do que o tempo, às vezes são as pessoas que nos envelhecem
Sinto muitas vezes um cansaço imenso da previsibilidade dos outros
E isso, só isso me faz entortar as costas e hesitar o passo
Mas entretanto ainda acordo e cuspo de mim este peso
Este excessivo cansaço que me verga
Esses espartilhos que me cambam o andar
E diriam quem me visse assim louca e de batom vermelho
A dançar ao espelho
Que sou menos velha
Do que eu